Noite de Vinho e Veneno

Capítulo 20 — O Despertar da Serpente

por Mateus Cardoso

Capítulo 20 — O Despertar da Serpente

A atmosfera no escritório de Marco Antonio era carregada de expectativa. As informações coletadas nas últimas semanas haviam começado a formar um padrão, um esboço do inimigo que eles enfrentavam. Ricardo, com sua precisão habitual, apresentava as novas descobertas.

"Don, as transações financeiras de Valério, aquelas que conseguimos rastrear até o banco suíço, apontam para uma holding em Luxemburgo. Uma empresa de fachada, com camadas e camadas de outras empresas, tornando impossível rastrear o beneficiário final sem uma cooperação internacional que levaria anos." Ricardo suspirou, a frustração evidente em sua voz. "Mas conseguimos algo. Um dos intermediários, um homem de nome pequeno no submundo, foi pressionado a falar. Ele mencionou um encontro secreto em uma velha adega, fora da cidade. Um lugar usado para acordos de alto nível, onde a confidencialidade é sagrada."

Marco Antonio assentiu, seus olhos fixos em um mapa digital que exibia a localização aproximada da adega. "Uma adega... que ironia. A noite de vinho e veneno se desenrola em cenários cada vez mais literais." Ele se virou para Clara, que estava sentada ao seu lado, a postura tensa, mas atenta. "Você se lembra de algo sobre esse local, Clara? Algum lugar que seu pai frequentasse para... acordos?"

Clara pensou por um momento, a mente vasculhando memórias antigas. A imagem de seu pai, sempre envolto em mistérios, vinha à tona. "Meu pai tinha um lugar. Uma vinícola antiga, abandonada há anos, que ele usava para reuniões mais... discretas. Ele a chamava de 'O Refúgio do Corvo'."

O nome ecoou na sala, um arrepio percorrendo a espinha de Marco Antonio. "O Refúgio do Corvo." O inimigo deles, o homem nas sombras, tinha um nome, um local, e agora, Clara, a peça chave para chegar até ele. Era como se a serpente finalmente estivesse mostrando sua cabeça.

"Precisamos ir até lá, Ricardo", Marco Antonio declarou, a voz firme e decidida. "É a nossa chance de confrontar o Corvo. Mas precisamos de um plano. Não podemos entrar de olhos fechados."

Ricardo já antecipava a necessidade. "Já preparei algumas opções, Don. Podemos infiltrar uma equipe antes, para mapear o local e identificar as rotas de fuga. Ou podemos ir de frente, com força total, arriscando um confronto direto. A escolha é sua."

Marco Antonio olhou para Clara. Ela era a chave, mas também estava em perigo. "Clara, você é essencial para isso. Sua familiaridade com o local pode nos dar uma vantagem. Mas sua segurança é minha prioridade. Se você não se sentir segura..."

Clara o interrompeu, segurando sua mão com firmeza. "Marco, eu preciso fazer isso. Eu fui usada, traí você. Essa é a minha chance de consertar tudo. Eu vou com você. E eu vou me cuidar."

A determinação nos olhos de Clara era inegável. Marco Antonio sentiu uma onda de orgulho e preocupação. Ele sabia que ela era forte, mas o perigo era imenso.

Enquanto isso, no centro de detenção, Sofia recebia uma nova mensagem do Corvo. Desta vez, era uma ordem mais urgente. O Corvo estava preparando seu movimento final, e Sofia precisava criar uma distração.

"Sofia, o jogo está prestes a acabar. Preciso que você cause um alvoroço. Algo que chame a atenção de Marco Antonio, que o tire do seu caminho. Se você fizer isso, sua liberdade está garantida. Não me decepcione."

Sofia sentiu um misto de medo e excitação. Ela sabia que estava sendo usada, mas a promessa de liberdade era um bálsamo para sua alma aprisionada. Ela começou a planejar sua distração, a despertar a serpente dentro de si.

Naquela noite, Marco Antonio, Clara e uma equipe de confiança partiram para a antiga adega. A jornada foi tensa, o silêncio quebrado apenas pelo som do motor e pela respiração pesada de Clara, que tentava controlar o nervosismo.

Ao chegarem à adega, o local era ainda mais sombrio e imponente do que Clara se lembrava. As videiras antigas, repletas de uma escuridão quase palpável, pareciam guardiãs de segredos ancestrais. O cheiro de mofo e vinho velho pairava no ar, um perfume sinistro que prenunciava o perigo.

"Ricardo, você e sua equipe fiquem nas sombras. Mapeiem o local, identifiquem as entradas e saídas. Clara e eu entraremos primeiro", Marco Antonio instruiu, sua voz baixa e firme.

Eles adentraram a adega, a escuridão os envolvendo como um abraço gelado. As antigas barricas de carvalho, dispostas em fileiras ordenadas, pareciam fantasmas adormecidos. O silêncio era quebrado apenas pelos seus passos e pelo eco de suas respirações.

De repente, um barulho metálico soou nas profundezas da adega. Era um sinal. O Corvo não estava sozinho.

Marco Antonio e Clara avançaram com cautela, as armas em punho. A cada passo, a tensão aumentava. O que eles encontrariam ali? A verdade? Uma armadilha mortal?

Eles chegaram a uma sala maior, onde uma mesa longa e imponente estava posta. Ao redor dela, figuras sombrias se moviam nas sombras. E no centro, sentado em uma poltrona antiga, estava um homem. Um homem com um sorriso frio e penetrante, cujos olhos pareciam ver através de tudo. O Corvo.

"Marco Antonio. Que surpresa agradável", a voz do Corvo era suave, melódica, mas carregada de uma ameaça velada. "E você trouxe a bela Clara. Que honra."

Marco Antonio sentiu a raiva borbulhar em seu peito. "Acabou, Corvo. Seus jogos acabaram."

O Corvo riu, um som seco e sem alegria. "Acabaram? Querido Marco Antonio, você ainda não entendeu. Este é apenas o começo."

Nesse momento, um grito ecoou de fora da adega. Era um sinal de Sofia. Uma distração. As luzes da adega se apagaram, mergulhando tudo na escuridão.

O caos irrompeu. Tiros ecoaram, vozes se misturavam em gritos de pânico. Marco Antonio puxou Clara para perto, protegendo-a. Ele sabia que estavam em uma armadilha, que o Corvo havia planejado tudo.

Mas Clara não era mais a mulher que ele conhecera. Ela era uma guerreira. Em meio à escuridão, ela se moveu com agilidade, usando seu conhecimento do local para antecipar os movimentos dos inimigos.

Marco Antonio lutava bravamente, enfrentando os homens do Corvo, protegendo Clara. Ele sabia que a batalha seria feroz, que o Corvo era um inimigo astuto e perigoso.

Mas ele também sabia que o amor que sentia por Clara, e o amor que ela sentia por ele, era uma força mais poderosa do que qualquer veneno. Eles haviam despertado a serpente, e agora, precisavam enfrentá-la, juntos.

O confronto final estava apenas começando. A noite de vinho e veneno havia se transformado em uma batalha pela sobrevivência, pelo amor, e pela verdade. E Marco Antonio e Clara, lado a lado, estavam prontos para lutar até o fim.

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