Entre Armas e Abraços
Mateus Cardoso - Entre Armas e Abraços
por Mateus Cardoso
Mateus Cardoso - Entre Armas e Abraços
Capítulo 16 — O Ninho de Vespas e a Teia Que Se Refaz
A noite caía sobre São Paulo como um véu escuro, carregado com o cheiro úmido da chuva que prometia cair. Nas ruas de paralelepípedos da Mooca, a vida seguia seu ritmo frenético, mas no interior do casarão imponente da família Rossi, o silêncio era quase palpável, denso de tensão e de segredos. Isabella, com os olhos marejados e o corpo ainda tremendo pela adrenalina do perigo iminente, tentava encontrar algum resquício de paz. A fuga de ontem, o abraço desesperado de Dante, tudo parecia um sonho distante, uma miragem em meio ao pesadelo que a cercava.
Ela se olhava no espelho do quarto luxuoso, o tecido fino do vestido ainda arranhado por algum galho na fuga. A imagem refletida era de uma mulher que mal reconhecia: olhos assustados, mas com uma chama de determinação que se recusava a apagar. Ela não era mais a garota ingênua que acreditava nas aparências. O mundo da máfia, com suas cores sombrias e suas leis cruéis, a havia transformado. E, no fundo de sua alma, ela sabia que não havia mais volta.
Dante, alheio à tempestade que assolava o coração de Isabella, estava em seu escritório, um santuário de madeira escura e couro, onde o aroma de charutos caros se misturava ao cheiro forte de café. Ele revisava relatórios, a testa franzida em concentração, mas sua mente estava longe. A operação mal sucedida, a traição que o atingiu como um soco no estômago, tudo o corroía. A confiança, aquela moeda rara e valiosa no submundo, fora rasgada em pedaços.
"Chefe," a voz grave de Marco, seu braço direito, ecoou pela porta semiaberta. "Temos informações sobre quem puxou o gatilho."
Dante ergueu o olhar, seus olhos azuis penetrantes fixos em Marco. A raiva, contida por tanto tempo, ameaçava explodir. "Quem?" A palavra saiu baixa, mas carregada de perigo.
"É um dos homens de Giovanni Falcone," Marco respondeu, com a voz tensa. "Um sicário de nome 'Il Lupo'. Famoso por sua eficiência e crueldade."
O nome de Falcone fez o sangue de Dante ferver. Giovanni Falcone, o velho lobo de Nova York, o fantasma que assombrava as noites de muitos. Aquele que ele acreditava estar morto, o homem que, segundo todos os boatos, havia se retirado dos negócios. "Falcone está vivo? E ainda ousando pisar em meu território?"
"Parece que sim, chefe. E ele não veio sozinho. Trouxe sua fera para o nosso jardim." Marco hesitou por um momento. "A inteligência sugere que ele tem um motivo específico para atacar você. Algo relacionado ao carregamento que foi interceptado."
Um frio percorreu a espinha de Dante. O carregamento. As caixas que ele havia mandado interceptar, as que continham mais do que apenas mercadorias ilícitas. Elas continham um segredo que poderia abalar os alicerces de seu império. Um segredo que Falcone parecia conhecer.
Enquanto isso, Isabella, incapaz de ficar parada, desceu as escadas silenciosamente. Ela precisava de ar, precisava pensar. A brisa fresca da varanda a acolheu, mas não dissipou a angústia que a sufocava. Ela observou a cidade lá embaixo, as luzes cintilantes que escondiam tantos perigos. Lembrou-se das palavras de Dante, do aviso velado sobre os riscos que ela corria ao se aproximar dele. E pela primeira vez, ela compreendeu a profundidade daquelas palavras.
Ela caminhou até o jardim, as roseiras ainda molhadas da chuva. Uma rosa vermelha, de pétalas aveludadas, chamou sua atenção. Ela a tocou delicadamente, imaginando a força que existia por trás daquela beleza frágil. Assim como ela.
"Isabella?"
A voz de Dante a fez sobressaltar. Ele estava ali, parado na entrada da varanda, a silhueta imponente contra a luz fraca do interior. Havia algo em seu olhar que a desarmou, uma mistura de preocupação e algo mais profundo, algo que ela se recusava a nomear.
"Eu não conseguia dormir," ela disse, tentando manter a voz firme.
Dante se aproximou dela, seus passos pesados na grama úmida. Ele parou a poucos centímetros, a tensão entre eles quase elétrica. "Você está bem?"
Ela assentiu, incapaz de desviar o olhar. "Estou. Graças a você."
Um sorriso discreto brincou nos lábios de Dante. "Não se acostume. Eu não sou nenhum príncipe encantado."
"Eu sei," ela respondeu, a voz baixa. "Mas por uma noite, você foi meu cavaleiro."
O silêncio se instalou entre eles, preenchido apenas pelo som distante dos grilos e pela batida acelerada de seus corações. Dante estendeu a mão, hesitando por um instante antes de tocar o rosto de Isabella. Seus dedos traçaram o contorno de sua bochecha, um toque suave que enviou arrepios por sua pele.
"Você não deveria estar aqui, Isabella," ele disse, a voz rouca. "Este mundo... ele é perigoso. E você está bem no meio dele agora."
"Eu sei dos riscos, Dante," ela falou, seus olhos encontrando os dele. "Mas o que eu sinto por você... isso não é um risco. É uma necessidade."
As palavras de Isabella atingiram Dante como um raio. Ele a havia avisado, a havia tentado afastar, temendo por sua segurança. Mas a força de seus sentimentos, a coragem que ela demonstrava, a deixavam cada vez mais enredada em sua vida.
"Necessidade?" ele repetiu, a voz embargada.
"Sim. Eu preciso de você. E... eu acho que você precisa de mim também."
Dante fechou os olhos por um momento, absorvendo a verdade nas palavras dela. Ele sempre se manteve distante, aprisionado pelas cicatrizes de seu passado, pela necessidade de proteger aqueles que amava. Mas Isabella era diferente. Ela conseguia enxergar além do monstro que ele temia ser.
Ele a puxou para perto, o corpo dela se encaixando perfeitamente no seu. O abraço foi apertado, urgente, uma promessa silenciosa de proteção e de desejo. A rosa vermelha caiu de suas mãos, aveludada e vermelha como o sangue, um símbolo da paixão que florescia em meio à escuridão.
"Eu te aviso, Isabella," ele murmurou em seus cabelos. "Se você ficar comigo, sua vida nunca mais será a mesma. E eu não posso garantir que eu possa te proteger de tudo."
"Eu confio em você," ela sussurrou, o rosto enterrado em seu peito.
E naquele abraço, sob o céu ameaçador de São Paulo, eles se perderam um no outro, um porto seguro em meio à tempestade que se aproximava. Mas o ninho de vespas havia sido perturbado. Giovanni Falcone estava na cidade, e a teia de intrigas e traições começava a se refazer, mais perigosa do que nunca.