O Último Segredo de São Paulo
Capítulo 20 — O Despertar da Rosa Negra
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 20 — O Despertar da Rosa Negra
A noite em São Paulo era um véu de escuridão salpicado de luzes artificiais, mas para Isabella, o mundo parecia ter se tornado ainda mais sombrio. O carro a levou de volta para a mansão Rossi, um lugar que ela agora associava a mentiras, manipulação e perigo. Leonardo a conduziu pelos corredores luxuosos, mas frios, até o escritório imponente de Ricardo.
Ricardo estava em sua mesa, como sempre, a figura dominante em um mar de poder. Ele levantou o olhar quando Isabella entrou, e seus olhos escuros a percorreram com uma intensidade que a fez sentir-se exposta, analisada. Um sorriso lento e possessivo se espalhou por seus lábios.
"Bem-vinda de volta, Isabella", ele disse, a voz baixa e sedutora, mas com um tom de triunfo que a fez estremecer. "Pensei que você tivesse mais inteligência do que se esconder em um lugar tão… decadente."
Isabella manteve a cabeça erguida, sua postura desafiadora, apesar do medo que a consumia por dentro. "Eu não estava me escondendo, Ricardo. Eu estava encontrando meu próprio caminho."
Ricardo riu, um som seco que não alcançou seus olhos. "Seu próprio caminho? Seu caminho é aqui, Isabella. Comigo. Você é uma Rossi. E os Rossi não se escondem, eles dominam."
Ele se levantou, caminhando ao redor dela. O perfume amadeirado que ele usava, antes atraente, agora parecia sufocante, sufocando qualquer resquício de sentimento que ela pudesse ter tido por ele.
"Leonardo me informou sobre a sua pequena aventura com o advogado Ferreira", Ricardo disse, parando em frente a ela. "Ele é um homem teimoso, não é? Ele pensa que pode interferir nos meus assuntos e sair ileso."
Isabella sentiu um aperto no peito. A preocupação com Dr. Ferreira a consumia. "Você o machucou?"
Ricardo deu de ombros, indiferente. "Ele aprendeu uma lição. Uma lição sobre a lealdade. Uma lição que você também deveria ter aprendido."
Ele estendeu a mão, seus dedos roçando seu rosto. Isabella se afastou instintivamente. A repulsa era mais forte do que qualquer resquício de atração.
"Você me traiu, Ricardo", Isabella disse, a voz firme, carregada de uma raiva contida. "Você me usou. Você escondeu a verdade sobre minha mãe, sobre quem eu sou."
"A verdade?", Ricardo disse, a voz assumindo um tom mais duro. "A verdade é que você é uma Rossi. E como uma Rossi, você tem poder. Um poder que você parece relutante em aceitar."
Ele a puxou suavemente para perto de si, seus olhos fixos nos dela. "Você tem o sangue Rossi correndo em suas veias, Isabella. Um sangue que não perdoa, que não esquece, que não se curva. Eu vi isso em sua mãe, e vejo em você."
Isabella sentiu a força em seu toque, mas não era mais um convite, era uma ameaça. Ela sabia que ele a queria submissa, mas ela não seria.
"Minha mãe lutou contra você", Isabella disse, a voz ganhando força. "Ela tentou me proteger. E eu não vou decepcioná-la."
Ricardo franziu a testa, surpreso pela sua resistência. "Sua mãe era uma tola. Ela se deixou consumir pelo medo. Mas você, Isabella, você é diferente. Você tem a força para ser uma rainha. E eu serei seu rei."
"Eu não quero ser sua rainha, Ricardo. Eu quero a minha liberdade." As palavras saíram como um grito abafado.
Ele a soltou abruptamente, dando um passo para trás. A expressão em seu rosto mudou de sedução para frieza. "Liberdade? Você não entende nada sobre o mundo em que vivemos, Isabella. A liberdade é uma ilusão. O que existe é poder. E você, quer você queira ou não, tem poder. E eu o controlarei."
Leonardo entrou no escritório, um relatório nas mãos. "Signore, as informações sobre Marcos Silva estão prontas. Ele planeja um ataque em grande escala na zona portuária amanhã à noite. Ele acha que pode simplesmente tomar o que é nosso."
Ricardo olhou para Leonardo, a mente já calculando. A ameaça de Marcos Silva era real e imediata. Ele precisava consolidar seu poder, e Isabella, quer ela quisesse ou não, faria parte disso.
"Obrigado, Leonardo. Você fez um bom trabalho." Ricardo voltou seu olhar para Isabella. "Veja, Isabella? O mundo lá fora não espera por aqueles que hesitam. Marcos Silva pensa que pode desafiar a família Rossi. Mas ele está prestes a descobrir o erro que cometeu."
Ele caminhou até a mesa, pegando uma garrafa de vinho e duas taças. Serviu o vinho, suas mãos firmes.
"Você tem uma escolha a fazer, Isabella", ele disse, estendendo uma taça para ela. "Você pode continuar a lutar contra o que você é, e ser esmagada por aqueles que não hesitam em usar a força. Ou você pode aceitar quem você é. Aceitar o seu legado. E se tornar a rainha que você nasceu para ser. Ao meu lado."
Isabella olhou para a taça de vinho, o líquido escuro refletindo as luzes do escritório. Ela pensou em sua mãe, em sua luta, em seu sacrifício. Ela pensou no Dr. Ferreira, em seu perigo. Ela pensou na crueldade de Ricardo, na teia de mentiras em que ela vivera.
Ela pegou a taça, seus dedos roçando os dele. O toque era gelado.
"Eu sei quem eu sou, Ricardo", Isabella disse, sua voz agora calma e decidida, mas com uma frieza que o surpreendeu. "Eu sou uma Rossi. E como uma Rossi, eu não me curvo a ninguém. Eu luto."
Ela olhou diretamente em seus olhos, a força em seu olhar crescendo, como uma flor negra desabrochando na escuridão. "Você me contou sobre o poder, Ricardo. E eu o aceito. Mas não ao seu lado. Eu o usarei para destruir você."
Um silêncio pesado caiu sobre o escritório. Ricardo a encarou, seus olhos escuros arregalados de surpresa e uma pitada de admiração relutante. Leonardo observava, imóvel, avaliando a situação.
"Você está louca, Isabella", Ricardo disse, a voz baixa, quase um sussurro.
"Talvez", ela respondeu, um sorriso amargo curvando seus lábios. "Mas você me ensinou uma coisa, Ricardo. O poder é tudo. E agora, eu vou usá-lo contra você."
Ela levou a taça aos lábios, bebendo o vinho. Não era um gesto de rendição, mas de desafio. O sabor era amargo, mas ela o engoliu, sentindo a força fluir por suas veias. O despertar da Rosa Negra havia começado. Ela não seria mais a peça no jogo de Ricardo. Ela seria a jogadora. E o tabuleiro de São Paulo estava prestes a ser virado.