Corações em Guerra Civil
Capítulo 14 — A Dança do Perigo e o Grito Silencioso
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 14 — A Dança do Perigo e o Grito Silencioso
Os dias que se seguiram à aliança com os De Luca foram um turbilhão de movimentações secretas e tensões crescentes. Isabella, agora com a responsabilidade de liderar as operações Moretti, sentia a pressão aumentar a cada hora. A cidade de Nápoles, com suas ruelas estreitas e sua atmosfera vibrante, parecia ter se tornado um palco para um jogo de xadrez mortal, onde cada movimento era calculado, e cada erro, catastrófico.
Ela se encontrava frequentemente com Lorenzo, sempre em locais discretos, os encontros carregados de uma urgência e de uma paixão que só o perigo parecia intensificar. Seus beijos eram desesperados, suas carícias, um ato de rebelião contra o destino.
“Eu não confio nessa aliança, Isabella,” Lorenzo disse em um de seus encontros furtivos, no beco escuro atrás da antiga igreja. A voz dele era baixa, carregada de preocupação. “Os De Luca são lobos em pele de cordeiro. Eles não têm honra.”
“Eu sei,” Isabella respondeu, apertando a mão dele com força. “Mas meu pai acredita que é a única maneira de nos protegermos dos Rossi. E eu preciso proteger minha família.”
“E sua família está colocando você em perigo!” Lorenzo exclamou, a voz subindo de tom. “Essa guerra… ela não vai acabar. E se você entrar nessa, Isabella, você vai se perder.”
“Eu não vou me perder,” ela disse, olhando-o nos olhos, a determinação brilhando em seu olhar. “Eu sou uma Moretti. E eu vou lutar. Por mim. Por minha família. E por nós.”
Lorenzo a puxou para um abraço apertado, o corpo dele tremendo levemente. “Eu te amo, Isabella. E isso me assusta mais do que qualquer coisa. Porque eu não posso te proteger de tudo isso.”
“Você me protege apenas estando aqui,” ela sussurrou, enterrando o rosto em seu peito. “Você é minha força.”
Mas a paz deles era frágil, como um castelo de cartas prestes a desmoronar. Os De Luca começaram a agir, e os ataques aos negócios dos Rossi se tornaram mais frequentes e brutais. Pequenas gangues de rua, com o emblema dos De Luca, começaram a aparecer em zonas controladas pelos Rossi, criando confusão e incerteza. Isabella sentia o medo crescer, não apenas pela guerra iminente, mas pelo que ela própria estava se tornando.
Uma noite, enquanto Isabella supervisionava uma operação discreta de desvio de mercadorias que pertenciam aos Rossi, algo deu errado. Uma emboscada. A armadilha se fechou sobre eles. Tiros ecoaram pela noite, e o cheiro de pólvora misturou-se ao cheiro salgado do mar. Isabella lutou com a ferocidade de uma leoa, mas a superioridade numérica dos atacantes era esmagadora.
Ela viu seus homens caírem, um por um. Sentiu o pânico tomar conta, mas a imagem de Lorenzo, de seu sorriso, de seu amor, a manteve firme. No meio do caos, ela avistou um rosto familiar entre os atacantes. Não era um Rossi. Era um De Luca. A traição.
“Eles nos traíram!” um dos seus homens gritou, antes de ser silenciado por um tiro.
Isabella sentiu uma onda de raiva e desespero. A aliança com os De Luca era uma mentira. Luigi os usara como peões em seu próprio jogo, e agora, eles estavam presos em um fogo cruzado.
No meio da batalha, ela sentiu um impacto forte no braço. Uma bala a atingiu. A dor a fez vacilar, mas ela se recusou a cair. Em meio à confusão, viu Lorenzo emergir das sombras, lutando com uma fúria selvagem. Ele estava ali para protegê-la, mesmo sabendo do risco que corria.
“Lorenzo!” ela gritou, a voz embargada pela dor e pelo alívio.
Ele lutou para chegar até ela, abrindo caminho entre os corpos. Ao alcançá-la, ele a puxou para si, o olhar cheio de pânico e amor.
“Você está bem?” ele perguntou, a voz rouca.
“Apenas um arranhão,” ela mentiu, tentando parecer mais forte do que se sentia. “Os De Luca… eles nos traíram.”
Lorenzo cerrou os punhos, a mandíbula tensa. “Eu sabia. Eu sabia que não podia confiar neles.”
Eles precisavam fugir. A luta estava sendo travada por pessoas que não pertenciam nem aos Moretti nem aos Rossi, mas aos De Luca. Era um jogo doentio.
Com Lorenzo a ajudando, Isabella conseguiu se afastar do confronto, enquanto os poucos homens Moretti que restavam lutavam para criar uma distração. A fuga foi desesperada, cada passo doloroso, cada som uma ameaça. Eles se esconderam em um dos esconderijos que Lorenzo havia preparado, um local seguro, longe dos olhos da máfia.
Lá, em segurança precária, Isabella se deixou desabar nos braços de Lorenzo. As lágrimas que ela segurou por tanto tempo finalmente vieram, um grito silencioso de dor, de raiva, de desespero. Ela havia confiado, havia acreditado em uma solução pacífica, e fora traída.
“Eu não sei o que fazer, Lorenzo,” ela soluçou, a voz quebrada. “Eles nos atacaram. Os De Luca. Eles nos usaram.”
Lorenzo a abraçou com força, acariciando seus cabelos. “Eu sei, meu amor. Eu sei. Mas nós vamos superar isso. Juntos.” Ele a afastou suavemente, o olhar fixo no dela. “Você precisa ser forte, Isabella. Mais forte do que nunca. Eles querem te ver cair. Não dê essa satisfação a eles.”
Ele a ajudou a limpar a ferida, a dor aguda cada vez que o álcool tocava a pele. Isabella sentiu a fraqueza tomando conta dela, mas também uma nova determinação se formando. A traição dos De Luca havia acendido um fogo dentro dela, um fogo de vingança, mas também um desejo ardente de provar que ela era mais forte do que todos eles. O grito silencioso de dor em seu peito se transformou em um rugido contido, a promessa de que a guerra estava longe de terminar, e que ela estaria na linha de frente, lutando não apenas por sua família, mas por seu próprio direito de amar e de viver. A dança do perigo havia começado, e ela estava determinada a não dançar para a morte.