O Rei da Minha Noite
Capítulo 2 — O Castelo de Ouro e Sombras
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 2 — O Castelo de Ouro e Sombras
O luxo era um idioma que Isabella entendia, mas o luxo de Rafael Alencar falava em dialetos que ela jamais imaginou existir. O helicóptero que os levou de volta para a cidade, após a confrontação surreal em seu escritório, era uma máquina reluzente e silenciosa, deslizando sobre o céu noturno do Rio de Janeiro como um predador alado. Lá de cima, as luzes da cidade se estendiam como um tapete de diamantes, a Guanabara um espelho negro pontilhado de estrelas artificiais.
Rafael sentou-se ao seu lado, a proximidade dele ainda a deixava tensa, mas agora havia uma estranha resignação crescendo em seu peito. Ele não a tocava, não a ameaçava verbalmente, apenas a observava com aqueles olhos penetrantes, como se estivesse catalogando cada nuance de sua apreensão.
“Onde estamos indo?”, ela perguntou, a voz ainda baixa, mas firme. A adrenalina havia cedido lugar a uma calma gélida.
“Para um lugar onde você ficará segura”, ele respondeu, sem desviar o olhar do horizonte. “E onde você aprenderá as novas regras do seu jogo.”
“Eu não estou jogando nenhum jogo, Sr. Alencar.”
Ele sorriu, um sorriso que parecia conter mais ironia do que diversão. “Oh, Isabella. Você está jogando o jogo mais antigo de todos. O jogo da sobrevivência.”
O helicóptero pousou em um heliponto particular no topo de um arranha-céu que Isabella não reconheceu. Era um edifício imponente, de linhas modernas e vidro escuro, que se erguia no coração da zona sul, dominando a paisagem urbana. Ao descerem, foram recebidos por homens em ternos escuros, com semblantes impassíveis e olhares atentos. A discrição era palpável, a eficiência, assustadora.
O interior do apartamento era um espetáculo de opulência controlada. Móveis de design minimalista, obras de arte contemporânea escolhidas a dedo, e uma vista panorâmica que faria qualquer um perder o fôlego. A arquitetura era impecável, a decoração, um reflexo de um gosto refinado e implacável. Era o tipo de lugar que Isabella projetaria para seus clientes mais exigentes, mas que agora parecia um covil dourado.
“Você… você mora aqui?”, ela perguntou, maravilhada e apreensiva.
“Eu vivo em vários lugares”, Rafael respondeu, tirando o paletó e o pendurando em um cabideiro discreto. “Mas este é o meu santuário. E agora, também será o seu.”
Um dos homens de preto se aproximou. “Senhor, o jantar está pronto.”
“Excelente”, Rafael disse, dirigindo-se a Isabella. “Venha. Você deve estar com fome.”
O jantar foi servido em uma sala de jantar com uma mesa de mármore maciço, onde um banquete de pratos exóticos e caros foi disposto. Isabella mal tocou na comida, a ansiedade a impedia de sentir fome. Rafael, por outro lado, comeu com um apetite calmo e calculado, como se estivesse desfrutando de cada garfada com plena consciência.
“Seu pai me deve muito, Isabella”, ele disse, quebrando o silêncio. “Ele apostou tudo o que tinha, e perdeu. Ele tentou me enganar, fugir. Eu não permito que ninguém me desrespeite. E muito menos que me dê calote.”
“Ele sempre foi… arriscado”, Isabella admitiu, a voz embargada. “Mas eu nunca imaginei que ele pudesse fazer algo assim.”
“Ele fez. E agora, o preço está sendo pago por você.” Rafael colocou o garfo sobre o prato, seus olhos fixos nos dela. “Não pense que isso é um sequestro, Isabella. É um acordo. Seu pai concordou com isso. Ele te entregou para mim em troca de um perdão das dívidas.”
A frieza com que ele pronunciou as palavras a fez tremer. Seu pai, o homem que sempre lhe ensinou sobre honra e responsabilidade, havia a trocado por dinheiro. A traição era um veneno que se espalhava por suas veias.
“Eu… eu não entendo como você pode ser tão… frio.”
Rafael deu de ombros, um gesto que não transmitia indiferença, mas sim uma aceitação brutal da realidade. “Eu não sou frio, Isabella. Eu sou justo. Eu cumpro minha palavra. E eu exijo o mesmo dos outros. Seu pai não foi justo comigo. Eu, então, tomei o que era meu por direito.”
“E eu sou o quê? Um objeto? Uma propriedade?”, a voz dela subiu em protesto.
“Você é um ativo”, ele corrigiu, a voz firme. “Um ativo valioso. E como tal, eu a protegerei. Ninguém vai te tocar, ninguém vai te machucar. Desde que você… coopere.”
“Coopere com o quê?”, ela perguntou, o medo retornando com força.
“Com a sua nova vida”, ele disse, levantando-se da mesa. “Por enquanto, você ficará aqui. Terá tudo o que precisar. Uma empregada, roupas, entretenimento. Você será minha convidada. Mas lembre-se, você está sob minha proteção. E minha proteção tem suas condições.”
Ele a conduziu até uma porta de madeira maciça. “Este será o seu quarto. É espaçoso, tem uma vista linda. E é seguro.” Ele abriu a porta, revelando um quarto que rivalizava com qualquer suíte de hotel de luxo. Uma cama king-size com lençóis de seda, um closet imenso, um banheiro com mármore e ouro.
Isabella entrou hesitante, os olhos percorrendo os detalhes. Era um quarto bonito, mas parecia uma gaiola dourada. Ela se virou para Rafael, o desespero crescendo. “Por quanto tempo?”, ela sussurrou.
Rafael a olhou, e pela primeira vez, ela viu algo em seus olhos que não era frioza ou calculismo. Talvez um lampejo de algo mais, algo que ele rapidamente reprimiu. “Até que seu pai resolva suas pendências. Ou até que eu decida o contrário.” Ele fez uma pausa, como se ponderasse suas próximas palavras. “Seja uma boa menina, Isabella. É o melhor para você.”
Ele fechou a porta suavemente, deixando-a sozinha em meio à opulência estéril. O silêncio do apartamento era ensurdecedor, preenchido apenas pelo som distante do tráfego da cidade. Ela se aproximou da janela, olhando para as luzes que cintilavam lá embaixo. Copacabana, seu lar, parecia tão distante, um mundo que ela talvez nunca mais pudesse alcançar.
As palavras de Rafael ecoavam em sua mente: “Você pertence a mim.” Ele não a tinha roubado, não a tinha sequestrado no sentido clássico. Ele a havia comprado. O sangue de seu pai, a confiança que ela depositava nele, tudo havia sido vendido em um leilão sombrio. Ela era a joia que ele mencionara, um troféu que ele agora ostentava.
Ainda assim, havia algo em sua voz, uma nuance que a intrigava. Ele a via como um ativo, uma garantia. Mas seus olhos, por um instante, revelaram uma complexidade que ia além do mero interesse comercial. Era isso que a assustava ainda mais. A ideia de que esse homem, o rei de um império de sombras, pudesse ter um interesse que ia além do financeiro.
Ela se sentou na beira da cama suntuosa, o tecido de seda frio contra sua pele. As lágrimas finalmente vieram, silenciosas e amargas. O luxo ao seu redor não a confortava, mas a sufocava. Ela era Isabella, a arquiteta, a sonhadora. Mas agora, ela era também a propriedade de Rafael Alencar, o homem que a envolvera em seu mundo de ouro e sombras. O Rei da Minha Noite. O título ecoou em sua mente, um presságio sombrio do que estava por vir. O Rio de Janeiro, sua cidade amada, parecia agora um labirinto de luxo e perigo, onde ela era uma peça cativa em um jogo que mal começara a entender.