Noite de Vinho e Veneno

Capítulo 2 — Sombras e Sussurros no Jardim Noturno

por Mateus Cardoso

Capítulo 2 — Sombras e Sussurros no Jardim Noturno

A festa no Palácio Dourado pulsava com uma energia febril, mas para Isabella, cada instante se arrastava como uma eternidade. O champanhe em sua taça parecia mais amargo do que doce, e a conversa polida com Dante Rossi, que agora se estendia por um tempo que parecia ao mesmo tempo curto e infinito, era uma dança delicada entre a cordialidade forçada e a tensão latente. Eles haviam se afastado do burburinho principal, encontrando refúgio temporário na varanda de mármore que dava para os jardins meticulosamente cuidados, iluminados por lanternas que projetavam sombras dançantes sobre as roseiras e estátuas clássicas.

“Você parece inquieto, Signor Rossi,” Isabella comentou, tentando quebrar o silêncio carregado que se instalara entre eles. O ar da noite trazia consigo o perfume adocicado das rosas, um contraste fragrante com o cheiro de poder e perigo que emanava de Dante.

Ele virou-se para ela, seus olhos escuros fixos em sua figura, como se tentasse decifrar cada nuance de seu comportamento. Havia uma intensidade em seu olhar que a fazia sentir-se exposta, como se ele pudesse ler seus pensamentos mais profundos. “Inquieto não é a palavra certa, Isabella,” ele respondeu, sua voz um sussurro rouco que parecia acariciar o ar. “Digamos que estou… observando.”

“Observando o quê?”, ela perguntou, um fio de curiosidade cortando através de sua apreensão.

Dante deu um leve sorriso, um lampejo de algo que poderia ser divertimento, mas que logo se desfez em uma expressão mais séria. “Observando o jogo. As peças, os jogadores. E o tabuleiro.” Ele fez uma pausa, seus olhos percorrendo a extensão dos jardins, antes de voltar a focar em Isabella. “E você, Isabella, parece ser uma peça de grande valor neste jogo.”

O comentário, embora coubesse perfeitamente na realidade de sua situação, a atingiu com a força de um golpe. “Eu sou apenas uma espectadora, Signor Rossi,” ela respondeu, a voz um pouco mais firme do que pretendia.

“Ninguém neste salão é apenas um espectador, Isabella,” Dante retrucou, sua voz carregada de um tom que beirava a advertência. “Especialmente quando se trata da Famiglia Moretti e da Famiglia Rossi. Somos todos jogadores, quer queiramos ou não.”

Isabella suspirou, sentindo o peso de sua linhagem sobre seus ombros. “Eu sei. Mas às vezes, eu gostaria de não ser.”

Houve um momento de silêncio, um silêncio que permitiu que as palavras de Isabella ecoassem no ar, revelando uma fragilidade que ela raramente permitia transparecer. Dante a observou com uma expressão indecifrável, seus olhos percorrendo seu rosto com uma atenção que a fez se sentir desconfortável e, ao mesmo tempo, estranhamente atraída.

“Entendo,” ele disse finalmente, a voz surpreendentemente suave. “O desejo de uma vida diferente. É um desejo comum, mesmo entre aqueles que parecem ter tudo.” Ele deu um passo mais perto, a distância entre eles diminuindo. Isabella podia sentir o calor que emanava dele, uma energia perigosa que a atraía como uma mariposa à chama. “Mas a realidade, Isabella, é que nascemos em um mundo onde as escolhas são limitadas. Onde o dever e a honra ditam nosso caminho.”

“E se esse caminho nos leva à infelicidade?”, ela ousou perguntar, sua voz um sussurro quase inaudível.

Dante inclinou a cabeça, seus olhos escuros perfurando os dela. “A infelicidade é uma consequência. O que importa é o que fazemos com ela. Se a usamos como combustível, ou se nos deixamos consumir por ela.” Ele estendeu a mão, seus dedos delicadamente tocando a lateral de sua taça de champanhe. “Alguns encontram força na dor. Outros, no poder.”

Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algo nas palavras de Dante, uma profundidade sombria que ressoava com a própria escuridão que ela sentia dentro de si. Ele não era apenas um homem de negócios; ele era um homem que entendia a natureza humana em seus aspectos mais crus e perigosos.

“E você, Signor Rossi?”, ela perguntou, seus olhos fixos nos dele. “O que o impulsiona?”

Ele sorriu novamente, um sorriso que não alcançava seus olhos. “Eu busco controle, Isabella. O controle sobre meu destino, sobre meu legado. E hoje, esse controle se estende a um futuro que envolve sua família.”

A menção direta à união delas pairou no ar, um elefante na sala de mármore. Isabella desviou o olhar, focando em uma rosa vermelha desabrochando em um canteiro próximo. A beleza da flor contrastava com a feiúra do acordo que estava sendo selado.

“Meu pai me disse que hoje selaríamos uma aliança,” Isabella disse, a voz embargada.

“E assim será,” Dante confirmou, seu tom inflexível. “Uma aliança que trará prosperidade e segurança para ambas as famílias. O casamento é um passo necessário.”

“Um passo necessário,” Isabella repetiu, a palavra ecoando em sua mente como um eco de sua própria prisão. “E se eu não quiser dar esse passo?”

A pergunta pairou no ar, audaciosa e perigosa. Dante não respondeu imediatamente. Ele se aproximou ainda mais, sua presença quase sufocante. Isabella podia sentir o cheiro de seu perfume amadeirado misturado com algo metálico, como sangue seco.

“Não há ‘se’, Isabella,” ele disse, sua voz baixa e perigosa. “Há apenas o que precisa ser feito. E o que precisa ser feito, será feito. Você entende isso?”

O olhar dele era um desafio direto, um convite para uma batalha que ela sabia que não poderia vencer. Mas, por um breve momento, uma centelha de rebeldia acendeu-se dentro dela. “Eu entendo que sou um ser humano, Signor Rossi, não uma moeda de troca.”

Dante a encarou por um longo momento, seus olhos escuros analisando cada reação dela. O silêncio se estendeu, tenso e carregado, antes que ele soltasse uma risada baixa e rouca. “Impressionante. Você tem fogo, Isabella. Mais do que eu esperava.” Ele estendeu a mão, seus dedos roçando levemente em seu braço. O toque foi breve, mas o calor que ele deixou para trás era palpável. “Não se preocupe. Eu não sou um monstro. Apenas… um homem de negócios. E os negócios, às vezes, exigem sacrifícios.”

Ele se afastou, voltando a observar o salão principal. Isabella sentiu um alívio tênue, misturado com uma estranha decepção. O confronto direto com Dante a havia deixado sem fôlego, mas também a havia feito sentir-se… vista. Visto por um homem que, embora fosse parte de seu destino sombrio, parecia entender a escuridão que a cercava.

“Chegou a hora,” Dante disse, indicando com a cabeça a direção de seus pais. “Dona Sofia e Don Antonio estão nos chamando. É hora de apresentar a futura noiva e o futuro noivo à sociedade.”

Isabella engoliu em seco. A realidade a atingiu com força total. Ela se virou para ele, e por um breve instante, viu nos olhos de Dante uma sombra de algo que parecia compaixão, ou talvez… resignação. Ele era tão prisioneiro quanto ela, em seu próprio mundo de poder e dever.

“Vamos”, ele disse, oferecendo seu braço. Isabella hesitou por um momento, antes de aceitar a oferta. Seu braço se encaixou perfeitamente no dele, uma união que parecia tão natural quanto inevitável. Enquanto caminhavam de volta para o salão principal, sentindo os olhares curiosos e as fofocas sussurradas em seu rastro, Isabella sentiu que a noite estava apenas começando. E que o vinho naquela festa não era o único veneno que seria servido. Havia também as promessas sussurradas, os olhares carregados de intenção e a inevitabilidade de um futuro que nenhum deles realmente desejava, mas que ambos eram forçados a aceitar. O jardim noturno, com suas sombras e sussurros, parecia o cenário perfeito para o início de sua sombria história.

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