Corações em Guerra Civil
Capítulo 17 — O Abraço Gelado do Poder e a Sedução da Vingança
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 17 — O Abraço Gelado do Poder e a Sedução da Vingança
O nascer do sol em São Paulo não trazia alívio, apenas uma clareza fria e implacável. A cidade, com seus arranha-céus que arranhavam o céu e suas ruas que pulsavam com vida, era um palco imenso para as batalhas silenciosas que se travavam. Bianca sentia a energia da cidade ao seu redor, uma energia que parecia zombar de sua própria fragilidade. A conversa com Elena na noite anterior havia deixado um rastro de incertezas e um receio que se instalara profundamente em sua alma. A matriarca Rossi, com sua frieza calculada e a maneira como havia recebido a notícia do pen drive, a fez questionar tudo.
"Ninguém é completamente bom ou mau", Elena havia dito. Aquelas palavras, repetidas na mente de Bianca, ressoavam como um eco sombrio. Ela havia visto a fragilidade em Elena, um lampejo de dor que a matriarca tentara esconder. Mas era suficiente para justificar as ações que Lorenzo alegava que os Ferraz cometiam? A lavagem de dinheiro, o desvio de fundos… Era um lado da moeda que ela ainda não conseguia aceitar.
Ela se olhou no espelho do seu quarto na mansão Rossi. O reflexo que a encarava era o de uma mulher assombrada. Os olhos, antes cheios de uma esperança ingênua, agora eram poços de desconfiança. A paixão por Lorenzo, que ela tentava reprimir, era um fogo latente, alimentado pelo perigo e pela adrenalina de estar tão perto da verdade. Ou da mentira que Lorenzo queria que ela acreditasse.
O toque em sua porta a sobressaltou. Era Rafael. Seu olhar, sempre tão intenso e protetor, agora carregava um peso diferente. Uma preocupação genuína que ela não sabia como receber.
"Você está bem, Bianca?", ele perguntou, a voz baixa, mas firme. "Você sumiu ontem à noite. Elena estava preocupada."
"Eu… eu só precisava de um tempo para pensar", ela respondeu, tentando manter a calma. Pensar. Era tudo o que ela conseguia fazer. Pensar nas palavras de Lorenzo, nas palavras de Elena, na morte de Davi.
Rafael entrou no quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Ele parecia hesitar, como se estivesse procurando as palavras certas.
"Bianca, eu sei que a morte de Davi foi um golpe duro. Para todos nós. Mas você precisa se cuidar. Não se deixe consumir pela tristeza. Ou pela raiva."
"E como eu não me deixaria consumir, Rafael? O homem que eu amei foi brutalmente assassinado. E agora, me dizem que a família que me acolheu está envolvida em esquemas ilegais. Que mais eu posso sentir além de raiva?" A voz de Bianca saiu mais alta do que ela esperava, um misto de dor e acusação.
Rafael suspirou, aproximando-se dela. Ele estendeu a mão para tocar seu rosto, mas parou a centímetros de distância, como se temesse queimar.
"Os Rossi não são quem você pensa que são, Bianca. Não somos santos. Mas lutamos por um ideal. Lutamos para manter nosso império intacto, para proteger nossa família. As ações que tomamos… às vezes são necessárias." Ele escolheu a palavra com cuidado. "Necessárias."
"Necessárias para quê? Para quebrar a lei? Para corromper pessoas? Lorenzo me disse que vocês desviam dinheiro. Que a fundação é uma fachada." As palavras saíram como um ataque direto, alimentado pela raiva que Lorenzo havia plantado nela.
Rafael a encarou, seus olhos escuros cintilando com uma mistura de surpresa e decepção.
"Lorenzo. Ele está te manipulando, Bianca. Ele quer te jogar contra nós. Ele sempre quis nos destruir." A voz de Rafael ficou mais dura, a mágoa evidente. "Ele usou o Davi. Ele usou essa história toda para te alcançar."
"Ele me deu um pen drive, Rafael. Com provas." A menção do pen drive pareceu atingi-lo como um golpe físico.
"Prova do quê? De mentiras? De distorções?" Rafael balançou a cabeça. "Lorenzo é mestre em criar ilusões. Ele te vê como uma ferramenta, Bianca. Uma arma para usar contra nós."
Bianca sentiu um nó na garganta. A sedução da vingança que Lorenzo lhe oferecia era poderosa. Ele a fazia sentir como se estivesse lutando pelo lado certo, contra a corrupção. Mas Rafael, com sua sinceridade aparente, estava tentando jogá-la contra Lorenzo, acusando-o de manipulação. Quem falava a verdade?
"E você? Você está me dizendo que tudo isso é mentira? Que Davi não foi morto por causa disso? Que os Ferraz são todos anjos?" A ironia em sua voz era palpável.
Rafael suspirou, olhando para o chão. "Não estamos todos limpos, Bianca. Ninguém nesse mundo está. Mas lutamos por algo maior. Lutamos para manter o equilíbrio. Para que pessoas como o Lorenzo não dominem tudo." Ele levantou o olhar, e a intensidade era quase insuportável. "Você é uma mulher forte, Bianca. Não deixe que eles te usem. Não deixe que a vingança te consuma."
"E se a vingança for a única coisa que me resta, Rafael?", ela sussurrou, sentindo a fraqueza retornar.
Ele deu um passo à frente, e desta vez, sua mão pousou em seu rosto, um toque quente e reconfortante.
"Não. O amor ainda existe, Bianca. A lealdade. A justiça. A vingança cega. A vingança te destrói por dentro. Ela te transforma em algo que você não é." Os olhos dele fixaram-se nos dela, buscando uma conexão, uma compreensão. "Lorenzo te oferece o poder da vingança. Ele te seduz com a ideia de justiça rápida. Mas eu te ofereço a verdade. A verdade dolorosa, talvez, mas a verdade. E a esperança de que podemos construir algo melhor, mesmo nesse mundo sombrio."
A tentação de acreditar em Rafael era grande. Ele representava a estabilidade, a família que a acolhera. Mas o toque de Lorenzo em seus lábios, a lembrança de seus olhos escuros e sedutores, a promessa de desmascarar os hipócritas… era um veneno que a atraía.
"Eu não sei em quem acreditar, Rafael. Lorenzo me mostrou coisas. Falou coisas que… que me fizeram duvidar de tudo." A voz dela estava embargada.
Rafael a abraçou, um abraço forte e protetor, que a fez sentir um misto de segurança e confusão.
"Confie em mim, Bianca. Confie em nós. Vamos desvendar essa verdade juntos. Mas sem a cegueira da vingança. Vamos fazer justiça, mas com a cabeça no lugar." Ele a afastou suavemente, seus olhos ainda fixos nos dela. "Lorenzo quer que você odeie. Eu quero que você pense. Que você veja além do que ele quer que você veja."
Enquanto Rafael se afastava, deixando-a sozinha em meio às suas dúvidas, Bianca sentiu a força do poder e da vingança puxando-a para caminhos opostos. O abraço gelado do poder de Lorenzo, a sedução da vingança que ele prometia, contrastavam com a sinceridade torturada de Rafael e a promessa de uma verdade mais complexa. Ela estava sendo puxada em direções opostas, cada uma delas representando um abismo diferente. O jogo estava se tornando cada vez mais perigoso, e ela, a peça central, lutava para não ser esmagada.