O Rei da Minha Noite
Capítulo 24 — O Sussurro do Traidor e o Grito da Verdade
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 24 — O Sussurro do Traidor e o Grito da Verdade
A festa na mansão dos Valério pulsava com uma energia febril, uma celebração macabra que escondia as sombras da crueldade. Isabella, agora no papel de Sofia Rodrigues, movia-se com uma desenvoltura surpreendente entre os convidados, cada sorriso um disfarce, cada palavra um cálculo. A mansão, com sua opulência exagerada, parecia um palco para o teatro da hipocrisia, onde homens com mãos sujas de sangue brindavam com champanhe caro.
Ela sentia os olhares sobre si, curiosos e cobiçosos. A fama de empresária promissora já havia se espalhado, e ela era o centro das atenções de muitos homens de negócios, incluindo Ricardo Valério, um sujeito que emanava um ar de perigo contido. Ele era um dos braços direitos de Marcos Valério, o homem que Isabella jurara fazer pagar pela morte de Rafael.
"Senhorita Rodrigues, você está deslumbrante esta noite", Ricardo disse, aproximando-se dela com um sorriso que não chegava aos olhos. "É uma honra tê-la em nosso meio."
Isabella retribuiu o sorriso, mantendo a postura de empresária confiante. "Senhor Valério, o prazer é meu. Sua festa é magnífica."
"Um reflexo de nosso sucesso", ele disse, com um tom de orgulho. "E você, acredito, está prestes a se tornar uma parte importante dele."
Eles conversaram sobre negócios, sobre o mercado de joias, sobre as oportunidades em São Paulo. Isabella, com a inteligência afiada de Rafael e sua própria capacidade de adaptação, manteve a conversa fluida, dissimulando sua verdadeira intenção: desvendar a teia de mentiras dos Valério.
Enquanto falava com Ricardo, Isabella discretamente procurava o garçom que Sofia havia prometido. A tensão em seu peito era palpável. Cada minuto ali era um risco, um passo em falso podia significar o fim.
Em um momento de distração, enquanto Ricardo se afastava para cumprimentar outro convidado, Isabella viu o garçom. Ele se aproximou dela com a naturalidade de quem serve uma bebida, deslizando um pequeno envelope em sua mão. O toque gelado do papel fez seu coração acelerar. Ela agradeceu com um leve aceno de cabeça e se afastou, buscando um local mais reservado para analisar o conteúdo.
Escondida em um corredor lateral, sob a proteção de uma tapeçaria antiga, Isabella abriu o envelope. Dentro, um pedaço de papel com uma única frase escrita à mão: "André está aqui. Ele está vulnerável."
Um arrepio percorreu seu corpo. André, o traidor que vendera Rafael por dinheiro, estava sob o mesmo teto. Essa era a oportunidade que ela e Bruno esperavam. A captura de André seria a chave para desmantelar a operação dos Valério e, mais importante, para obter a confirmação definitiva de sua traição.
Ela discretamente enviou uma mensagem codificada para Bruno, informando sobre a localização de André. A resposta não demorou: "Estamos a caminho. Mantenha-o ocupado."
Isabella voltou para a festa, com uma nova determinação em seus olhos. Ela precisava encontrar André. Ela sabia que ele estaria ansioso para se gabar de seu feito, para desfrutar do dinheiro que havia recebido. E ela estaria lá para ouvi-lo.
Ela o avistou em um canto mais afastado da sala, conversando animadamente com um grupo de homens. André, antes um homem modesto e submisso, agora ostentava roupas caras e um ar de importância. Ele parecia ter engordado, e seus olhos brilhavam com uma ganância recém-descoberta.
Isabella se aproximou do grupo, com um sorriso encantador no rosto. "Com licença, senhores", disse ela, sua voz suave e sedutora. "Será que posso interromper por um momento? Sou Sofia Rodrigues, e ouvi dizer que o senhor André é um homem de grande sabedoria nos negócios."
André a olhou, surpreso com a atenção. Ele parecia lisonjeado, e sua vaidade o cegou para qualquer suspeita. "Senhorita Rodrigues, é uma honra. Sim, tive... algumas oportunidades de sucesso recentemente."
Os homens ao redor de André riram, e ele, embriagado pela própria importância, começou a falar. Isabella o incentivava com perguntas, criando um ambiente de cumplicidade.
"É fascinante como as oportunidades surgem, não é mesmo?", comentou Isabella, olhando diretamente nos olhos dele. "Às vezes, tudo o que precisamos é de uma boa oferta, de um pouco de coragem para mudar de lado."
André engoliu em seco, um leve rubor subindo em seu rosto. Ele percebeu que estava em uma armadilha, mas a arrogância o impedia de recuar. "Bem, senhorita Rodrigues, o mundo dos negócios é implacável. Quem não arrisca, não ganha."
"E o que você ganhou, André?", Isabella pressionou, a voz agora mais séria. "Dizem que você ajudou muito os Valério em um... negócio importante. Um negócio que envolveu a perda de alguém muito querido por mim."
O silêncio caiu sobre o grupo. Os homens ao redor de André começaram a se afastar, percebendo o perigo. André, pálido e trêmulo, tentou negar.
"Eu... eu não sei do que a senhora está falando."
"Não minta para mim, André", a voz de Isabella agora era um fio de aço. "Rafael era meu. E você o vendeu. Você o traiu. E agora, você vai pagar por isso."
Nesse exato momento, a porta principal da mansão se abriu com estrondo. Bruno e seus homens invadiram o salão, a presença deles irrompendo a falsa atmosfera de celebração. Gritos de pânico ecoaram pelo local.
"André!", Bruno gritou, seu olhar fixo no traidor. "Você está preso!"
André tentou fugir, mas era tarde demais. Os homens de Bruno o agarraram, enquanto o caos tomava conta da festa. Marcos Valério, furioso com a interrupção, tentou reagir, mas foi contido por seus próprios homens, que já sentiam o cheiro da derrota.
Isabella observava a cena, uma mistura de alívio e satisfação percorrendo seu corpo. A verdade havia sido dita, o grito de justiça fora ouvido. André, encurralado, não tinha mais para onde fugir. Ele era a prova viva da traição dos Valério. E a vingança de Rafael estava mais perto do que nunca.