Corações em Guerra Civil
Capítulo 5 — O Encontro no Abismo
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 5 — O Encontro no Abismo
A cidade de São Paulo respirava sob um céu carregado de nuvens pesadas. A chuva havia cedido lugar a um clima úmido e abafado, um reflexo da tensão que pairava no ar. Victor Moretti sentia-se em uma gaiola dourada. As informações que recebia sobre Isabella De Luca eram fragmentadas, incompletas. Era como tentar montar um quebra-cabeça com peças faltando, e ele odiava a sensação de não ter o controle total.
Em seu escritório, o silêncio era quebrado apenas pelo tilintar suave do gelo em seu copo de uísque. Marco estava em frente a ele, um relatório em mãos.
“Chefe, os Conti nos deram acesso a algumas das rotas de contrabando que Isabella tem usado. Eles parecem ter sido… generosos com a informação.”
Victor deu um leve sorriso de escárnio. “Generosos porque estão com medo. Mas o medo os torna imprudentes. E a imprudência é um convite ao desastre.” Ele pegou o relatório. “Essas rotas levam para onde? Para os seus novos contatos em Singapura? Ou para algum porto que ela considera seguro em solo brasileiro?”
“Parece ser uma rota para uma de suas propriedades, chefe. Uma fazenda isolada no interior de Minas Gerais. Onde ela se sente mais segura, longe dos seus olhos.”
Victor deixou o relatório sobre a mesa. A fazenda. Ele sabia da existência dela. Um refúgio, um lugar onde ela se sentia protegida. Era o momento perfeito para um ataque psicológico.
“Ela se sente segura lá, não é? Longe da cidade, longe de mim.” Victor levantou-se, seus olhos azuis frios como gelo. “Prepare uma equipe. Não para atacar. Para demonstrar. Quero que eles façam uma visita àquela fazenda. Deixem uma mensagem clara. Que não há lugar em que ela possa se esconder. Que eu sei de cada movimento dela. Que a guerra se estenderá até onde ela estiver.”
Marco assentiu, mas hesitou. “Chefe, atacá-la em seu refúgio pode ser arriscado. Ela pode ter preparativos que não conhecemos.”
“Isso é um risco que estou disposto a correr, Marco. Ela me provocou. Agora é a minha vez de mostrar o meu poder. Não quero sangue. Quero medo. Quero que ela sinta a pressão, a certeza de que estou logo atrás dela. E… quero que ela venha até mim. A provocação dela foi pessoal. A minha resposta também será.”
Enquanto Victor planejava sua demonstração de força, Isabella estava precisamente na fazenda que ele mencionara. O ar era fresco, perfumado pela terra e pelo verde exuberante. Ela estava em uma varanda rústica, observando o pôr do sol pintar o céu com tons de laranja e rosa. Luca estava ao seu lado, preocupado.
“Isabella, recebemos um alerta. Os homens de Moretti estão se movendo em direção à fazenda.”
Isabella não se virou. “Eu sabia que ele faria isso. Ele precisa se sentir no controle. Ele precisa me caçar.”
“Mas ele pode vir com força total. Se ele nos encontrar aqui…”
Ela se virou para Luca, um sorriso desafiador em seus lábios. “Ele não nos encontrará desprevenidos, Luca. Esta fazenda não é apenas um refúgio, é uma fortaleza. E eu esperava por isso.” Ela pegou seu celular. “Prepare as equipes. Apenas para se defender. E… me conecte com Victor Moretti. Quero falar com ele.”
Luca a olhou, surpreso, mas compreendeu a audácia da decisão. Ele atendeu ao pedido. Poucos minutos depois, o celular de Isabella tocou. Era Victor.
“Então, Isabella”, disse Victor, sua voz fria e calculista. “Veio se esconder no campo? Achei que você fosse mais corajosa.”
Isabella riu, um som límpido que contrastava com a frieza da voz dele. “Coragem não é se esconder, Victor. Coragem é saber quando e onde lutar. E você veio ao meu território. Isso não é uma demonstração de força, é uma demonstração de desespero.”
“Desespero? Eu estou aqui para te lembrar que não há onde você se esconda de mim. Cada passo seu é monitorado. Cada movimento, conhecido.”
“Você sabe onde estou, Victor. Mas você não sabe quem eu sou. Você ainda pensa que sou a garotinha do baile. Mas eu aprendi, Victor. Aprendi a sobreviver. E aprendi a usar as minhas fraquezas como as minhas maiores armas.”
Victor sentiu uma pontada de algo que se parecia com admiração, disfarçada sob a raiva. Ela era ousada. Muito ousada. “Fraquezas? Sua maior fraqueza é pensar que pode me desafiar e sair ilesa.”
“Minha maior fraqueza… talvez seja a sua arrogância, Victor. A sua certeza de que você é invencível. E a sua… atração pelo perigo que eu represento.” A voz de Isabella baixou, tornando-se um sussurro carregado de promessa e ameaça. “Você veio me caçar, Victor. Mas talvez você esteja se aproximando do abismo.”
Houve um silêncio pesado do outro lado da linha. Victor não conseguia negar a verdade nas palavras dela. A atração era real. A guerra estava se tornando pessoal.
“Eu não me aproximo de abismos, Isabella. Eu os crio.” Victor desligou, o som seco ecoando no ar.
Ele olhou para Marco. “Ela está esperando. Ela quer um confronto. E eu vou dar isso a ela. Mas não aqui. Não no território dela. Ela virá para a minha cidade. Ela virá para o meu covil.”
Victor decidiu que a melhor forma de desestabilizá-la era puxá-la para o seu próprio jogo. Ele não iria à fazenda. Ele a faria vir até ele. Ele enviou uma mensagem sutil através de um dos seus contatos, uma informação cuidadosamente plantada sobre uma oportunidade única de negócio em São Paulo, algo que Isabella não poderia ignorar.
Enquanto isso, Isabella recebeu a informação. Um novo fornecedor de tecnologia avançada, com acesso a informações de segurança de última geração, estava em São Paulo. Era uma oportunidade imperdível, algo que poderia lhe dar uma vantagem significativa sobre Victor. Ela sabia que era uma armadilha, mas a sede de poder e a necessidade de se fortalecer eram mais fortes.
“Ele quer que eu vá até ele”, disse Isabella a Luca, com um leve sorriso. “Ele pensa que me pegou em sua teia. Mas ele não sabe que eu também sei tecer a minha própria teia.”
“É muito arriscado, Isabella.”
“O risco é o preço da vitória, Luca. E eu estou disposta a pagar.” Ela olhou para a rosa negra em seu vaso. “Victor Moretti, você me chamou para o seu abismo. E eu aceito o seu convite. Mas não se engane, eu não vou cair. Eu vou reinar nele.”
O encontro no abismo. Não seria um confronto físico, mas um jogo de inteligência, de poder, de sedução e ameaça. Victor esperava por Isabella em seu território, confiante em sua superioridade. Isabella, por sua vez, aceitava o desafio, pronta para usar as próprias armas de Victor contra ele. A guerra civil entre as famílias atingiu um novo patamar, e o destino de São Paulo, e de seus corações, estava prestes a ser decidido em um jogo de apostas altíssimas. A noite caía sobre a cidade, anunciando não apenas a escuridão, mas também o prenúncio de uma batalha épica.