Noite de Vinho e Veneno
Capítulo 7 — O Labirinto de Segredos
por Mateus Cardoso
Capítulo 7 — O Labirinto de Segredos
A manhã seguinte chegou com a brutalidade de um punhal. Elias acordou sentindo a ausência de Sofia ao seu lado, um vazio que estranhamente o incomodava. A lembrança da noite anterior, os flashes de seus olhos escuros, o toque gelado de sua pele, a audácia de suas palavras, tudo ecoava em sua mente. Ele se levantou, o corpo pesado e a mente agitada. A cobertura parecia deserta, desprovida da energia magnética que Sofia emanara.
Ele caminhou até a varanda, onde a brisa fresca da manhã acariciava seu rosto. A cidade, agora desperta, pulsava com a vida que ele dominava. Mas hoje, a conquista parecia menos saborosa. Sofia havia deixado um rastro, um rastro de incerteza e desejo que o perturbava profundamente. Ele sabia que ela era perigosa, uma ameaça em potencial, mas uma parte dele, a parte que ele raramente permitia emergir, estava fascinada.
Seu celular tocou, quebrando o silêncio. Era Marco, seu braço direito, a voz grave e apressada do outro lado da linha.
“Chefe, temos um problema. O carregamento que deveria chegar ontem… sumiu.”
Elias franziu a testa. “Sumir? Como assim, sumir? Ninguém mexe com o meu carregamento sem pagar o preço.”
“Não foi roubo, chefe. Foi… vaporizado. Ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. É como se tivesse evaporado no ar. E o pior, a informação sobre a rota vazou. Alguém nos traiu.”
Um frio percorreu a espinha de Elias. Traição. Essa era uma palavra que ele conhecia bem, e combatia com a mesma ferocidade que usava para proteger seus negócios. Mas quem poderia ser? Seus homens eram leais, testados e provados.
“Verifique todos os canais, Marco. Cada pessoa com acesso à informação. Quero nomes. Agora.”
Ele desligou, a raiva borbulhando em seu interior. Sofia. A ideia o atingiu como um raio. Ela estava ali na noite anterior, seduzindo-o, distraindo-o, talvez plantando uma semente de dúvida ou coletando informações. Ele a subestimara, fascinado por sua beleza e audácia. A viúva negra, como ele mesmo a chamara, poderia muito bem estar tecendo sua teia ao redor dele.
Ele decidiu que precisava confrontá-la. Não para acusá-la diretamente, mas para sondar, para sentir a verdade por trás de seus olhos enigmáticos. Ele pegou seu carro, um clássico italiano impecável, e partiu em direção ao endereço que ela lhe dera, um apartamento luxuoso em Copacabana, com vista para o mar.
Ao chegar, foi recebido por um porteiro discreto e um elevador privativo que o levou diretamente ao ático. A porta se abriu antes mesmo que ele a tocasse, revelando Sofia. Ela usava um roupão de seda branca, os cabelos ainda úmidos e levemente despenteados, o rosto sem maquiagem, revelando uma beleza mais crua, mais vulnerável. Mas o brilho em seus olhos era tão intenso quanto na noite anterior.
“Elias”, ela disse, um leve sorriso brincando em seus lábios. “Veio buscar algo que esqueceu?”
Ele entrou, observando o apartamento. Era elegante, minimalista, com obras de arte modernas e uma vista deslumbrante. Tudo parecia impecável, quase artificial.
“Na verdade, Sofia, vim buscar a verdade”, ele respondeu, sua voz calma, mas carregada de uma ameaça implícita. Ele a encarou, seus olhos penetrantes buscando alguma falha em sua compostura. “O meu carregamento sumiu ontem à noite. E a informação vazou.”
Sofia não demonstrou surpresa. Em vez disso, ela o convidou a entrar.
“Sente-se, Elias. Quer um café? Ou talvez algo mais forte?”
Ele a seguiu até a sala de estar, onde uma mesa de centro exibia uma garrafa de grappa italiana e duas taças. Ela serviu um copo para ele e outro para si.
“Seus problemas são seus problemas, Elias”, ela disse, sua voz firme. “Eu não tenho nada a ver com isso.”
“Você estava lá na noite anterior”, ele insistiu. “Você se aproximou. Você… me distraiu.”
Ela riu, um som que, desta vez, soou mais cínico do que sedutor. “Você acha que eu, a viúva de Dante Bellucci, preciso de uma noite de sedução para obter informações? Elias, você se subestima e me subestima. Eu tenho meus próprios métodos. E minhas próprias fontes.”
“E quais seriam essas fontes, Sofia?”, ele perguntou, cruzando os braços. “As mesmas que me traíram?”
Ela o encarou, seus olhos escuros faiscando. “Você ainda está no jogo, Elias? Ou já se aposentou depois de eliminar meu marido?”
A provocação era clara. E eficaz. Elias sentiu a raiva subir, mas ele a controlou. Ele sabia que ela estava jogando um jogo, um jogo de xadrez onde cada movimento era calculado.
“Eu não me aposento, Sofia. Eu domino. E você está no meu tabuleiro agora.”
“Talvez eu seja o tabuleiro”, ela retrucou, dando um gole em sua grappa. “Ou talvez eu seja quem move as peças. Você acha que eliminando Dante, você se livrou de tudo? Ele era apenas um peão. Os mestres estão nas sombras, Elias. E eu estou aprendendo com eles.”
Elias a observou, a intensidade de sua declaração o desarmando momentaneamente. Havia uma verdade sombria em suas palavras, uma verdade que ele conhecia muito bem. O mundo da máfia não era sobre um homem, mas sobre um sistema, uma rede de poder e influência.
“E quem são esses mestres, Sofia?”, ele perguntou, sua voz mais baixa agora. “Você está trabalhando para alguém? Ou você é a mente por trás disso tudo?”
Ela se aproximou dele, o cheiro de café e grappa pairando no ar. Ela tocou seu queixo, levantando seu rosto para que seus olhos se encontrassem.
“Você quer saber quem eu sou, Elias? Eu sou a mulher que perdeu tudo. E a mulher que não tem nada a perder. Isso me torna a mais perigosa de todas.” Ela deu um passo para trás, seus olhos fixos nos dele. “Meu marido era um fantoche. Eu era a marionete. Agora, eu cortei os fios.”
Elias sentiu um arrepio. Ela não estava mentindo. A convicção em sua voz era palpável. Ela havia sido subestimada, usada, e agora ela estava buscando vingança, ou talvez apenas um novo tipo de poder.
“E o meu carregamento…?”, ele começou.
“Não foi minha obra”, ela o interrompeu. “Mas quem quer que tenha sido, foi inteligente. E eles estão jogando um jogo maior do que você imagina. Um jogo onde você, Elias Santoro, pode ser apenas um peão a ser sacrificado.”
Ela se afastou, andando em direção à varanda. “Fique atento, Elias. O labirinto de segredos é profundo. E você pode se perder nele se não tomar cuidado.”
Elias a observou ir, a mente girando com as novas informações. Sofia não era apenas uma viúva em busca de vingança. Ela era uma jogadora, uma peça chave em um jogo de poder que ele não compreendia totalmente. E ele sabia, com uma certeza aterradora, que a noite de vinho e veneno havia se transformado em um labirinto de segredos, onde cada passo em falso poderia ser fatal. Ele havia subestimado a viúva negra. E agora, ele teria que lidar com as consequências.