Entre Armas e Abraços
Capítulo 18 — O Coração na Luta e a Armadilha Revelada
por Mateus Cardoso
Capítulo 18 — O Coração na Luta e a Armadilha Revelada
A noite no Brás era um labirinto de luzes fracas, cheiros de metal e pneu queimado, e o eco distante de sirenes. Isabella, com o coração acelerado, dirigia seu carro com a discrição de um fantasma, seguindo as indicações que ouvira vagamente na conversa de Dante. Ela sabia que estava agindo por impulso, contra a vontade dele, mas a angústia a consumia. A possibilidade de Dante em perigo era um veneno que a impedia de respirar.
Ela estacionou em uma rua escura, a alguns quarteirões do armazém que Dante mencionara. Desceu do carro, o casaco apertado contra o corpo, a respiração ofegante. O silêncio da rua era enganador, carregado de uma tensão que ela conseguia sentir na pele. Podia ouvir os sons abafados de uma possível movimentação, o roçar de tecidos, vozes baixas.
De repente, o som de tiros rasgou o ar. Rápido, intenso, seguido por gritos e o barulho de vidros se quebrando. Isabella se jogou no chão, o corpo tremendo. A armadilha. Ela sabia que era uma armadilha. Falcone não cairia tão facilmente.
Ela se levantou, o instinto falando mais alto do que o medo. Precisava encontrar Dante. Ele não estaria no armazém; ele estaria em outro lugar, tentando interceptar Falcone. Mas onde? A informação que ela captara era incompleta, fragmentada.
Ela correu de volta para o carro, os pensamentos girando freneticamente. Seus olhos caíram sobre um pequeno caderno que Dante havia deixado cair em seu escritório mais cedo. Ela o pegou, sem pensar duas vezes, e o guardou no bolso. Se houvesse alguma pista ali, ela a encontraria.
De volta ao carro, ela ligou o motor e dirigiu pelas ruas escuras, o caderno apertado na mão. Abriu-o em um semáforo vermelho. Eram anotações, nomes, datas, e um endereço específico, marcado com um "X" vermelho: "Galpão abandonado – Zona Portuária". Era ali.
Enquanto isso, no centro de São Paulo, Dante e seu grupo se preparavam para emboscar Falcone. A atmosfera era carregada de expectativa. Dante sentia a adrenalina percorrer suas veias, a sede de justiça – ou vingança – queimando em seu peito.
"Marco, Luca, vocês ficam comigo," Dante ordenou, a voz firme. "Os outros, fiquem em posição de cobertura. Lembrem-se, não queremos que Falcone escape, mas também não queremos um banho de sangue desnecessário. Apenas contenham-no."
Eles se moveram pelas sombras, a cidade adormecida alheia à batalha iminente. A cobertura de luxo na Avenida Paulista era um alvo óbvio, mas Dante desconfiava. Falcone era esperto demais para cair em uma armadilha tão direta. Ele estava sendo levado a uma falsa sensação de segurança.
Ao chegarem à cobertura, encontraram os seguranças de Falcone em estado de alerta máximo. A troca de tiros foi breve e brutal. Os homens de Dante eram eficientes, profissionais. Logo, o caminho para o interior do apartamento estava livre.
Dante entrou com cautela, a pistola em punho. O apartamento era luxuoso, mas vazio. Nenhum sinal de Falcone. Apenas um bilhete sobre a mesa de centro de vidro.
Marco pegou o bilhete e o entregou a Dante. A letra era elegante, mas fria.
"Querido Dante, você é um jovem impetuoso. Acha que pode brincar com o fogo e não se queimar? A armadilha no Brás é apenas o começo. Você caiu exatamente onde eu queria. Ou melhor, onde você se colocou. Sua amada Isabella está em perigo. E se você quiser vê-la viva novamente, terá que vir buscá-la. O galpão abandonado na Zona Portuária. Te espero, meu caro neto."
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Dante. Neto? Aquele homem cruel, o assassino de seu pai, era seu avô? A revelação o atingiu com a força de um golpe físico. A raiva, a dor, a confusão – tudo se misturou em seu interior.
"Não pode ser," Dante murmurou, o bilhete tremendo em suas mãos.
Marco olhou para Dante, a preocupação estampada em seu rosto. "Chefe, o que está escrito?"
Dante ergueu o olhar, seus olhos azuis turvos de dor e fúria. "É meu avô, Marco. Giovanni Falcone é meu avô. E ele pegou Isabella."
A notícia chocou a todos. A luta contra Falcone ganhou uma nova dimensão, uma carga pessoal e dolorosa que Dante nunca imaginara. A vingança se transformou em desespero.
Enquanto isso, Isabella chegava ao galpão abandonado na Zona Portuária. O lugar era sombrio, dilapidado, e o cheiro de maresia se misturava ao odor de mofo e ferrugem. Ela parou o carro em um local discreto, observando o ambiente com cautela. A noite estava ainda mais escura ali, a lua escondida pelas nuvens.
Ela desceu do carro, sentindo o peso do caderno em seu bolso. A adrenalina pulsava em suas veias. Ela precisava ser rápida, inteligente.
Ao se aproximar do galpão, ela ouviu vozes. Homens falando em italiano, com sotaques carregados. Eram os homens de Falcone. Ela se escondeu atrás de algumas caixas enferrujadas, observando.
Então, ela a viu. Isabella, sua sósia, sendo arrastada para dentro do galpão por dois homens musculosos. Ela estava amordaçada, seus olhos arregalados de medo. A outra Isabella era idêntica a ela em todos os detalhes, um espelho assustador.
"Traga-a para cá," uma voz autoritária ordenou. A voz de Giovanni Falcone.
Isabella sentiu o sangue gelar. O plano de Falcone era ainda mais perverso do que ela imaginara. Ele estava usando sua sósia para atrair Dante, para se vingar, para reivindicar o que ele considerava seu.
Ela abriu o caderno de Dante, procurando freneticamente por alguma pista, alguma fraqueza. E então ela viu. Um mapa rudimentar do galpão, com marcações de túneis subterrâneos. Havia uma entrada secreta, escondida atrás de uma velha estante de livros.
Com um fio de esperança, Isabella se moveu pelas sombras, contornando a entrada principal, em busca da entrada secreta. O coração batia acelerado, mas a determinação a impulsionava. Ela não podia deixar que Falcone machucasse a outra Isabella, e muito menos que ele se vingasse de Dante.
Enquanto isso, Dante e seu grupo se aproximavam do galpão, a informação sobre a outra Isabella e o plano de Falcone os atingindo com a força de uma avalanche. A fúria de Dante se intensificou, mas agora misturada com um desespero avassalador.
"Ele vai pagar por isso," Dante rosnou, a voz carregada de dor. "Ele vai pagar por tudo que fez."
A armadilha se fechava, e no coração da noite, duas mulheres idênticas, separadas pelo destino e pela crueldade de um homem, estavam prestes a se encontrar em um confronto de vida ou morte. A luta de Dante contra seu avô havia começado, e o preço de sua vingança seria pago com sangue e desespero.