O Rei da Minha Noite
O Rei da Minha Noite
por Rodrigo Azevedo
O Rei da Minha Noite
Autor: Rodrigo Azevedo
Capítulo 16 — A Dança das Sombras e o Sussurro da Verdade
O ar na mansão dos Volkov parecia denso, pesado, carregado de uma eletricidade silenciosa que antecipava a tempestade. Lúcia sentia isso em cada fibra do seu ser. A noite anterior, o abraço apertado de Dimitri, a confissão quase inaudível sobre as linhas tênues que separavam seu mundo do dela, tudo isso a deixara em um estado de alerta perpétuo. Ela olhava pela janela da biblioteca, as gotas de chuva escorrendo como lágrimas no vidro, refletindo a paisagem sombria e cinzenta do jardim outonal. O cheiro de mofo antigo e livros empoeirados, antes reconfortante, agora parecia sufocante.
Dimitri entrou na sala, o som dos seus passos firmes no tapete espesso quebrando o silêncio. Ele parou atrás dela, seus olhos azuis, tão intensos quanto o céu antes de um temporal, fixos na nuca dela. Lúcia não se virou. Ela sabia que ele estava ali, sentia a presença dele como uma força gravitacional que a puxava, mesmo quando a razão gritava para que ela se afastasse.
"Você está pensativa", a voz dele era um murmúrio grave, rouco de emoções contidas.
Lúcia finalmente se virou, encontrando o olhar dele. Era como encarar um abismo profundo, onde a beleza perigosa se misturava à escuridão. "Eu não consigo parar de pensar, Dimitri."
Ele deu um passo à frente, a distância entre eles diminuindo. O perfume amadeirado e levemente picante dele, que antes a encantava, agora a deixava apreensiva. "Pensar em quê, Lúcia?"
Ela hesitou, as palavras presas na garganta. Como explicar que a imagem dele, o homem que ela acreditava conhecer, estava se desfazendo em sua mente, revelando um lado que ela não ousava confrontar? "Em tudo o que você disse ontem. Em… em quem você realmente é."
Um sorriso sutil, quase imperceptível, brincou nos lábios de Dimitri. Não era um sorriso de alegria, mas de reconhecimento. "Eu já te disse quem eu sou. Eu sou o homem que te ama, Lúcia. O resto… o resto são apenas sombras."
"Mas as sombras são reais, Dimitri!", a voz dela ganhou um tom de urgência. "Elas projetam um vulto que eu não consigo ignorar. Essa… essa outra vida sua. Essa vida que envolve… perigo."
Ele suspirou, o som carregado de uma resignação que a atingiu como um golpe. Ele se aproximou mais, a mão se erguendo como se para tocar seu rosto, mas parou a centímetros de distância. "Eu sei que é difícil. Eu nunca quis te envolver nisso. Mas você… você é a luz que ilumina o meu mundo, Lúcia. E eu faria qualquer coisa para te proteger."
"Proteger de quê?", ela sussurrou, o medo começando a gelar suas veias. "De quem? De você?"
A expressão dele endureceu, um lampejo de dor atravessando seus olhos. "Nunca de mim. Proteger de… de tudo o que existe fora de nós. Do mundo que eu… que eu pertenço."
Um silêncio pesado se instalou entre eles, preenchido apenas pelo som constante da chuva. Lúcia sentia o peso das palavras não ditas, das verdades que pairavam no ar como fantasmas. Ela sabia que Dimitri escondia mais do que revelava. Cada palavra dele era cuidadosamente escolhida, cada gesto medido. Mas em seus olhos, ela via a angústia, a luta interna que o consumia.
"Eu não posso viver com medo, Dimitri", ela disse, a voz firme apesar do tremor interior. "Eu não posso ter um amor construído sobre segredos e perigos."
Ele fechou os olhos por um instante, como se absorvesse a dor dela. Quando os abriu novamente, havia uma determinação fria neles. "Eu vou te dar as respostas que você precisa, Lúcia. Mas você precisa confiar em mim. Você precisa acreditar que, por mais sombria que seja a minha vida, o meu amor por você é a única coisa pura e verdadeira que eu possuo."
De repente, um som distante de sirenes quebrou a atmosfera carregada. Ambos se sobressaltaram. Dimitri se moveu instintivamente para a janela, observando a rua.
"Parece que a noite não vai ser tranquila", ele disse, a voz voltando a ter aquele tom sombrio e alerta que ela conhecia. "Fique aqui, Lúcia. Não saia por nada."
Ele se virou para sair, mas Lúcia o segurou pelo braço, o toque de seus dedos em sua pele parecendo um pedido desesperado. "Dimitri, por favor… não vá."
Ele a olhou, a luta visível em seu rosto. "Eu tenho que ir. É… é meu dever. Mas eu volto para você. Eu sempre volto."
E com isso, ele saiu, deixando Lúcia sozinha novamente na biblioteca, o eco de seus passos desaparecendo corredor afora. Ela se encostou na estante, o corpo tremendo. A chuva continuava a cair, e com ela, a sensação de que a tempestade que se formava em sua vida estava apenas começando. A verdade, como o sussurro de um fantasma, parecia estar à espreita, esperando o momento certo para se revelar completamente, e ela temia o que essa verdade traria para ela e para o homem que, apesar de tudo, ela amava.