Corações em Guerra Civil
Capítulo 3 — O Beijo da Serpente
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 3 — O Beijo da Serpente
O clima em São Paulo tornara-se opressivo. A chuva ameaçava cair a qualquer momento, mas não trazia o alívio esperado, apenas intensificava o cheiro de asfalto molhado e a sensação de sufocamento. Victor Moretti sentia essa pressão em cada fibra de seu ser. A ousadia de Isabella De Luca o incomodava mais do que ele gostaria de admitir. Ela não era apenas uma herdeira mimada; era uma jogadora astuta, com uma frieza que rivalizava com a dele.
Em sua sala de reuniões privativa, as luzes fracas projetavam sombras longas sobre os rostos dos seus homens mais leais. Marco, com seu olhar atento, aguardava as ordens.
“Ela está mordendo o isco, Marco”, disse Victor, sua voz grave ressoando no silêncio. “Tentando desestabilizar os Conti. Uma jogada previsível, mas eficaz. Eles são o elo mais fraco entre nós e os Moretti.”
“Os Conti estão nervosos, chefe. O Don Vincenzo já fez alguns contatos conosco, pedindo garantias.”
Victor deu um leve sorriso, sem humor. “Garantias… eles terão garantias quando eu disser que terão. Mas a preço. Precisamos aumentar a pressão. Não apenas nos Conti, mas em todos os que possam estar considerando uma aliança com os De Luca.” Ele se levantou, caminhando em direção à enorme janela que dava vista para a cidade. “Quero que a Famiglia Conti sinta a força de um veto. Nada entra, nada sai. Se eles quiserem se safar, terão que pagar um preço alto. E esse preço não será em dinheiro, Marco. Será em lealdade. Quero que Vincenzo se ajoelhe.”
Marco assentiu, anotando mentalmente. “E quanto a Isabella?”
Victor virou-se, seus olhos azuis fixos em Marco. “Ela gosta de jogar com o perigo, não é? Então vamos dar a ela o que ela quer. Uma dose de realidade. Prepare uma emboscada. Não para matá-la, ainda. Quero que ela veja que suas movimentações são monitoradas. Que cada passo dela é conhecido. Quero que ela sinta o medo. Quero que ela saiba que está sendo caçada.”
O plano era audacioso. Victor sabia que atacar diretamente Isabella seria um risco, mas criar um cenário onde ela se sentisse exposta, vulnerável, era uma tática psicológica que ele dominava. Ele queria que ela sentisse o peso de sua vigilância.
“Onde e quando, chefe?”
“Na rota que ela usa para ir para a sua propriedade no interior. Ela se considera invulnerável lá. Vamos mostrar a ela que a cidade é o meu domínio, e cada estrada pertence a mim.” Victor pegou um pequeno objeto da mesa, um isqueiro de prata com o brasão dos Moretti gravado. Ele o abriu e fechou lentamente, o clique ritmado em seus dedos. “E traga-me informações sobre os novos fornecedores dela. Quero saber quem está vendendo tecnologia de ponta para os De Luca. E quero saber quem está fornecendo diamantes africanos sem que ninguém saiba.”
Enquanto Victor orquestrava sua estratégia, Isabella De Luca estava em seu santuário particular, uma casa de campo isolada nas montanhas de Minas Gerais. O ar ali era puro, perfumado por pinheiros e terra molhada. Ela estava em seu escritório, um cômodo rústico, mas repleto de mapas, documentos e um mapa de São Paulo em tamanho real, com alfinetes coloridos marcando os territórios de cada família.
Luca entrou, o rosto sombrio. “Chefe, recebemos informações. Moretti está pressionando os Conti. E… ele parece ter descoberto sobre a nossa rota para cá.”
Isabella não demonstrou surpresa. Ela esperava essa reação. “Ele sempre olha para onde espera encontrar algo. E ele espera que eu seja descuidada. Ele subestima a minha capacidade de antecipar seus movimentos.”
Ela pegou um pequeno frasco de perfume, o aroma amadeirado e cítrico invadindo o ar. “Os Conti vão ceder. Eles sempre cedem. O dinheiro e a segurança falam mais alto que a lealdade. Mas isso nos dá uma vantagem. Ele se concentrará neles, pensando que me atingiu. E enquanto ele estiver distraído com a presa fácil, nós atacaremos o que ele considera intocável.”
“O quê exatamente?”
Isabella sorriu, seus olhos verdes brilhando com uma intensidade assustadora. “Vamos atacar o coração do império dele. Não fisicamente, ainda. Vamos atacar a sua reputação. Seus contatos políticos. As empresas que ele usa como fachada. Vamos mostrar ao mundo que a Famiglia Moretti não é tão invencível quanto parece.”
“É um risco alto, Isabella.”
“O risco é a única coisa que nos permite crescer, Luca. E o risco dele é o meu ganho.” Ela pegou um dos diamantes que trouxera consigo, sentindo sua frieza familiar. “Quanto aos novos fornecedores… eu tenho meus próprios contatos. Pessoas que não precisam da aprovação de Victor Moretti para fazer negócios.”
Naquela noite, enquanto Victor esperava pacientemente a armadilha se fechar ao redor de Isabella, ela decidiu dar um passo ousado. Ela sabia que ele a estava observando, que cada movimento seu era calculado. E ela queria que ele soubesse disso também. Ela aceitou um convite para um evento beneficente em um dos hotéis mais luxuosos de São Paulo, um lugar que ela sabia ser frequentado por Victor e seus aliados.
Quando Isabella entrou no salão, o murmúrio de conversas cessou por um instante. Ela estava deslumbrante, em um vestido de seda azul-marinho que realçava seus olhos verdes, com um colar de diamantes que, embora não fosse o que ela possuía em sua coleção secreta, brilhava com uma intensidade sutil. Seu perfume, discreto, mas marcante, parecia flutuar no ar.
Victor estava em um canto, conversando com um político influente. Seus olhos encontraram os dela através da multidão. Um arrepio percorreu sua espinha, uma sensação que ele não experimentava há anos. A garota que ele conhecera estava ali, mas agora era uma mulher, com uma aura de poder e perigo que o intrigava.
Ele se afastou do político e caminhou em direção a ela, cada passo medido, cada movimento calculado. Os olhares se cruzaram, e um silêncio carregado pairou entre eles, ignorando o barulho ao redor.
“Isabella De Luca”, disse Victor, sua voz um murmúrio rouco. “O que uma rosa negra faz em um jardim de mariposas douradas?”
Isabella sorriu, um sorriso que era ao mesmo tempo sedutor e desafiador. “Talvez ela esteja procurando polinização, Victor. Ou talvez ela esteja apenas admirando a beleza, antes de se mostrar mais forte.”
“Você está ousando demais, Isabella. Brincar comigo é um jogo perigoso.”
“O perigo é o que me mantém viva, Victor. E você… você parece gostar de um jogo desafiador.” Ela ergueu uma taça de champanhe, seus olhos verdes fixos nos dele. “Você está com saudades?”
A pergunta a atingiu como um raio. Saudades? De quê? Daquela época em que a rivalidade era apenas um sussurro? Daquela faísca que ele havia ignorado? Ele não podia admitir.
“Eu não sinto saudades, Isabella. Eu apenas coleciono o que me pertence.”
“E você acha que eu sou sua, Victor?” Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Seu perfume invadiu seus sentidos. “Você se lembra da promessa que seu pai fez ao meu?”
Victor estreitou os olhos. A promessa. Uma antiga dívida de sangue, um acordo que ele pensava ter desfeito para sempre. “O passado é passado, Isabella. E o meu passado me fez quem eu sou.”
“E o meu passado… me fez quem eu sou agora.” Ela tocou levemente seu braço, um toque que enviou uma corrente elétrica por ele. “Não se iluda, Victor. Esta guerra será diferente. E você não vai sair dela ileso.”
Ela se afastou, deixando-o sozinho com a intensidade do momento. O beijo da serpente. Ela o havia provocado, seduzido, alertado. E ele sentiu uma atração perigosa por ela, um desejo de desvendar os mistérios que a envolviam.
Mais tarde naquela noite, enquanto Isabella se preparava para deixar o hotel, ela se viu em um corredor isolado, a escuridão densa. Uma figura emergiu das sombras. Era Victor.
“Você disse que não sentia saudades”, disse Isabella, sua voz calma, apesar do coração acelerado. “Mas você me seguiu.”
Victor se aproximou, seus olhos fixos nos dela. A tensão entre eles era palpável, uma energia crua e perigosa. “Eu não sinto saudades. Mas você desperta algo em mim, Isabella. Algo que eu pensei ter enterrado há muito tempo.”
Ele a puxou para perto, seus corpos se chocando. Seus lábios se encontraram em um beijo intenso, faminto, carregado de anos de rivalidade, desejo e um perigo latente. Era um beijo de guerra, um beijo de paixão, um beijo que selava o início de algo que nenhum dos dois podia controlar.
Quando se separaram, ambos ofegantes, o silêncio voltou a reinar entre eles.
“Isso não muda nada, Isabella”, disse Victor, sua voz rouca. “A guerra continua.”
“Eu sei”, sussurrou ela, tocando seus lábios. “Mas talvez, apenas talvez, o campo de batalha tenha ficado um pouco mais interessante.”
Ela se afastou, deixando Victor sozinho na escuridão, o beijo dela ainda queimando em seus lábios. A rosa negra havia encontrado o seu espinho, e a batalha entre eles estava prestes a se tornar muito mais pessoal.