Entre Armas e Abraços
Capítulo 23 — O Sussurro da Confrontação
por Mateus Cardoso
Capítulo 23 — O Sussurro da Confrontação
A mansão Ricci, outrora um reduto de poder e segredos, agora ecoava com a incerteza. A notícia da possível ascensão de Valentina à liderança da organização havia se espalhado como fogo em palha seca, gerando ondas de apreensão e, para alguns, de insatisfação. Don Enzo, em particular, sentia seus planos meticulosamente traçados se desintegrando diante de seus olhos. Ele não podia, não iria, permitir que uma mulher, e ainda por cima uma com ideais tão “ingênuos”, estragasse o império que ele acreditava ser seu por direito.
Naquela noite, a tensão era palpável. Valentina estava em seu escritório, revisando documentos que detalhavam as finanças da família, quando um barulho na porta a alertou. Não era o som suave e ritmado de Marco, nem o passo deliberado de Dona Elena. Era um som mais… furtivo.
“Quem está aí?”, Valentina perguntou, a mão instintivamente buscando o pequeno abridor de cartas de prata que jazia sobre a mesa, uma arma improvisada em um momento de necessidade.
A porta se abriu lentamente, revelando a figura de Enzo. Ele entrou na sala com um sorriso forçado nos lábios, os olhos escuros fixos em Valentina. Ele trajava um terno impecável, mas havia algo de predatório em sua postura.
“Boa noite, Valentina”, disse ele, a voz sedosa, mas com um fio de aço por baixo. “Vejo que está ocupada com os assuntos da família.”
Valentina se levantou, mantendo a calma que lhe era tão cara. “Enzo. A esta hora? O que o traz aqui?”
“Apenas uma visita de cortesia”, ele respondeu, circulando a mesa lentamente, como um lobo cercando sua presa. “Ouvi dizer que você tem grandes planos para o futuro da nossa organização. Planos que, confesso, me deixam um tanto… perplexo.”
“Meus planos visam a sustentabilidade e a honra”, Valentina declarou, sem desviar o olhar. “Algo que talvez você não compreenda.”
Enzo soltou uma risada curta e seca. “Honra? Valentina, vivemos em um mundo onde a honra é um luxo que não podemos nos dar. Seu pai entendia isso. Ele era um homem de ação, não de palavras bonitas. Você deveria aprender com ele.”
“Meu pai cometeu erros terríveis. E pagou o preço por eles. Eu não pretendo repetir seus equívocos.”
“Equívocos?”, Enzo franziu a testa, aproximando-se dela. Havia um brilho perigoso em seus olhos. “Você chama de equívocos a força que nos manteve no topo por décadas? A crueldade que nos garantiu respeito? Você está se tornando fraca, Valentina. E a fraqueza, neste mundo, é um convite para a destruição.”
Ele parou a poucos centímetros dela, invadindo seu espaço pessoal. Valentina podia sentir o cheiro fraco de seu perfume caro, misturado a algo mais agressivo. O abridor de cartas em sua mão parecia ridículo agora.
“Eu não sou fraca, Enzo. Sou diferente. E a diferença não significa fraqueza.”
“Diferente o suficiente para nos levar à ruína, com suas ideias de mudar o mundo”, ele rosnou, a voz baixa e ameaçadora. “Você não tem o que é preciso para liderar. Você não tem o instinto. Não tem a frieza. Você é uma sentimental. E sentimentais morrem primeiro.”
Ele estendeu a mão, como se para tocar seu rosto, mas Valentina se afastou rapidamente. A frieza em seu olhar agora era inegável.
“Você está enganado, Enzo. A verdadeira força reside na capacidade de adaptação, na inteligência, e sim, até mesmo na compaixão. Coisas que você parece ter esquecido em sua busca por poder.”
“Eu busco o que me é de direito!”, Enzo gritou, a máscara de serenidade finalmente caindo. “Meu pai construiu essa organização com o suor do meu rosto, e o seu pai, com suas traições, roubou o meu futuro! E agora você, uma garota ingênua, acha que pode vir e tomar o que é meu?”
Valentina sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A intensidade da raiva de Enzo era assustadora. “Você está alucinando, Enzo. Meu pai nunca… o seu pai nunca teve nada a ver com a liderança aqui.”
“Mentira!”, ele cuspiu as palavras. “O meu pai era um braço direito de confiança, e foi traído por Pietro. Usado e descartado. E agora, você, a filha do traidor, quer ditar as regras? Não vou permitir!”
Ele deu um passo abrupto, e por um instante, Valentina pensou que ele iria agredi-la. Mas em vez disso, ele pegou um pequeno frasco que tirou do bolso interno de seu paletó.
“Se você não pode ser convencida pela razão, talvez seja pela dor”, ele disse, um sorriso sinistro se espalhando por seu rosto. Ele abriu o frasco, e um cheiro forte e adocicado preencheu o ar. “Algo para te ajudar a pensar um pouco melhor. Uma dose leve, nada que vá te machucar permanentemente. Apenas o suficiente para te lembrar quem está no comando.”
Ele se aproximou rapidamente, e Valentina, chocada, mal teve tempo de reagir. Ele tentou jogar o conteúdo do frasco em seu rosto. Mas, no último momento, a porta do escritório se abriu com um estrondo.
Marco entrou como um furacão, seus olhos arregalados ao ver a cena. Ele viu o frasco na mão de Enzo e o olhar de pânico nos olhos de Valentina. Sem hesitar, ele se jogou na frente dela, recebendo o líquido corrosivo em seu próprio rosto.
“Marco!”, Valentina gritou, o horror tomando conta dela.
Enzo, pego de surpresa pela intervenção de Marco, recuou um passo, seu sorriso de triunfo se desfazendo em uma careta de raiva.
Marco levou as mãos ao rosto, sentindo uma ardência intensa. Ele cambaleou, mas manteve a compostura, seus olhos encontrando os de Valentina. “Estou bem”, ele conseguiu dizer, a voz rouca pela dor. “Fique atrás de mim.”
Valentina correu para o lado dele, a adrenalina pulsando em suas veias. Ela olhou para Enzo, uma fúria fria substituindo o medo. “Você é um monstro, Enzo. Um cobarde.”
“Isso é apenas o começo, Valentina”, Enzo sibilou, seus olhos cheios de ódio. Ele deu as costas e saiu pela porta com a mesma rapidez com que entrou, desaparecendo na escuridão do corredor.
Valentina, com as mãos trêmulas, pegou um pano e o molhou com água da garrafa que estava sobre a mesa. Ela ajudou Marco a limpar o rosto, sentindo a pele dele queimar sob seus dedos.
“Eu sinto muito, Marco… eu não…”, ela começou, as lágrimas começando a se formar em seus olhos.
Marco a interrompeu, segurando seu rosto com cuidado. Apesar da dor, seus olhos transmitiam amor e determinação. “Não se culpe, meu amor. Você não tem culpa. Ele é um covarde, e a covardia sempre se revela. Ele mostrou quem realmente é.”
Ele se aproximou dela, e apesar da ardência em seu rosto, a beijou suavemente nos lábios. “Ele não vai nos deter, Valentina. Nada vai nos deter. Nós vamos enfrentar isso. Juntos.”
Valentina se aninhou em seus braços, sentindo o cheiro sutil de sua pele misturado ao odor químico que agora pairava no ar. A confrontação havia chegado, e ela sabia que o pior ainda estava por vir. Mas a bravura de Marco, a lealdade inabalável dele, era a âncora que a impedia de afundar. A luta pelo futuro da organização Ricci não seria apenas uma batalha de poder, mas uma batalha de vontades, e Valentina estava determinada a vencer, custasse o que custasse. O sussurro da confrontação se tornara um grito, e a resposta dela seria tão poderosa quanto a própria traição que ela havia enfrentado.