O Último Segredo de São Paulo

Capítulo 8 — O Jantar com o Passado

por Rodrigo Azevedo

Capítulo 8 — O Jantar com o Passado

A noite se arrastava com uma lentidão torturante. Aurora havia tentado se distrair com os livros da biblioteca, mas as palavras dançavam em sua mente, sem formar sentido. A opulência do quarto parecia sufocá-la, e a solidão era um fardo pesado. Ela sabia que Marco não viria naquela noite. Rocco havia lhe dito, com a frieza habitual, que ele tinha assuntos urgentes a tratar. A promessa de seu retorno pairava no ar como uma miragem distante.

Foi então que ouviu o som de um carro se aproximando. Um rugido familiar, potente, que ela reconheceu imediatamente. O coração de Aurora deu um salto. Seria ele? Seria Marco? Ela correu para a janela, o véu de seda escura que cobria a vidraça de sua suíte mal conseguindo conter sua ânsia.

Um carro esportivo luxuoso parou na entrada principal. As portas se abriram e, de dentro, emergiu Marco. Ele estava impecavelmente vestido, um terno escuro que realçava sua postura imponente e seus ombros largos. A luz da lua beijava seu rosto, acentuando a linha forte de sua mandíbula e o brilho intenso em seus olhos. Aurora sentiu um aperto no peito, uma mistura de alívio e a familiar corrente elétrica que ele sempre despertava nela.

Ele entrou na mansão, e Aurora pôde ouvi-lo cumprimentar Rocco e Domênico com sua voz grave e melodiosa. A ansiedade de vê-lo, de falar com ele, a impeliu a sair do quarto. Ela caminhou rapidamente pelo corredor, seus passos ecoando no silêncio, e encontrou Marco no hall de entrada, conversando com Rocco.

Ao vê-la, Marco parou. Seus olhos encontraram os dela, e por um instante, o mundo ao redor pareceu desaparecer. Um sorriso sutil, quase imperceptível, curvou seus lábios. Era um sorriso que continha um misto de satisfação e algo mais profundo, um reconhecimento da conexão que os unia, mesmo em meio a toda aquela tensão.

"Aurora," ele disse, sua voz um bálsamo para seus ouvidos. Ele se aproximou dela, ignorando a presença de Rocco. Seus olhos não deixavam os dela, e Aurora sentiu seu corpo inteiro vibrar com a proximidade dele.

"Marco," ela sussurrou, sentindo uma necessidade avassaladora de tocá-lo, de sentir a solidez de sua presença.

"Eu disse que viria," ele murmurou, sua voz baixa e rouca, carregada de uma intensidade que fez a pele dela arrepiar. Seus olhos percorreram seu rosto, como se quisesse absorver cada detalhe. "Você está bem?"

"Estou… estou bem," Aurora respondeu, a mentira escapando de seus lábios. Ela não estava bem. Estava assustada, confusa, mas a presença dele parecia acalmar um pouco a tempestade dentro dela. "Onde você esteve?"

Marco hesitou por um instante, a sombra cruzando seus olhos. "Ocupado. Como você bem sabe." Ele lançou um olhar rápido para Rocco, um olhar que Aurora não conseguiu decifrar. "Domênico preparou um jantar. Quero que jante comigo."

A proposta a pegou de surpresa. Um jantar? Em meio a tudo aquilo? Era uma tentativa de normalidade em um mundo que havia se tornado tão anormal. "Eu… eu não sei se estou com fome," ela gaguejou.

"Não é sobre fome, Aurora," Marco disse, sua voz baixa e persuasiva. Ele estendeu a mão e tocou suavemente o rosto dela, seu polegar traçando a linha de sua bochecha. "É sobre estarmos juntos. Sobre eu poder garantir que você está segura. E sobre conversarmos."

A sinceridade em seus olhos a desarmou. Ela assentiu lentamente. "Tudo bem."

Marco a conduziu até uma sala de jantar formal, onde Domênico já havia preparado a mesa. Velas perfumadas emitiam uma luz suave, e um vinho tinto escuro repousava em uma taça. O aroma de comida deliciosa pairava no ar, mas Aurora sentia que aquele não seria um jantar comum.

Enquanto se sentavam à mesa, Aurora observou Marco atentamente. Havia algo em seus olhos que a inquietava, uma profundidade que ela não conseguia penetrar completamente. Ele parecia carregar o peso do mundo em seus ombros, e ela sabia que parte desse peso era culpa dela.

"Por que estou aqui, Marco?", ela perguntou, a pergunta que ecoava em sua mente desde que Rocco a trouxera para a mansão. "Por que você me trouxe para este lugar?"

Marco pegou a garrafa de vinho e serviu duas taças. O líquido escuro brilhava à luz das velas. Ele tomou um gole e a encarou, seus olhos escuros e intensos. "Eu te trouxe para cá porque é o lugar mais seguro que eu poderia oferecer. O mundo em que eu vivo é perigoso, Aurora. E agora que você está perto de mim, você também está em perigo."

"Mas por quê?", Aurora insistiu, a voz carregada de frustração. "Por que você está envolvido nisso? Eu pensei que você fosse apenas… um homem de negócios."

Um sorriso amargo surgiu nos lábios de Marco. "O negócio em que estou envolvido é muito mais antigo e sombrio do que você pode imaginar. A Famiglia Visconti não é apenas uma organização criminosa, Aurora. Somos uma linhagem. E eu sou o herdeiro."

A palavra "herdeiro" pairou no ar, carregada de um significado sombrio. Aurora sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia que Marco estava envolvido com a máfia, mas a magnitude do que ele representava a atingiu com força. Ele era mais do que um homem perigoso; ele era a personificação de um império de sombras.

"Uma linhagem?", ela repetiu, a voz mal audível. "Então… tudo o que eu ouvi é verdade?"

Marco suspirou, um som pesado e cansado. "A verdade é um conceito relativo, Aurora. O que vocês, pessoas de fora, veem é apenas a ponta do iceberg. O que acontece nas sombras é muito mais complexo, e muito mais brutal." Ele fez uma pausa, seus olhos fixos nos dela. "Eu não queria que você visse esse lado de mim. Eu queria te proteger dele. Mas o destino… bem, o destino tem seus próprios planos."

As palavras dele a atingiram como um golpe. Proteger? Ele a havia colocado em um refúgio, cercada por homens armados, sob a guarda de um capanga impenetrável. Era essa a sua ideia de proteção? Ou era uma forma de mantê-la sob controle?

"Você acha que me trazer para cá, me isolar do mundo, é proteção?", Aurora perguntou, a voz tensa. "Ou é uma forma de me aprisionar?"

Marco inclinou-se para a frente, sua intensidade aumentando. "É para te manter viva, Aurora. Você não entende o que está em jogo. Existem pessoas que querem me ver cair. E se eu cair, elas não hesitarão em destruir tudo o que eu amo. E você… você se tornou alguém que eu amo."

A confissão pegou Aurora de surpresa. O amor. Ele usara a palavra "amor". Em meio a toda aquela escuridão, a essa confissão inesperada, Aurora sentiu uma fragilidade em Marco que ela nunca havia percebido antes. Ele não era apenas um líder implacável; era um homem atormentado, preso em uma teia de responsabilidades e desejos que o consumiam.

O jantar continuou, mas a atmosfera havia mudado. As palavras de Marco haviam aberto uma nova dimensão em seu relacionamento. A paixão que os unia agora estava entrelaçada com o perigo e a responsabilidade. Aurora sentia que estava pisando em um terreno cada vez mais perigoso, mas ao mesmo tempo, sentia uma atração irresistível por desvendar os segredos que Marco guardava.

"Meu pai…", Aurora começou, a voz embargada. "Ele sempre se preocupou com a minha segurança. Ele me disse para ter cuidado com as pessoas que eu me relacionava."

Marco a encarou, seus olhos escuros refletindo a luz das velas. "Seu pai sabia do que eu estava envolvido?"

Aurora balançou a cabeça. "Não. Ele apenas… ele sentia que algo não estava certo. Ele me alertou sobre os perigos que eu não via."

Marco suspirou novamente. "Ele estava certo. Eu sou um perigo para você, Aurora. Mas eu também sou o único que pode te proteger disso." Ele pegou a mão dela sobre a mesa, seu aperto firme e reconfortante. "Não tenha medo de mim, Aurora. Tenha medo do que está lá fora. E confie em mim. Eu não vou te deixar cair."

As palavras dele, a intensidade de seu olhar, a promessa em sua voz… tudo aquilo a envolvia como um manto. Aurora sentiu a batalha em seu interior. A prudência lhe dizia para fugir, para se afastar daquele homem e de seu mundo sombrio. Mas seu coração, teimosamente, se recusava a ignorar a conexão que sentia com ele. A paixão, a admiração pelo homem que ele era por baixo de toda a fachada de poder, a atraía irresistivelmente.

Naquela noite, sob o teto da mansão escondida, Aurora percebeu que estava irrevogavelmente ligada a Marco, ao seu mundo e aos segredos que eles compartilhavam. O jantar com o passado não havia trazido respostas claras, mas havia selado um pacto tácito entre eles. Um pacto de perigo, de paixão e de um futuro incerto.

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