Corações em Guerra Civil
Capítulo 20 — O Despertar da Fúria e o Preço da Lealdade
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 20 — O Despertar da Fúria e o Preço da Lealdade
A manhã seguinte trouxe consigo a clareza fria da decisão iminente. Bianca sentia o peso da noite anterior em seus ombros, cada palavra de Lorenzo ressoando em sua mente como um sino que anunciava uma guerra. A confissão dele, embora carregada de paixão e dor, ainda deixava uma margem de dúvida. Ele a amava? Ou a usava como a arma perfeita para seus próprios fins? A lealdade que ela sentia pelos Rossi, a gratidão que devia a Elena, contrastavam violentamente com a atração avassaladora que sentia por Lorenzo.
Ela se olhou no espelho, o reflexo de uma mulher à beira de um precipício. Os olhos, antes cheios de uma esperança tênue, agora carregavam a fúria contida de quem estava prestes a explodir. A morte de Davi não seria em vão. Ela prometera isso a si mesma, a ele. E agora, precisava decidir qual caminho seguir para honrar essa promessa.
Rafael a encontrou no jardim, regando as roseiras com uma dedicação que parecia um ritual de paz. Ele parecia mais leve, talvez por ter presenciado sua hesitação em se render completamente a Lorenzo.
"Bom dia, Bianca", ele disse, a voz suave. "Você parece mais calma hoje."
"Calma?", Bianca riu, uma risada amarga. "Não sei se a palavra certa seria calma, Rafael. Talvez seja mais para… resignada."
Rafael a encarou, a preocupação voltando aos seus olhos. "O que Lorenzo te disse?"
Bianca o olhou diretamente, sentindo a força que Lorenzo lhe dera, mesmo que de forma perigosa, começar a florescer dentro dela. "Ele me disse tudo. Sobre a fundação, sobre os Ferraz, sobre Davi. Ele admitiu que tudo o que ele alegou é verdade. E disse que me ama."
O rosto de Rafael endureceu. "Amor? Ele te usa, Bianca. Ele te joga contra nós como se fosse uma peça de xadrez. Não se deixe enganar pelas palavras dele."
"E você?", Bianca retrucou, a fúria começando a transbordar. "Você me pede para confiar em você, mas sua família também tem segredos. Elena também tem seus motivos. E se Lorenzo estiver dizendo a verdade sobre os Ferraz? E se eles forem realmente os monstros que ele descreve?"
Rafael suspirou, seus ombros curvando-se levemente. "Sim, nós temos nossos segredos, Bianca. Mas lutamos para proteger algo. Para manter a ordem nesse caos. Os Ferraz não se importam com nada além do poder e do dinheiro. Eles destroem tudo em seu caminho." Ele se aproximou dela, seus olhos suplicantes. "Eu não quero que você se perca na escuridão de Lorenzo. Ele é perigoso. E o amor dele é destrutivo."
"E a lealdade cega?", Bianca perguntou, a voz embargada. "O que ela faz? Me deixa viver em uma mentira enquanto os verdadeiros culpados se safam?" Ela se afastou dele, a determinação se solidificando em seu olhar. "Lorenzo me deu as provas, Rafael. Ele me deu a chance de lutar. E eu não vou desperdiçar essa chance."
Rafael a observou com uma mistura de tristeza e resignação. Ele sabia que tinha perdido. "Você está escolhendo o lado dele, então? Você vai se aliar a um homem que está em guerra contra nós?"
"Eu estou escolhendo a verdade, Rafael. A verdade que Davi buscava. E se para encontrá-la eu precisar ir contra vocês, então que seja." As palavras saíram firmes, sem hesitação. O despertar da fúria em seu peito era mais forte do que qualquer hesitação.
Enquanto falava, um carro preto parou bruscamente na entrada da mansão. Dois homens musculosos saíram, a postura ameaçadora. Eles se dirigiram diretamente a Bianca e Rafael.
"Senhorita Bianca, o Senhor Rossi a aguarda. Urgente", disse um deles, a voz fria e desprovida de emoção.
Rafael se colocou entre Bianca e os homens. "Ela não vai a lugar nenhum com vocês."
O outro homem riu, um som desagradável. "Não temos tempo para sua rebeldia, Ferraz. O Senhor Rossi é claro. Ela vem conosco. Agora."
Bianca sentiu o medo percorrer seu corpo, mas a fúria que a consumia a impulsionou. Ela deu um passo à frente, afastando Rafael. "Eu vou com eles."
Rafael a segurou pelo braço. "Bianca, não faça isso! É uma armadilha!"
"Eu sei. Mas é uma armadilha que eu preciso enfrentar. Eu preciso saber até onde isso vai." Ela olhou nos olhos dele, a sinceridade em seu olhar. "Eu confio em você, Rafael. Confio que você vai cuidar de Elena. E que, de alguma forma, vocês vão encontrar a verdade também. Mas eu preciso fazer isso do meu jeito."
Ela se soltou do aperto de Rafael e caminhou em direção ao carro, os homens a seguindo de perto. A lealdade que ela sentia por Davi, a paixão avassaladora que sentia por Lorenzo, a necessidade de justiça… tudo a impulsionava. O preço da lealdade era alto, e ela estava disposta a pagá-lo. Ao entrar no carro, ela olhou para trás, vendo Rafael parado no jardim, um espectro de tristeza e impotência. Ela sabia que estava escolhendo um caminho perigoso, um caminho que a levaria para o coração da guerra. Mas era o único caminho que ela podia trilhar. O despertar da fúria era o seu guia, e o preço da lealdade, ela estava prestes a descobrir.