O Rei da Minha Noite
Capítulo 18 — A Armadilha Se Fecha e a Coragem Floresce
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 18 — A Armadilha Se Fecha e a Coragem Floresce
O olhar gélido de Alexei Petrov a envolvia como um abraço mortal. Lúcia sentiu o ar rarear em seus pulmões. A presença dele era palpável, emanando uma aura de poder brutal que a fazia encolher. Sergei, ao seu lado, parecia uma marionete assustada, a lealdade dividida entre o medo de Dimitri e a ameaça imediata de Petrov.
"Eu… eu me perdi", Lúcia conseguiu balbuciar, a voz trêmula, mas tentando manter uma postura que não denunciasse seu terror absoluto. "Estava procurando por Dimitri."
Alexei riu, um som seco e desagradável que reverberou no silêncio carregado do escritório. "Procurando por Dimitri? Tão dedicada, não é? Pena que Dimitri não seja tão dedicado a você. Ele tem… outras prioridades."
Aquelas palavras, ditas com tanta certeza, perfuraram o coração de Lúcia como lâminas. Seria possível? Depois de tudo o que ele demonstrara? A dúvida, semente plantada por Petrov, começou a germinar em seu peito.
"Eu não sei do que você está falando", ela respondeu, a voz ganhando um fio de firmeza. Ela precisava se recompor, precisava encontrar uma saída.
Petrov deu um passo à frente, ignorando a pergunta. Seus olhos percorreram a escrivaninha, parando no álbum de fotos caído e no bilhete com a assinatura dele. Um sorriso de satisfação se espalhou por seu rosto. "Parece que você é mais curiosa do que parece, mocinha. Gosta de revirar o passado?"
Ele pegou o bilhete e o balançou lentamente. "Um lembrete de antigas amizades. E antigas dívidas."
Sergei pigarreou, inquieto. "Senhor Petrov, talvez devêssemos esperar Dimitri. Ele voltará em breve."
"Esperar?", Petrov bufou. "Não temos tempo para esperar. Dimitri se tornou um problema. E problemas precisam ser resolvidos. Especialmente quando eles se tornam tão… descuidados." Seus olhos voltaram a pousar em Lúcia, um brilho perigoso neles. "E você, querida Lúcia, se tornou um peão valioso neste jogo."
Lúcia sentiu um calafrio na espinha. Peão? Ela não era um peão. Ela era uma pessoa, com sentimentos, com um futuro que ela achava que podia construir. A frieza com que Petrov a considerava, a maneira como ele a olhava como um objeto, era mais aterrorizante do que a ameaça de violência.
"Eu não tenho nada a ver com seus jogos", ela disse, o peito arfando. "Me deixem em paz."
"Oh, você tem tudo a ver", Petrov retrucou, aproximando-se dela. Ele era mais alto do que Dimitri, e sua presença era avassaladora. "Você é a fraqueza dele. E qualquer um com um mínimo de inteligência pode explorar isso." Ele estendeu a mão, como se para tocar o rosto dela, mas parou a poucos centímetros. "Ou talvez você possa ser útil de outra maneira. Talvez você possa me dizer onde ele escondeu… o que é meu."
Lúcia recuou instintivamente. O que era dele? Dimitri havia falado sobre "negócios" e "territórios". Seria isso? Uma disputa por poder e bens?
"Eu não sei nada", ela insistiu, o medo se transformando em uma raiva latente. Ela pensou em Dimitri, na promessa dele de protegê-la. Se ela cedesse agora, se mostrasse fraqueza, estaria traindo essa promessa.
"Vamos, vamos", Petrov insistiu, o tom mais ameaçador. "Não me force a usar métodos desagradáveis. Sergei, cuide dela."
Sergei hesitou, olhando de Petrov para Lúcia, o conflito estampado em seu rosto. Ele parecia dividido entre o medo de Petrov e uma relutância em machucar Lúcia.
Nesse momento de hesitação, Lúcia viu sua chance. Ela não era uma lutadora, não era uma estrategista. Mas ela tinha algo que Petrov não esperava: a força de quem não tem nada a perder. Com um grito súbito, ela empurrou a escrivaninha com toda a sua força. O móvel pesado rangeu e se inclinou, derrubando papéis, uma luminária e o álbum de fotos no chão. A confusão momentânea foi o suficiente.
Ela correu em direção à porta, sem olhar para trás. Ouviu Petrov gritar em russo, e o som de Sergei correndo atrás dela. Ela desceu as escadas tropeçando, o coração batendo a mil por hora. Ela podia ouvir os passos pesados de Petrov mais perto. Ele era mais rápido do que parecia.
Ao chegar ao corredor principal, viu uma luz fraca vindo da sala de estar. A porta estava entreaberta. Sem pensar, ela se jogou para dentro, fechando-a atrás de si. O cômodo estava escuro, iluminado apenas pela luz bruxuleante da lareira. Ela se escondeu atrás de uma poltrona grande, prendendo a respiração.
Ouviu os passos de Petrov e Sergei se aproximando. Eles pararam do lado de fora da porta.
"Ela deve estar aqui", Petrov rosnou.
"Não a vejo", Sergei respondeu, a voz tensa.
"Vasculhem. Ela não pode ter ido longe."
Lúcia apertou os olhos, tentando controlar a respiração ofegante. O cheiro de madeira queimada da lareira se misturava ao seu medo. Ela se encolheu ainda mais, rezando para que eles não a encontrassem.
Os passos se aproximaram da porta. Lúcia se preparou para o pior. Ela não seria um peão. Ela não seria uma vítima.
De repente, a porta se abriu violentamente, e uma figura alta e escura entrou no cômodo. Lúcia prendeu a respiração, esperando ver o rosto de Petrov. Mas não era ele.
Era Dimitri.
Seus olhos, escuros e cheios de uma fúria silenciosa, encontraram os dela por um instante fugaz. Um vislumbre de alívio e espanto cruzou o rosto dela. Mas então, ele olhou para Petrov, que estava parado na porta, com um sorriso irônico.
"Ora, ora, Dimitri", disse Petrov, o tom zombeteiro. "Parece que você chegou bem a tempo de ver sua florzinha em apuros. E ela estava… muito cooperativa."
Dimitri não respondeu. Ele apenas deu um passo à frente, posicionando-se entre Lúcia e Petrov. A tensão no ar era palpável, um duelo silencioso entre dois homens que representavam mundos opostos.
"Você não tem nada que procure aqui, Alexei", Dimitri disse, a voz baixa e perigosa.
"Oh, mas eu tenho", Petrov retrucou, o sorriso se alargando. "Eu tenho o que é meu. E você, Dimitri, se tornou um obstáculo. Um obstáculo que precisa ser removido."
Lúcia observava a cena, o coração apertado. A coragem que ela havia encontrado momentos antes parecia evaporar diante da realidade crua da situação. Ela era a razão pela qual Dimitri estava ali, enfrentando um inimigo tão perigoso. O labirinto de lealdade e traição em que ela se encontrava parecia ter se fechado sobre ela. Mas enquanto o medo a consumia, uma determinação fria também começava a se instalar. Ela não seria a causa da queda de Dimitri. Ela precisava encontrar uma maneira de sair dali, de protegê-lo, de se proteger. A armadilha se fechara, mas a coragem que florescia em seu peito era uma semente de esperança em meio à escuridão.