Corações em Guerra Civil
Com prazer, mergulho nas profundezas do submundo e dos corações em chamas para criar esta saga de paixão e perigo.
por Rodrigo Azevedo
Com prazer, mergulho nas profundezas do submundo e dos corações em chamas para criar esta saga de paixão e perigo.
Corações em Guerra Civil Por Rodrigo Azevedo
Capítulo 1 — O Sussurro da Rosa Negra
O ar da noite em São Paulo era denso, carregado com a promessa de chuva e um perfume adocicado que desafiava a poluição e o asfalto. No topo daquele arranha-céu que parecia arranhar o céu da Avenida Paulista, a penthouse de Victor “O Sombra” Moretti era um santuário de poder e silêncio. As luzes da cidade cintilavam lá embaixo como um mar de estrelas artificiais, e o barulho da metrópole parecia um murmúrio distante, inofensivo. Mas para Victor, cada brilho era um vigia, cada murmúrio, uma ameaça potencial.
Ele se movia com a graça letal de um predador, o terno impecável de corte italiano parecendo uma segunda pele. Seus olhos, de um azul tão profundo que se confundiam com a escuridão da noite, varriam o horizonte com uma intensidade que congelaria a alma de qualquer um que ousasse encará-lo por muito tempo. Victor Moretti não era apenas um homem de negócios; ele era a personificação do império que construíra com mão de ferro e astúcia inabalável: a Famiglia Moretti, a força dominante no tráfico de luxo e na influência política da cidade.
O uísque em sua mão, um single malt raro que custava mais do que o salário anual de muitos, girava lentamente, refletindo as luzes distantes. A solidão era uma companheira fiel em sua vida, uma sombra que ele tolerava, mas nunca aceitava. Em seu mundo, conexões eram fraquezas, e a confiança era uma moeda que raramente era trocada.
“Chefe”, a voz grave de Marco, seu braço direito e confidente mais próximo, ecoou suavemente pela porta de mogno maciço. Marco era um homem de poucas palavras, leal até o osso, com um olhar que guardava mais segredos do que as catacumbas de Roma.
Victor assentiu, sem tirar os olhos da janela. “O que você tem para mim, Marco?”
Marco entrou, o tilintar discreto de uma pequena caixa de veludo em sua mão quase inaudível. “O pacote chegou. E… uma pequena surpresa. Uma carta.”
Victor se virou, um leve franzir de testa surgindo entre suas sobrancelhas. Pacotes eram rotineiros, mas uma carta? Naquele mundo, cartas eram relíquias de um passado menos perigoso, ou, pior, armadilhas. Ele estendeu a mão, os dedos longos e fortes fechando-se em torno da caixa. A sensação do veludo era fria contra sua pele.
“O que há dentro?”, perguntou Victor, sua voz um rosnado baixo.
“Como você pediu, chefe. O que resta da coleção que o Sr. Rossi acumulou. Diamantes brutos, pedras semi-preciosas. Tudo valioso.”
Victor abriu a caixa. Um brilho discreto emanou do interior, mas não era o brilho dos diamantes que capturou sua atenção. Era a flor prensada, de um vermelho tão profundo que parecia sangue, presa a um pequeno pedaço de papel dobrado. Uma rosa negra.
Um arrepio percorreu sua espinha, um sentimento que ele não sentia há anos. A rosa negra era o símbolo de uma antiga rivalidade, de uma vingança que ele pensava ter enterrado sob toneladas de concreto e dor. A Famiglia De Luca.
“De Luca?”, sua voz soou gélida, o uísque esquecido em sua mão.
Marco assentiu, o rosto uma máscara impassível. “Eles enviaram o pacote. E a carta. Disseram que é… um presente de boas-vindas.”
Victor pegou a carta. O papel era fino, elegante, com um aroma sutil de jasmim. Suas mãos, acostumadas a empunhar armas e a assinar contratos bilionários, tremeram levemente ao abri-la. A caligrafia era fluida, elegante, quase poética.
“Ao homem que ousa reinar onde a sombra se estende, Que os ecos de antigos conflitos o encontrem. Que esta rosa negra, símbolo de uma promessa antiga, Lembre-o do preço da ambição e da dor que ela instiga. Nos vemos em breve, Victor Moretti. Ou seria, meu caro… rival?”
A assinatura era um rabisco intrincado: Isabella D.
Isabella. O nome era uma faísca no escuro de sua memória. Isabella De Luca. A única filha do falecido Don Giovanni De Luca, um homem que ele pessoalmente fizera desaparecer do mapa há dez anos. Isabella, a garota que ele conhecera em um baile de gala, uma visão etérea em um vestido escarlate, com olhos que prometiam tempestades e um sorriso que desarmava até o mais cínico dos homens. Ele a vira poucas vezes, em eventos sociais que ambos eram forçados a frequentar, mas a imagem dela, sua ousadia silenciosa, sua inteligência afiada, haviam deixado uma marca indelével.
“Isabella De Luca…”, Victor murmurou, o nome ecoando na vastidão da penthouse. “Ela assumiu?”
“Ela é a cabeça agora, chefe. De Luca se reergueu. E parece que ela não está para brincadeiras.” Marco sabia do passado de Victor com Isabella, embora não de todos os detalhes. Sabia que a menção daquele nome causava uma perturbação incomum no homem que comandava a cidade com punho de aço.
Victor sentiu uma onda de adrenalina percorrer suas veias, uma mistura perigosa de raiva e… algo mais. Curiosidade. A De Luca sempre fora um adversário digno, mesmo sob o comando de seu pai. Agora, com Isabella no leme, a batalha prometia ser ainda mais feroz.
Ele fechou a caixa com um clique decisivo. “A rosa negra é um aviso, Marco. E ela está certa. Um aviso de que a guerra está apenas começando.” Ele ergueu o copo de uísque, os olhos fixos em um ponto invisível na parede. “Que venha a guerra, então. Mas que ela se lembre que eu não sou o homem que ela conheceu anos atrás. Eu sou Victor Moretti. E o meu império não será abalado por uma garota de papai.”
Ele tomou um gole longo, sentindo o calor do uísque descer por sua garganta, espelhando o fogo que começava a arder em seu peito. Isabella De Luca. A rosa negra. O jogo havia mudado. E ele estava pronto para jogar.
No labirinto de ruas de São Paulo, longe do brilho dourado da penthouse de Victor, Isabella De Luca observava a cidade pela janela de seu modesto apartamento no centro. As luzes eram diferentes dali, mais cruas, mais reais. Ela não era a mulher de bailes e gala que Victor pudera ter conhecido. A dor da perda de seu pai, a traição que ela descobrira, a necessidade de assumir o controle de um império à beira do colapso, tudo isso a moldara.
Ela não usava um vestido escarlate agora, mas um conjunto de alfaiataria cinza grafite, prático e elegante. Seus cabelos escuros estavam presos em um coque severo, revelando a força em suas feições. Seus olhos, de um verde penetrante, não prometiam tempestades, mas sim a calmaria antes de um furacão.
Um sorriso fino brincou em seus lábios enquanto ela segurava a resposta de Victor, uma pequena nota escrita em papel carbono, com a letra dele, firme e sem floreios.
“A rosa negra não me intimida, Isabella. Ela me lembra de quem eu sou. E você, minha cara, deveria se lembrar de quem eu sou também. O jogo já começou. Que a melhor família vença.”
Ela sentiu um arrepio, não de medo, mas de antecipação. Victor Moretti. Aquele homem de gelo e aço, com um coração que ela suspeitava ser tão complexo quanto o dele. Ela o conhecera brevemente, em um momento de trégua forçada, e sentira a faísca que ele ignorava. Agora, os destinos os colocavam em lados opostos de uma guerra que prometia consumir tudo.
“Ele respondeu como eu esperava”, disse ela, sua voz calma e firme, para ninguém em particular. “Orgulhoso. E perigoso.”
Seu braço direito, um homem chamado Luca, com cicatrizes que contavam histórias de batalhas, entrou na sala. Ele era a única pessoa em quem Isabella confiava cegamente.
“O pacote foi entregue, Isabella?”
“Sim. Victor Moretti recebeu o presente. E a carta.” Ela olhou para Luca, seus olhos verdes faiscando. “Ele não vai desistir. Ele nunca desiste.”
“Nós também não”, respondeu Luca, sua lealdade inabalável. “A Famiglia De Luca sempre foi resiliente.”
Isabella assentiu. “Resiliente é pouco, Luca. Nós somos indomáveis. Mas Victor é astuto. Ele joga com elegância, mas suas garras são afiadas. Precisamos ser mais astutos. Mais rápidos. E mais implacáveis.”
Ela se aproximou da janela, observando as luzes frias da cidade. A guerra que se anunciava não era apenas sobre território e poder. Era sobre legado, sobre vingança, e, talvez, sobre algo mais profundo, algo que ela se recusava a admitir, mesmo para si mesma.
“Victor Moretti”, ela sussurrou, o nome carregado de um misto de desafio e um pressentimento sombrio. “Você acha que pode me intimidar com sua frieza? Você não faz ideia do fogo que arde em mim.”
Ela sabia que a rosa negra era um símbolo para Victor, uma lembrança de um passado doloroso. Para ela, era um símbolo de renascimento, de força, de uma promessa de que a família De Luca ressurgiria das cinzas, mais forte do que nunca. E Victor Moretti seria o primeiro a sentir o calor dessa nova era.
O jogo de xadrez estava apenas começando. Cada jogada seria calculada, cada movimento, traiçoeiro. E no centro desse tabuleiro perigoso, dois corações, um acostumado à escuridão, o outro ardendo em chamas silenciosas, estavam prestes a travar uma batalha épica. A guerra civil em seus corações, espelhando a guerra que se anunciava nas ruas de São Paulo. E a rosa negra, outrora um símbolo de luto, agora desabrochava como um prenúncio de paixão e destruição.