Noite de Vinho e Veneno

Capítulo 3 — O Contrato de Sangue e Seda

por Mateus Cardoso

Capítulo 3 — O Contrato de Sangue e Seda

O retorno ao salão principal do Palácio Dourado foi um espetáculo em si. Os murmúrios cessaram, as conversas diminuíram, e todos os olhares se voltaram para Isabella e Dante, que caminhavam lado a lado, braço entrelaçado, como um casal recém-formado sob os holofotes de uma sociedade que celebrava a união de duas das mais poderosas famílias da máfia italiana em São Paulo. A atmosfera, antes vibrante com o burburinho de negócios e intrigas, agora parecia densa, carregada de expectativas e julgamentos silenciosos.

Don Antonio Moretti, com um sorriso que não chegava aos olhos, observava a cena com uma satisfação fria e calculista. Ao seu lado, Dona Sofia mantinha sua postura impecável, um leve aceno de cabeça era a única demonstração de aprovação que ela oferecia à filha. Dante Rossi, por outro lado, parecia se mover com uma desenvoltura natural, como se estivesse acostumado a ser o centro das atenções, a liderar o palco de poder.

“Dante, meu rapaz,” a voz grave de Don Antonio reverberou pelo salão, ganhando a atenção de todos. “Parece que você e minha filha já estão se conhecendo bem.” Um riso baixo e forçado acompanhou a fala, ecoando como um prenúncio.

Dante soltou uma risada rouca. “Sua filha é uma mulher fascinante, Don Antonio. Inteligente e… com uma beleza que faz qualquer homem esquecer de respirar.” Ele apertou levemente o braço de Isabella, um gesto que parecia tanto uma demonstração de posse quanto um conforto disfarçado. Isabella sentiu o sangue subir ao rosto, dividida entre a humilhação e um estranho calor que o toque dele provocava.

“Isabella, querida,” Dona Sofia finalmente se pronunciou, sua voz suave, mas com uma firmeza que não admitia contestação. “Por favor, nos apresente seu futuro marido com mais detalhes.”

O coração de Isabella deu um salto. Detalhes? Ela nunca fora informada de detalhes. Tudo o que sabia era que seu destino estava selado. Ela olhou para Dante em busca de alguma orientação, alguma pista sobre como navegar naquela encruzilhada de expectativas. Ele a olhou de volta, seus olhos escuros transmitindo uma mensagem silenciosa: “Faça como foi ensaiada. Confie em mim.”

Respirando fundo, Isabella tentou recompor-se. “Mãe, pai,” ela começou, sua voz mais firme do que esperava. “Vocês já conhecem o Signor Dante Rossi. Ele é o herdeiro da Famiglia Rossi. Um homem de negócios astuto, com uma visão impressionante para o futuro de nossas famílias unidas.” Ela tentou injetar um tom de admiração em suas palavras, uma performance que a fazia sentir-se uma atriz em um palco de mentiras.

Don Antonio assentiu, satisfeito. “Exatamente. E logo, ele será mais do que um convidado em nossos eventos. Ele será parte de nossa família. Como nossa família será parte da dele.” Ele lançou um olhar para Dante. “O contrato está pronto. Amanhã, em meu escritório, assinaremos. E em seis meses, celebraremos o casamento.”

Seis meses. A palavra ecoou na mente de Isabella como uma sentença. Seis meses para se acostumar com a ideia de seu futuro, seis meses para se aprisionar em um destino que ela não escolheu. Ela sentiu um nó na garganta, mas manteve o olhar fixo em seu pai, recusando-se a mostrar qualquer sinal de fraqueza.

Dante, percebendo a tensão no corpo de Isabella, interveio com a sutileza de um predador. “Don Antonio tem razão. O acordo entre nossas famílias é de suma importância. E o casamento de Isabella e eu solidificará essa aliança de uma forma que nenhum documento jamais poderá fazer.” Ele olhou para Isabella, um brilho nos olhos que a fez sentir-se sob escrutínio. “Estou ansioso para construir um futuro com você, Isabella. Um futuro de força, poder e… lealdade.”

Lealdade. A palavra soou oca em seus ouvidos. Lealdade a quem? A família? Ao dever? Ou a Dante Rossi, o homem que representava tudo o que ela temia?

A noite seguiu com formalidades e brindes. Isabella se sentiu como uma boneca em exposição, sendo admirada, analisada, mas raramente vista. Dante permaneceu ao seu lado a maior parte do tempo, sua presença uma armadura e uma gaiola ao mesmo tempo. Ele a protegia dos olhares indiscretos e das perguntas incômodas, mas também a mantinha sob seu domínio, um lembrete constante de seu destino iminente.

Mais tarde, enquanto os convidados começavam a se dispersar, Don Antonio chamou Dante e Isabella a um canto mais reservado do salão. A atmosfera mudou, o tom festivo deu lugar a uma seriedade fria.

“Dante,” Don Antonio começou, sua voz agora desprovida de qualquer cordialidade. “Este casamento é mais do que uma união. É uma necessidade. Os tempos estão mudando, e a união de nossas famílias nos dará a força necessária para enfrentar os desafios que virão. A concorrência está se tornando mais ousada, e precisamos mostrar ao mundo que a máfia italiana em São Paulo ainda é a força dominante.”

Dante assentiu, sua expressão séria. “Eu entendo, Don Antonio. E farei tudo o que estiver ao meu alcance para garantir que nossa aliança seja inabalável.” Ele lançou um olhar para Isabella. “E a segurança de Isabella será minha prioridade.”

A declaração, dita em um tom tão profissional, fez Isabella sentir um calafrio. Era como se ela fosse uma mercadoria valiosa, um ativo a ser protegido, e não uma pessoa com sentimentos e desejos próprios.

“Isabella,” Don Antonio continuou, voltando sua atenção para a filha. “Você sabe qual é o seu dever. Você é uma Moretti. E como tal, honrará sua família. Dante é um bom homem. E você fará o seu melhor para ser uma boa esposa.”

A frieza em sua voz era um golpe direto. Era a confirmação de que seus sentimentos, seus desejos, não tinham lugar nesse mundo.

Na manhã seguinte, Isabella foi acordada pelo som da chuva batendo contra as janelas de seu quarto. O céu cinzento refletia seu estado de espírito. Ela sabia que hoje seria um dia crucial, o dia em que o contrato seria assinado, o dia em que seu futuro seria selado em papel e tinta.

Ela se vestiu com um vestido preto elegante, um símbolo de luto pelo futuro que ela estava perdendo. Ao descer para o escritório de seu pai, encontrou Don Antonio e Dante já sentados à mesa de mogno maciço. Um contrato, com várias páginas e um selo dourado, repousava entre eles.

“Bom dia, minha filha,” Don Antonio disse, sua voz mais leve, como se o peso da noite anterior tivesse sido substituído pela eficiência do negócio. “Dante e eu estamos finalizando os detalhes. Sua assinatura é a última peça que falta.”

Isabella se aproximou da mesa, seu coração batendo forte em seu peito. Dante a observou com seus olhos penetrantes, mas não disse nada. Era como se ele também estivesse resignado ao seu papel.

Ela pegou a caneta de ouro, seus dedos tremendo levemente. Olhou para o contrato, para as palavras frias e impessoais que descreviam sua vida futura. E então, com um suspiro resignado, ela assinou seu nome. Isabella Moretti. Ou em breve, Isabella Rossi.

Dante pegou a caneta em seguida, e com um movimento firme e decidido, assinou seu próprio nome. O som da caneta arranhando o papel parecia o som de um grilhão se fechando.

“Bem-vinda à família, Isabella,” Dante disse, sua voz com um tom que ela ainda não conseguia decifrar completamente. Havia uma seriedade ali, uma promessa de algo mais profundo do que apenas negócios.

Isabella apenas assentiu, incapaz de encontrar palavras. O contrato de sangue e seda estava selado. E enquanto olhava para Dante Rossi, o homem que agora seria seu marido, ela sentiu uma mistura avassaladora de medo, resignação e, para sua própria surpresa, uma pequena, quase imperceptível, faísca de algo mais. Algo que ela não ousava nomear, mas que se acendeu nas sombras de seu futuro incerto.

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