Noite de Vinho e Veneno
Capítulo 12 — O Preço da Lealdade
por Mateus Cardoso
Capítulo 12 — O Preço da Lealdade
A manhã seguinte chegou com um sol tímido, como se a natureza hesitasse em romper o véu de melancolia que pairava sobre a cidade. Sofia acordou com o corpo dolorido e a mente ainda povoada pelas revelações da noite anterior. O rosto do Dr. Almeida, outrora um símbolo de confiança, agora lhe causava um repulso visceral. A traição era uma ferida aberta, e ela sabia que a cura seria longa e dolorosa.
Marco estava na varanda, observando o horizonte, a silhueta esguia contra a luz pálida. Ele parecia um predador em repouso, a força contida em cada movimento. Sofia o observou por um momento, sentindo uma mistura de ressentimento e uma atração inegável. Ele a havia envolvido em seu mundo, mas também a havia protegido, à sua maneira tortuosa.
Ele se virou, como se sentisse o olhar dela, e um leve sorriso tocou seus lábios. "Bom dia."
Sofia se aproximou, um copo de água na mão. "Bom dia." Ela hesitou. "Marco... sobre ontem à noite..."
Ele a interrompeu, com um gesto suave. "Não precisamos falar sobre isso agora. A verdade já foi dita. O que importa é o que faremos a seguir." Ele a convidou para se sentar ao seu lado. "Eu já tomei algumas providências."
Sofia arqueou uma sobrancelha. "Que providências?"
"Acionei alguns contatos. Queremos Dr. Almeida sob vigilância discreta. Quero saber todos os passos dele, quem ele encontra, onde vai. Quero a prova irrefutável para levá-lo à justiça. E para garantir que ele não escape." O tom de Marco era frio e calculista. A lealdade de sua família era algo que ele defendia com unhas e dentes, e a traição de Almeida era uma afronta que ele não deixaria impune.
"E quanto a Falcone?", Sofia perguntou. "Ele ainda pode ser uma ameaça."
"Falcone é um problema que sempre existirá, mas agora sabemos que ele não está envolvido na morte do seu pai. Isso muda tudo. Ele pode tentar usar a situação a seu favor, mas com Almeida exposto, teremos uma vantagem." Marco apertou a mão dela. "Seu pai era um homem bom, Sofia. Ele não merece ser esquecido ou ter sua memória manchada por mentiras."
Sofia assentiu, sentindo um nó na garganta. A memória de seu pai era sagrada, e a ideia de que ele havia sido manipulado até mesmo em sua morte era insuportável. "Eu só quero que a verdade venha à tona. Que todos saibam quem ele realmente era."
"E assim será", Marco assegurou. "Mas precisamos ser cuidadosos. Almeida pode ser um rato encurralado agora, mas ainda pode morder."
A conversa deles foi interrompida por um dos homens de Marco, um sujeito corpulento e silencioso chamado Enzo. Ele se aproximou com uma expressão séria. "Senhor Rossi, temos uma situação. A polícia está a caminho."
O semblante de Marco endureceu. "Isso não é possível. Almeida não nos trairia para a polícia."
"Não sei quem os alertou, senhor. Mas eles estão vindo para cá. E trouxeram um mandado de busca."
Um arrepio percorreu a espinha de Sofia. A polícia. O mandado. Tudo estava desmoronando rápido demais. Ela olhou para Marco, a incerteza em seus olhos.
"Eles sabem?", ela perguntou.
"É provável que saibam que algo está acontecendo", Marco respondeu, sua voz tensa. "Mas não necessariamente sobre a morte do seu pai. Pode ser sobre as atividades de Almeida, ou sobre as nossas." Ele se levantou, um plano se formando em sua mente. "Sofia, você precisa ir. Agora. Não pode estar aqui quando a polícia chegar."
"Ir? Para onde?", ela protestou.
"Para um lugar seguro. Um lugar onde você não será envolvida nisso. Tenho uma propriedade fora da cidade. Enzo vai te levar. Fique lá até que eu te diga que é seguro voltar."
Sofia hesitou. Deixar Marco agora, em meio a essa crise, parecia errado. Mas ela sabia que sua presença poderia complicar as coisas, colocá-lo em perigo.
"E você?", ela perguntou.
"Eu vou dar um jeito. Sou bom em dar um jeito", ele disse, um brilho perigoso nos olhos. "Mas você precisa ir. Por sua segurança. E pela nossa investigação."
O "nossa investigação" soou como uma promessa, um futuro que eles construiriam juntos, mesmo que agora parecesse distante e incerto. Ela assentiu, relutante.
"Tudo bem. Mas você me liga. Assim que puder."
Marco a puxou para perto, um abraço apertado e cheio de emoção contida. "Eu sempre te ligo, meu amor." Ele sussurrou em seu ouvido. "Confie em mim."
Sofia sentiu o coração acelerar. Confiança. Era uma moeda que ela estava disposta a arriscar novamente, agora que sabia em quem depositar sua fé. Ela se afastou de Marco e seguiu Enzo até um carro discreto que esperava do lado de fora. Ao partir, ela lançou um último olhar para a mansão, onde Marco permanecia, uma figura solitária enfrentando a tempestade que se aproximava.
Enquanto o carro se afastava, Sofia sentiu um peso no peito. A fuga parecia uma derrota, mas ela sabia que era uma necessidade. Ela se lembrou das palavras de Marco sobre a lealdade. Era por isso que ele estava arriscando tudo. Por lealdade à sua família, à memória de seu pai, e talvez, apenas talvez, por lealdade a ela.
No caminho, Enzo era um homem de poucas palavras, mas sua presença transmitia uma segurança silenciosa. Ele dirigia com precisão, evitando as estradas principais, como se estivesse habituado a desaparecer. Sofia observava a paisagem rural passar, as árvores densas oferecendo um manto de privacidade.
Finalmente, chegaram a uma casa isolada, cercada por uma vegetação luxuriante. Era charmosa, mas austera, um refúgio temporário. Enzo a guiou para dentro, mostrando-lhe os cômodos básicos.
"Senhor Rossi pediu para que nada lhe falte", disse ele, com um leve aceno. "Eu me certificarei de que esteja segura. E trarei notícias assim que as tiver."
Sofia assentiu, agradecida. Assim que Enzo saiu, ela se sentiu sozinha. A casa era um silêncio imenso, quebrado apenas pelo canto dos pássaros. Ela se sentou em um sofá velho, a mente trabalhando freneticamente. Quem teria alertado a polícia? Seria Almeida? Ou alguém que sabia do seu plano para expô-lo? A teia de aranha era mais complexa do que imaginava.
Horas se passaram. O sol começou a se pôr, pintando o céu com tons de laranja e roxo. A solidão começou a pesar. Sofia pegou o celular, mas não havia sinal. Ela sabia que Marco estaria preocupado, e ela também estava preocupada com ele.
De repente, ouviu o som de um carro se aproximando. Era Enzo. Ele entrou apressado, o rosto tenso.
"Sofia, temos um problema", ele disse, sem rodeios. "A polícia encontrou o seu apartamento. Eles estão vasculhando tudo. Parece que alguém os guiou diretamente até lá."
Um calafrio percorreu Sofia. Alguém a estava caçando. Alguém sabia de seus movimentos.
"Alguém nos traiu?", ela perguntou, o medo começando a tomar conta.
"Não sei. Mas precisamos sair daqui. Agora." Enzo a ajudou a se levantar. "Se eles sabem do seu apartamento, podem descobrir que você está aqui."
Sofia não hesitou. A ideia de ser pega, de estragar a investigação de Marco, era insuportável. Ela pegou uma pequena bolsa com seus pertences essenciais.
"Para onde vamos?", ela perguntou.
"Para outro lugar. Um lugar mais seguro. Um lugar onde não nos encontrarão tão facilmente." Enzo a guiou para fora da casa, de volta para o carro.
Enquanto dirigiam pela escuridão da noite, Sofia sentiu um misto de medo e determinação. A luta pela justiça de seu pai estava apenas começando, e o caminho estava repleto de perigos. Mas ela sabia que Marco estava do seu lado, e isso era o suficiente. A lealdade que ele demonstrou era um farol em meio à escuridão. O preço da lealdade era alto, mas Sofia estava disposta a pagá-lo. Ela estava disposta a arriscar tudo por Marco, e pela verdade.
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