Corações em Guerra Civil
Capítulo 18 — O Labirinto de Mentiras e o Gelo nos Olhos de Lorenzo
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 18 — O Labirinto de Mentiras e o Gelo nos Olhos de Lorenzo
A atmosfera na mansão Rossi na manhã seguinte era carregada de uma tensão não dita. Bianca sentia os olhares sobre ela, não de forma direta, mas como correntes invisíveis que a envolviam. Elena se movia com sua graça habitual, mas havia uma rigidez em seus ombros que não passava despercebida. Rafael, por outro lado, parecia evitar seu olhar, imerso em conversas discretas com os homens da segurança.
Bianca se sentia como uma intrusa em sua própria casa temporária. A informação que Lorenzo lhe dera, a que Elena parecia ter absorvido com uma calma perturbadora, e a súplica de Rafael por confiança, tudo se misturava em um turbilhão em sua mente. Ela era a peça central em um jogo de xadrez perigoso, onde cada movimento era calculado e a verdade era uma miragem.
Naquela tarde, um convite inesperado chegou. Um bilhete discreto, escrito à mão em papel grosso e perfumado, dizia que Lorenzo a esperava para conversar. Um encontro secreto, no lugar que ele chamou de "nosso refúgio". O coração de Bianca disparou. Era um convite para cair na armadilha? Ou para encontrar uma verdade que mais ninguém lhe oferecia? A necessidade de entender, de confrontar Lorenzo diretamente, era mais forte do que o medo.
Ela saiu da mansão sem que ninguém percebesse, usando um disfarce simples, um lenço cobrindo seus cabelos e óculos escuros. O "refúgio" de Lorenzo era um pequeno café escondido em uma rua lateral do centro antigo, um lugar com mesas de ferro forjado e um aroma inebriante de café forte e pão fresco. Ele já a esperava em uma mesa nos fundos, envolto em uma aura de mistério e perigo que a atraía irresistivelmente.
Quando ela se aproximou, Lorenzo se levantou, um sorriso sutil brincando em seus lábios. Seus olhos escuros a percorreram com uma intensidade que a fez se sentir exposta.
"Você veio", ele disse, a voz rouca e sedutora. "Eu sabia que viria. Você é corajosa, Bianca. Ou talvez, apenas curiosa o suficiente para não poder resistir à verdade."
"Eu vim para saber por que você fez tudo isso, Lorenzo", ela respondeu, a voz firme, tentando mascarar a ansiedade. "Por que me deu o pen drive? Por que me contou sobre a fundação? Por que quer que eu acredite em você?"
Lorenzo pegou a mão dela sobre a mesa, seus dedos frios roçando a pele quente de Bianca. Uma corrente elétrica percorreu seu corpo.
"Eu te dei o pen drive porque a verdade precisa vir à tona, Bianca. E você é a única que pode fazê-lo. Os Ferraz são mestres na arte da manipulação. Eles construíram um império sobre a mentira, e a fundação é apenas um dos seus muitos disfarces."
"Elena disse que você quer me usar. Que você quer que eu me volte contra eles."
Lorenzo soltou uma risada baixa, um som que era ao mesmo tempo divertido e perigoso. "Elena. Uma mulher astuta. Ela sabe que a verdade te desestabiliza. Ela prefere manter o controle, manter você em seu rebanho. Mas você não pertence a eles, Bianca. Você nunca pertenceu."
Ele se inclinou para frente, seus olhos fixos nos dela. "Eu te contei porque eu… eu me importo com você, Bianca. E eu não podia te deixar vivendo em uma mentira. Eu te amo. E o amor verdadeiro exige que a gente lute pela justiça, mesmo que isso signifique derrubar o mundo inteiro."
A declaração de amor pairou no ar, carregada de uma intensidade que tirou o fôlego de Bianca. Era a mesma paixão que ela sentia por ele, a mesma que a consumia e a assustava. Mas as palavras de Rafael ecoavam em sua mente: "Lorenzo te oferece o poder da vingança. Ele te seduz com a ideia de justiça rápida."
"Você fala de amor, mas me jogou em um ninho de cobras. Você sabia que isso me colocaria em perigo. Você sabia que isso me faria duvidar de todos."
"Eu sabia que seria difícil. Eu sabia que seria doloroso. Mas às vezes, Bianca, para encontrar a luz, precisamos atravessar a escuridão. E você, meu amor, está destinada a ser a luz que desmascara essa escuridão." Ele apertou a mão dela. "O pen drive não é a única prova. Eu tenho mais. Eu posso te mostrar tudo. O que realmente aconteceu com Davi. Quem está por trás de tudo."
"Por que eu deveria acreditar em você, Lorenzo? Você é o líder de uma máfia. Você está no topo dessa pirâmide de mentiras tanto quanto eles." A acusação saiu com um misto de dor e raiva.
O sorriso de Lorenzo desapareceu. Seus olhos, que antes brilhavam com paixão, agora eram frios como gelo. O contraste era chocante. A sedução deu lugar à frieza calculista que ela começava a reconhecer como a verdadeira face dele.
"Eu não estou no topo de nada que não seja a verdade, Bianca. Eu luto contra o sistema que me oprime, que oprime as pessoas que eu amo. Os Ferraz são a podridão que precisa ser expurgada. E eu estou disposto a tudo para fazer isso." Ele a encarou com uma determinação implacável. "Você está comigo ou contra mim?"
Bianca sentiu o sangue gelar. A pergunta era direta, sem rodeios. Era um ultimato. Ela estava no centro de uma guerra civil, e a cada passo, as linhas de lealdade se tornavam mais turvas. Lorenzo, com sua paixão avassaladora e sua frieza calculista, a estava empurrando para um precipício.
"Eu… eu não sei", ela sussurrou, a voz trêmula. "Você me diz que me ama, mas me coloca em risco. Você me pede para confiar em você, mas suas ações me fazem duvidar de tudo."
"O amor é uma guerra em si mesma, Bianca. E às vezes, para vencer, precisamos fazer sacrifícios. Para proteger quem amamos, precisamos ser implacáveis." Os olhos dele a perfuraram. "Você quer justiça para Davi? Então lute ao meu lado. Mostre a eles a força de uma mulher que não se curva à mentira."
Ele soltou a mão dela, levantando-se. A aura de perigo que o cercava se intensificou.
"Pense nisso, Bianca. Pense no que você realmente quer. E quando estiver pronta para lutar pela verdade, me procure. Eu estarei esperando."
E com um último olhar penetrante, Lorenzo Rossi desapareceu entre as sombras do café, deixando Bianca sozinha com o peso de sua decisão e a certeza de que estava presa em um labirinto de mentiras, onde o gelo nos olhos de Lorenzo era tão real quanto a paixão que ele dizia sentir por ela.