Entre Armas e Abraços
Capítulo 13 — O Confronto Velado e a Verdade Sombria
por Mateus Cardoso
Capítulo 13 — O Confronto Velado e a Verdade Sombria
A manhã chegou com a promessa de um sol tímido, mas em São Paulo, a neblina matinal parecia um manto cinzento a encobrir a cidade, refletindo o estado de espírito de Sofia. A noite fora de poucas horas de sono, povoada por pesadelos onde sombras indistintas a perseguiam. Daniel estava ao seu lado, uma presença forte e tranquilizadora, mas a tensão em seus ombros não escapava à sua atenção.
"Você tem certeza que não quer que eu vá com você?", Daniel perguntou, seus olhos fixos nos dela, a preocupação evidente.
Sofia negou com a cabeça, a determinação em seu olhar lutando contra o medo que a corroía. "Não, Daniel. Eu preciso fazer isso sozinha. Marco quer falar comigo. Se você aparecer, ele vai se fechar, ou pior. É um jogo dele, e eu preciso tentar entender as regras." Ela apertou a mão dele com força. "Mas eu sei que você está perto. E isso me dá coragem."
Daniel assentiu, um leve sorriso melancólico nos lábios. Ele sabia que ela era mais forte do que aparentava. "Eu estarei. E se você sentir a menor ameaça, me ligue. Não importa a hora, não importa onde eu esteja. Eu venho. Prometo."
A despedida foi rápida, mas carregada de significados. O café da Rua Augusta era um burburinho constante de pessoas indo e vindo, um cenário quase irônico para o encontro que se avizinhava. Sofia escolheu uma mesa no canto, de onde podia observar a entrada. Cada pessoa que cruzava a porta a fazia prender a respiração.
Minutos que pareceram horas se passaram. Quando Sofia estava prestes a desistir, ele surgiu. Marco. Aos seus olhos, ele parecia mais magro, as olheiras fundas sob os olhos, como se a preocupação o consumisse de dentro para fora. Ele usava um terno impecável, mas algo em sua postura denunciava a fragilidade.
Ele a avistou e caminhou em sua direção com passos hesitantes. Sentou-se à sua frente sem pedir permissão, o olhar fixo no café que ela havia pedido.
"Sofia. Obrigado por vir." A voz dele era baixa, quase um sussurro.
"Marco. O que você quer?" A franqueza era a única arma que ela se sentia capaz de usar.
Ele suspirou, parecendo reunir forças. "Eu… eu não sei por onde começar. As coisas… elas saíram do controle."
"O que saiu do controle, Marco? O que você não me conta? O que envolve a família?"
Marco encarou o fundo do seu café, como se procurasse respostas ali. "Nossa família… ela tem uma história. Uma história que vai muito além dos negócios de construção que você conhece. Nosso pai… ele construiu um império. Mas não apenas de tijolos e cimento."
Sofia o encarou, a mente correndo. "O que você quer dizer?"
"Quero dizer que nosso pai era um homem de dois mundos, Sofia. Um mundo visível e um mundo escondido. O mundo escondido… é o que nos dá poder. E nos coloca em perigo."
A confirmação do que Daniel havia insinuado a atingiu como um golpe. "Você está falando da máfia, Marco?" A palavra saiu com um misto de horror e nojo.
Marco assentiu lentamente, evitando o olhar dela. "Sim. Nossa família está profundamente envolvida. E eu… eu herdei essa responsabilidade. E agora… as coisas estão ficando difíceis."
"Difíceis como? O que está acontecendo?"
"Há rivais. Pessoas que querem o que é nosso. E… e tem uma dívida. Uma dívida antiga, mas que agora está sendo cobrada com juros. Juros altos demais." As mãos de Marco tremiam visivelmente.
"E você quer que eu… o quê? Eu não entendo nada disso!"
"Eu preciso de você, Sofia. Preciso que você permaneça na cidade. Preciso que você seja… um rosto limpo. Um escudo. Eles não sabem que você está tão envolvida em nossa história. Eles pensam que você é apenas a irmã mais nova, a protegida."
"Um escudo? Marco, isso é loucura! Eu não sou… eu não sou como vocês!"
"Você é uma Antonelli, Sofia! E é isso que importa para eles. Se eles acharem que você está do meu lado, que você me apoia, eles podem hesitar em certas ações. Seu nome… ele ainda tem um peso em alguns lugares."
Sofia sentiu um nó na garganta. Ser uma Antonelli, algo que ela sempre tentou manter à distância, agora a tornava uma peça valiosa em um jogo perigoso. "E Daniel? O que ele tem a ver com isso?"
A menção de Daniel fez Marco hesitar. Ele olhou para os lados, como se temesse ser ouvido. "Daniel… ele é um problema. Um problema que eu não sei como lidar. Ele é poderoso. E ele está perto demais de você. Se ele descobrir tudo… pode complicar as coisas ainda mais. Ele tem seus próprios interesses nesse mundo, mas eles não são os nossos."
"Interesses? O que você quer dizer com 'interesses'?"
"Daniel é um jogador nesse tabuleiro, Sofia. Um jogador de alto nível. Mas ele joga por si só. E às vezes, os interesses dele se chocam com os da nossa família. Ele te ama, eu sei. Mas você precisa entender que o mundo dele não é seguro. E agora, o nosso mundo está batendo à sua porta."
Sofia sentiu o chão sumir sob seus pés. Daniel, o homem que ela amava, o homem que jurara protegê-la, também era parte desse submundo. Um jogador independente, com interesses próprios. Isso significava que ele poderia estar usando-a? A dúvida, antes um sussurro, agora gritava em sua mente.
"Você está me pedindo para ser um peão no seu jogo, Marco. Um peão para proteger sua dívida, suas brigas. E você quer que eu me afaste de Daniel porque ele pode ser um obstáculo?"
"Eu quero que você se proteja, Sofia! E sim, se isso significa manter uma certa distância de Daniel por enquanto, até que eu resolva isso, então sim. Ele é perigoso. Não pela forma que ele te trata, mas pelo mundo que ele representa. Um mundo que está se aproximando cada vez mais de você."
A conversa se arrastava, um duelo velado de vontades. Marco, desesperado, tentando puxá-la para o seu lado. Sofia, lutando contra a correnteza, buscando a verdade em meio a um emaranhado de mentiras e perigos. Ela sabia que não podia mais se iludir. O amor por Daniel, por mais real que fosse, estava entrelaçado a um destino sombrio. E o peso do nome Antonelli, com todas as suas consequências, agora recaía sobre seus ombros. Ela precisava tomar uma decisão, e essa decisão seria mais difícil do que qualquer outra que ela já enfrentara. A verdade sombria estava revelada, e o preço a pagar seria alto.