Corações em Guerra Civil
Capítulo 13 — O Jogo das Sombras e a Aliança Improvável
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 13 — O Jogo das Sombras e a Aliança Improvável
A noite desceu sobre Nápoles como um manto escuro, mas no subsolo da cidade, a guerra fria entre os Moretti e os Rossi fervilhava. Isabella, sentada à mesa de seu pai na mansão Moretti, sentia o peso das decisões que precisava tomar. A fuga de Marco havia criado um vácuo, e os Rossi, famintos por retaliação, esperavam pacientemente sua chance de atacar. Don Vito, enfraquecido pela idade e pelas preocupações, delegava cada vez mais a responsabilidade para Isabella, vendo nela a força e a astúcia necessárias para manter o império Moretti de pé.
“Marco cometeu um erro grave,” Don Vito disse, a voz cansada, mas com um tom de autoridade inabalável. “E os Rossi não vão esquecer. Eles vão exigir um preço alto. Um preço que não podemos nos dar ao luxo de pagar com sangue, não agora.”
Isabella assentiu, os olhos fixos em seu pai. “Então, o que faremos? Entregar algo que eles querem?”
“Entregar? Nunca!” Don Vito bateu na mesa com o punho. “Vamos jogar o jogo deles. Mas vamos jogar com nossas próprias cartas. Precisamos de uma distração. Algo que os faça olhar para o lado oposto enquanto nós fortalecemos nossas defesas.” Ele a encarou, os olhos penetrantes. “E você, Isabella, será a peça central desse jogo. Você vai fazer uma aliança. Uma aliança improvável, mas necessária.”
“Com quem?” Isabella perguntou, a curiosidade misturada com uma ponta de apreensão.
“Com os De Luca,” ele respondeu, o nome soando como um desafio. Os De Luca, uma família rival, conhecida por sua crueldade e sua habilidade em negociar em tempos de conflito. Uma aliança com eles seria perigosa, um pacto com o diabo.
“Os De Luca? Pai, eles são tão perigosos quanto os Rossi. Talvez até mais.”
“Perigo é algo que conhecemos bem, Isabella. E os De Luca, apesar de tudo, têm um ódio mútuo pelos Rossi. Um ódio que podemos explorar.” Don Vito pegou um envelope de papel sobre a mesa. “Encontrei com Luigi De Luca esta noite. Em segredo. Ele está disposto a conversar. Mas a decisão final é sua.”
Isabella pegou o envelope. Sentia o peso da história e da tradição em suas mãos. A ideia de se aliar a uma família tão brutal a repugnava, mas ela sabia que a sobrevivência dos Moretti estava em jogo.
Naquela noite, em um armazém abandonado perto do porto, Isabella se encontrou com Luigi De Luca. Ele era um homem corpulento, com um olhar frio e calculista, e um sorriso que não chegava aos olhos. O ar estava impregnado com o cheiro de peixe e mofo, mas a tensão entre eles era palpável.
“Signorina Moretti,” Luigi cumprimentou, a voz grave e rouca. “É uma honra inesperada.”
“A necessidade nos une, Signor De Luca,” Isabella respondeu, mantendo a compostura, embora sentisse um arrepio de desconforto.
Eles se sentaram a uma mesa improvisada, a luz fraca de uma lâmpada pendurada iluminando seus rostos. Isabella expôs o plano de seu pai: uma aliança temporária para enfraquecer os Rossi, com a promessa de reciprocidade em futuras disputas.
Luigi ouviu atentamente, um sorriso fino brincando em seus lábios. “Os Rossi são uma praga, concordo. Mas você, uma mulher jovem, liderando uma família como a sua… isso é algo novo.”
“Eu sou uma Moretti,” Isabella respondeu, a voz firme. “E estou preparada para fazer o que for preciso para proteger minha família.”
“E o que você propõe exatamente?”
“Nós faremos movimentos estratégicos que vão desestabilizar as operações dos Rossi. Criaremos desordem, faremos com que eles se sintam cercados. Em troca, quando a poeira baixar, vocês terão nossa ajuda em suas próprias disputas.”
Luigi riu, um som seco. “Uma aliança de conveniência. Eu gosto disso. Mas a máfia não é um jogo de amizade, Signorina. Há sempre um preço a pagar.”
“E qual é o seu preço, Luigi?”
Ele se inclinou para a frente, os olhos fixos nos dela. “Vocês nos darão acesso às rotas de contrabando que os Rossi controlam. E, em troca, nós os ajudaremos a neutralizar qualquer ameaça imediata que venha deles.”
A proposta era ousada. Permitir que os De Luca usassem suas rotas era um risco enorme, mas a ameaça dos Rossi era ainda maior. Isabella sentiu o peso da decisão cair sobre ela. Ela pensou em Lorenzo, em seu amor, e em como essa aliança poderia colocá-lo em perigo. Mas ela também pensou em seu pai, em sua família, em tudo o que havia sido construído.
“Aceito,” ela disse, a voz firme, embora seu coração batesse acelerado. “Mas com uma condição. Nenhum inocente será ferido. E nada disso afetará Lorenzo Rossi. Ele não faz parte dessa guerra.”
Luigi a observou por um longo momento, um brilho de admiração mesclado a um cálculo frio em seus olhos. “Você é uma mulher de palavra, Signorina Moretti. Eu respeito isso. E quanto ao rapaz… bem, os negócios são negócios. Não vou interferir em seus assuntos pessoais, desde que não interfiram nos nossos.”
O aperto de mãos selou o pacto. Isabella sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela havia entrado em um jogo de sombras ainda mais perigoso, uma dança com demônios que poderiam devorá-la a qualquer momento. Mas, ao sair do armazém, sob o olhar vigilante da lua, ela sentiu uma estranha confiança. Ela estava protegendo sua família, e, de alguma forma, sentia que Lorenzo estaria ao seu lado, mesmo que à distância. A aliança era improvável, arriscada, mas era a única saída. E ela estava determinada a sobreviver.