O Rei da Minha Noite

Capítulo 19 — O Fio da Navalha e a Tempestade que se Desencadeia

por Rodrigo Azevedo

Capítulo 19 — O Fio da Navalha e a Tempestade que se Desencadeia

O confronto entre Dimitri e Alexei Petrov era um espetáculo de tensão contida, um duelo silencioso onde cada palavra era uma arma e cada olhar, um golpe. Lúcia, encolhida atrás da poltrona, sentia a adrenalina correr em suas veias, misturada a um medo profundo e a uma estranha sensação de… posse. Ela era a causa daquela briga, o ponto de discórdia entre dois homens que pareciam orbitar em esferas de poder e perigo.

Dimitri, com sua postura imponente, irradiava uma calma perigosa. Seus olhos azuis, geralmente tão expressivos, agora eram frios e calculistas, fixos em Petrov. Ele parecia uma muralha intransponível entre Lúcia e a ameaça.

"Você sempre foi ambicioso, Alexei", Dimitri disse, a voz baixa, mas carregada de um poder latente. "Mas cruzar a linha que separa nossos mundos… isso é tolice."

Petrov deu uma risada sarcástica. "Tolice? Ou a única maneira de recuperar o que me pertence? Você se esquece de quem construiu este império, Dimitri. Você é apenas um herdeiro mimado brincando com o legado da família."

As palavras de Petrov atingiram Lúcia como um choque. Herdeiro? Legado da família? Ela sempre soube que Dimitri pertencia a um mundo de negócios escusos, mas nunca imaginou que houvesse uma disputa tão direta, tão pessoal, envolvendo o nome Volkov.

"O legado da família Volkov é meu por direito", Dimitri retrucou, a mandíbula tensa. "E eu não permitirei que um parasita como você o manche."

"Parasita?", Petrov avançou mais um passo, seu olhar cruel fixo em Dimitri. Sergei, que ainda estava na porta, parecia ainda mais apreensivo, dividido entre ordens e instinto. "Eu sou aquele que fez o trabalho sujo enquanto você desfrutava dos luxos. Eu sou aquele que enfrentou os verdadeiros perigos para que o nome Volkov permanecesse temido."

Lúcia sentiu seu estômago revirar. O homem que ela amava, que a protegia, era fruto de um mundo construído sobre violência e medo. A imagem que ela tinha dele, de um homem forte e justo em meio à escuridão, começou a se fragmentar, revelando as raízes sombrias de sua existência.

"Você fala de perigos, Alexei?", Dimitri zombou, um brilho de desprezo em seus olhos. "Eu conheço os verdadeiros perigos. E você, meu caro, é apenas um verme rastejando nas sombras."

A provocação acendeu a fúria nos olhos de Petrov. Ele ergueu a mão, e Lúcia viu algo brilhar: uma pequena arma de fogo prateada.

"Chega de conversa, Dimitri", ele sibilou. "Entregue o que é meu, e talvez eu deixe sua namoradinha ir embora sem um arranhão." Ele fez um gesto com a arma na direção de Lúcia.

O instinto protetor de Dimitri se acendeu. Ele se moveu com uma velocidade surpreendente, colocando-se completamente na frente de Lúcia, como um escudo humano.

"Você não tocará nela", Dimitri declarou, a voz firme como aço.

"Ah, mas eu posso", Petrov riu. "A menos que você me dê o que eu quero."

A tensão atingiu o ápice. Lúcia sentia o cheiro de pólvora no ar, a ameaça iminente. Ela sabia que não podia ficar ali, escondida, esperando. Ela precisava fazer algo.

Com um impulso repentino de coragem, ela se levantou da poltrona. A surpresa tomou conta dos rostos de Petrov e Sergei.

"Parem!", ela gritou, a voz ecoando na sala. "Não façam isso!"

Petrov virou a arma na direção dela. "Cala a boca, sua inútil! Você não entende nada!"

"Eu entendo que você quer machucá-lo!", Lúcia retrucou, caminhando lentamente em direção a eles, os olhos fixos em Petrov. "Você quer destruí-lo. Mas ele não vai deixar."

Dimitri a olhou, surpreso e preocupado. "Lúcia, volte para trás."

"Não, Dimitri. Eu não vou mais me esconder." Ela parou a poucos metros de Petrov, o coração martelando no peito. "O que você quer, Petrov? Dinheiro? Poder? Você acha que isso vai te fazer feliz?"

"Felicidade é para os fracos", Petrov rosnou. "Eu quero o que me é devido."

"E você acha que o Dimitri lhe deve algo?", Lúcia perguntou, a voz ganhando força. "Ou você acha que ele é apenas uma pedra no seu caminho para ter tudo?"

Alexei Petrov riu novamente, mas havia uma nota de impaciência em seu tom. "Você fala demais. Sergei, pegue-a."

Sergei hesitou por um instante, mas o olhar severo de Petrov o forçou a agir. Ele começou a avançar em direção a Lúcia.

Foi então que Dimitri se moveu. Com um grito gutural, ele avançou em direção a Petrov, derrubando a arma da mão dele em um movimento rápido e brutal. A arma caiu no chão, deslizando para debaixo de uma mesa.

Os dois homens se envolveram em uma luta violenta. Socos eram trocados, corpos colidiam, e o som da violência ecoava pela sala. Lúcia observava, o terror e a admiração se misturando em seu peito. Dimitri lutava com uma ferocidade que ela nunca tinha visto, a cada movimento carregado de anos de controle e raiva reprimida.

Sergei, percebendo a oportunidade, tentou agarrar Lúcia, mas ela foi mais rápida. Ela se esquivou, pegou um pesado castiçal da lareira e o golpeou com toda a sua força na cabeça de Sergei. Ele cambaleou para trás, atordoado.

A luta entre Dimitri e Petrov continuava, feroz e desajeitada. Eles rolaram pelo chão, e um deles, Lúcia não conseguiu identificar quem, bateu com a cabeça em um móvel.

De repente, ouviu-se o som de sirenes se aproximando. Lúcia olhou para a janela e viu as luzes azuis e vermelhas piscando do lado de fora. A polícia.

Petrov olhou para a janela, a fúria em seu rosto se transformando em astúcia. Ele se afastou de Dimitri, que também parecia surpreso com a chegada inesperada.

"Isso não acabou, Volkov", Petrov sibilou, antes de se virar e correr em direção à porta dos fundos, com Sergei cambaleando atrás dele.

Dimitri tentou persegui-los, mas Lúcia o segurou pelo braço.

"Deixe-os ir, Dimitri", ela disse, ofegante. "Eles não podem ser pegos assim. Vai piorar tudo."

Dimitri a olhou, a respiração pesada, os olhos ainda cheios de fúria, mas também de preocupação por ela. Ele viu o castiçal na mão dela, o olhar determinado em seu rosto. Pela primeira vez, ele a viu não apenas como a mulher que amava, mas como alguém com sua própria força, sua própria coragem.

As sirenes pararam do lado de fora. A porta da frente se abriu, e policiais entraram, armados e alertas.

"Alto! O que está acontecendo aqui?", um dos policiais gritou.

Dimitri se virou para os policiais, a expressão voltando a ser calma e controlada, como se nada tivesse acontecido. "Nada", ele disse, a voz rouca. "Um pequeno… desentendimento."

Lúcia observava tudo, o coração ainda acelerado. A tempestade havia se desencadeado, e ela estava bem no centro dela. A noite que começou com sussurros e incertezas agora terminava com violência, perigo e a revelação de um passado sombrio. Ela sabia que, independentemente do resultado, sua vida com Dimitri nunca mais seria a mesma. O fio da navalha que eles caminhavam havia se esticado ao máximo, e o futuro pairava incerto, ameaçador.

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