Entre Armas e Abraços
Claro, vamos dar vida a "Entre Armas e Abraços"! Prepare-se para mergulhar em um mundo de paixão, perigo e escolhas difíceis.
por Mateus Cardoso
Claro, vamos dar vida a "Entre Armas e Abraços"! Prepare-se para mergulhar em um mundo de paixão, perigo e escolhas difíceis.
Entre Armas e Abraços por Mateus Cardoso
Capítulo 1 — O Sopro do Vento na Pele Marcada
O ar da noite em São Paulo tinha um perfume peculiar, uma mistura inebriante de poluição, asfalto quente e o cheiro doce e amargo das flores que teimavam em desabrochar em meio ao concreto. Marina sentia esse perfume na pele, um lembrete constante de que, apesar de tudo, a vida persistia. Ela apertou o xale sobre os ombros, o tecido fino de seda oferecendo pouca proteção contra o vento gelado que varria a Avenida Paulista. A vista lá de cima, do seu apartamento modesto, mas acolhedor, era um espetáculo de luzes cintilantes, um mar de estrelas artificiais que pareciam competir com o céu real, quase invisível sob a névoa luminosa da cidade.
Mas naquela noite, as luzes da cidade não conseguiam ofuscar a escuridão que pairava em seu peito. Cada reflexo nos vidros da janela parecia distorcer seu rosto, revelando as linhas de preocupação que se aprofundavam em sua testa, as olheiras que denunciavam noites mal dormidas. A vida, nos últimos meses, parecia ter se tornado uma sucessão de dias cinzentos, um eterno lutar para manter a cabeça acima da água.
O som do telefone a tirou de seus devaneios. A tela exibia um número desconhecido. Marina hesitou. Quem a ligaria a essa hora? Sua mãe, Dona Clara, já estaria dormindo. Seus poucos amigos raramente se aventuravam a ligar depois das dez da noite. Por fim, a curiosidade, ou talvez um pressentimento, a fez atender.
“Alô?”, sua voz saiu um pouco rouca, quase um sussurro.
Uma voz masculina, grave e polida, respondeu do outro lado. “Senhorita Marina Oliveira?”
“Sim, sou eu.” A apreensão começou a crescer em seu estômago.
“Meu nome é Ricardo Almeida. Falo em nome do Dr. Valerio Bianchi.”
O nome soou como um trovão em um céu de verão. Valerio Bianchi. O nome sussurrado em corredores de poder, o homem que controlava boa parte do submundo paulistano com mãos de ferro e sorrisos calculados. Marina sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O que ele, de todos os homens, poderia querer com ela?
“Dr. Bianchi?”, ela repetiu, tentando manter a voz firme. “Eu… eu não conheço o Dr. Bianchi.”
“Ele tem um assunto de interesse mútuo a discutir com a senhorita. Um assunto urgente.” A voz de Almeida era firme, mas não ameaçadora. Havia uma formalidade que beirava o respeito, mas que Marina interpretou como uma formalidade fria e distante.
“Assunto de interesse mútuo? Não entendo. Eu… não tenho nada a ver com os negócios do Dr. Bianchi.”
“A senhorita pode não ter, mas a memória do seu pai, Sr. Antônio Oliveira, sim.”
O nome do pai. Antônio Oliveira. Aquele nome, que ela havia tentado enterrar junto com a dor, ressurgiu com força brutal, rasgando a camada fina de normalidade que ela havia construído sobre as ruínas de sua vida. Antônio Oliveira, o homem que um dia fora seu pai, um homem bom e trabalhador, que havia se envolvido com as pessoas erradas, com dívidas impagáveis, e que, por fim, havia desaparecido, deixando para trás apenas o escândalo e o vazio.
“Meu pai…”, Marina engoliu em seco. “Ele se foi há muito tempo. Não há nada que possa ser feito sobre isso.”
“Dr. Bianchi acredita que há. E ele acredita que a senhorita é a chave para resolver essa pendência.” Havia uma pausa. “Ele gostaria de recebê-la amanhã, às dez da manhã, em seu escritório na Avenida Europa.”
A Avenida Europa. O endereço de luxo, de mansões opulentas, de um mundo que era o oposto gritante do seu. Marina sentiu o estômago revirar. Ela sabia que era perigoso. Sabia que se envolver com alguém como Valerio Bianchi era como brincar com fogo. Mas o nome do pai, a promessa velada de que algo poderia ser resolvido… aquilo mexeu com algo dentro dela. Uma mistura de revolta, de saudade e, talvez, de uma esperança tola.
“Eu… eu preciso pensar.”
“Dr. Bianchi não costuma dar segundas chances, senhorita Oliveira. A decisão é sua, mas o tempo é escasso.” A linha ficou muda.
Marina permaneceu com o telefone na mão, o toque fantasma da voz de Almeida ecoando em sua mente. Ela caminhou até a janela, olhando para a cidade que parecia tão indiferente à sua luta interna. Valerio Bianchi. Um nome que evocava medo e fascínio em igual medida. Ele era conhecido por sua crueldade, mas também por sua inteligência aguçada e por uma estranha lealdade para com aqueles que ele considerava seus.
Seu pai, Antônio, sempre fora um homem de bom coração. Um mecânico habilidoso, com mãos calejadas e um sorriso fácil. Mas a vida o havia traído. As dívidas se acumularam, e em desespero, ele buscou empréstimos em lugares perigosos. Marina se lembrava vagamente das discussões, das noites em que o pai saía de casa com o semblante sombrio, das vezes em que ela, ainda criança, ouvia os sussurros assustados da mãe.
Quando Antônio desapareceu, Marina tinha apenas dezesseis anos. A polícia investigou, mas logo o caso esfriou, engolido pela burocracia e pela falta de pistas. Sua mãe, Dona Clara, definhou aos poucos, a tristeza a consumindo. Marina, com sua força de vontade inabalável, assumiu o papel de provedora. Trabalhou em diversos empregos, estudou à noite, e lutou para dar a sua mãe uma vida digna, longe das sombras que haviam ceifado o pai.
Agora, esse fantasma do passado, personificado em Valerio Bianchi, batia à sua porta. Seria uma armadilha? Uma tentativa de extorsão? Ou, quem sabe, uma oportunidade inesperada de fechar um ciclo doloroso? A ideia de Valerio Bianchi ter algo a ver com a dívida do seu pai a enfurecia. Como ele, um homem que se alimentava da miséria alheia, poderia ter um interesse em algo tão distante?
Ela se sentou na poltrona de veludo surrado, sentindo o peso da decisão sobre seus ombros. Ir ao encontro de Valerio Bianchi era cruzar uma linha invisível, uma linha que a separava de sua vida cuidadosamente construída. Era arriscar tudo o que ela havia lutado para proteger. Mas a necessidade de saber, a necessidade de entender o que realmente aconteceu com seu pai, era um impulso poderoso demais para ser ignorado.
Ela fechou os olhos, imaginando o rosto do pai. Aquele sorriso gentil, os olhos castanhos que transbordavam bondade. Ela se lembrava dele ensinando-a a andar de bicicleta, as mãos firmes segurando o selim, o grito de orgulho quando ela finalmente pedalou sozinha. A saudade apertou seu peito.
“Eu vou”, sussurrou Marina para o silêncio do apartamento. “Eu preciso saber.”
A decisão estava tomada. A noite parecia mais escura, o vento mais gélido. O futuro, outrora um caminho incerto, agora se apresentava como um abismo desconhecido. E no fundo desse abismo, espreitava a figura enigmática de Valerio Bianchi.
Marina se levantou, caminhou até o espelho e se olhou. O reflexo mostrava uma mulher forte, marcada pelas batalhas da vida, mas com uma centelha de determinação nos olhos. Uma centelha que, talvez, pudesse acender uma chama em meio à escuridão que se aproximava. Ela sabia que estava prestes a entrar no território de um homem perigoso, um homem que jogava com a vida como se fosse um tabuleiro de xadrez. Mas ela não era uma peça qualquer. Ela era Marina Oliveira, filha de Antônio Oliveira, e tinha uma história a desvendar.
O celular tocou novamente. Era um SMS.
“Seja pontual. O tempo é precioso. V.B.”
O coração de Marina disparou. A frieza da mensagem era palpável. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro da noite entrar pela janela entreaberta. A cidade lá fora continuava seu ritmo frenético, alheia à tempestade que se formava dentro dela. A partir de amanhã, nada mais seria igual. A vida de Marina estava prestes a se entrelaçar, de forma perigosa e irreversível, com o mundo sombrio de Valerio Bianchi. O sopro do vento na pele marcada era um presságio. Um presságio de perigo, sim, mas também, quem sabe, de um destino que ela ainda não conseguia vislumbrar.