Corações em Guerra Civil

Coraços em Guerra Civil

por Rodrigo Azevedo

Coraços em Guerra Civil

Autor: Rodrigo Azevedo

Capítulo 6 — A Noite dos Segredos Revelados

A névoa densa de São Paulo, espessa como o véu que cobria os segredos da família Rossi, abraçava a mansão no Morumbi. Lá dentro, o silêncio era um luxo que se tornava cada vez mais escasso. Isabella, com os olhos marejados, mas a postura inabalável, encarava o irmão. O peso das palavras de Marco ecoava no salão suntuoso, onde lustres de cristal lançavam reflexos dançantes sobre os móveis antigos e as obras de arte que contavam histórias de um império construído com suor e sangue.

"Isabella, você não pode se envolver com ele. Ele é o inimigo", Marco insistiu, a voz embargada por uma mistura de preocupação e raiva contida. Seus punhos estavam cerrados, as veias proeminentes saltando em suas têmporas. Ele se movia pelo ambiente com a agitação de um animal enjaulado, cada passo amplificando a tensão que pairava no ar.

"O inimigo? Quem é o inimigo, Marco? O homem que me olhou nos olhos e não viu a marca da Rossi? O homem que me fez sentir viva, em vez de um peão no seu jogo sujo?", Isabella retrucou, a voz tremendo ligeiramente, mas carregada de uma determinação feroz. Ela se aproximou da grande janela de vidro, observando as luzes da cidade que pareciam distantes e indiferentes à tempestade que se formava em sua alma. "Você fala de inimigos, mas o que você realmente teme é perder o controle. Perder o que você acredita que é seu por direito."

Marco riu, um som amargo e sem alegria. "Controle? Isabella, nós estamos lutando pela sobrevivência! A família Bianchi não é brincadeira. Eles são predadores, e você, minha irmã, está se aproximando da toca do leão sem a menor precaução."

"E você acha que ficar aqui, escondida atrás de muros de ouro, é a nossa salvação? A gente vive em guerra constante, Marco. Uma guerra que nos consome. Talvez seja hora de tentar outra coisa. Talvez seja hora de tentar a paz."

"Paz?", Marco quase gritou. "Paz é uma palavra que não existe no nosso vocabulário, Isabella. Você sabe disso. Papai nos ensinou isso. Mamãe nos ensinou isso. A traição é uma doença, e os Bianchi são os maiores portadores dela." Ele parou, a respiração ofegante, e fixou o olhar na irmã. Havia dor em seus olhos, uma dor profunda, antiga, que parecia emanar de um lugar esquecido. "Você se lembra do que aconteceu com o tio Giovanni?"

O nome do tio Giovanni pairou no ar como uma sombra espectral. Isabella fechou os olhos por um instante, a imagem de seu tio, um homem alegre e cheio de vida, sendo levado à força, a expressão de choque e medo em seu rosto, gravada a ferro em sua memória. "Eu me lembro. Mas isso foi há anos, Marco. As coisas mudam."

"As coisas não mudam, Isabella. Elas se aprofundam. Os Bianchi nunca esquecem. E nunca perdoam." Marco se aproximou dela, sua voz baixando para um tom mais urgente. "Ele te manipula. Lorenzo Bianchi é um mestre em manipular as pessoas. Ele viu em você uma fraqueza, uma brecha, e está explorando isso. Ele não te ama. Ele te quer como arma contra nós."

As palavras de Marco, embora cruéis, atingiram um ponto sensível em Isabella. Ela se virou para ele, a angústia estampada em seu rosto. "Você tem tanta certeza assim? Você o viu me olhando? Você sentiu a forma como ele me toca? Não é manipulação, Marco. É algo mais profundo. É algo que eu não consigo explicar, mas que eu sinto no fundo da minha alma." Ela deu um passo para trás, a voz agora mais suave, quase um sussurro. "E se for verdade o que você diz? E se ele estiver me usando? O que você sugere que eu faça? Que eu volte para a escuridão que me sufoca aqui?"

Marco suspirou, a rigidez em seus ombros diminuindo um pouco. Ele sabia que sua irmã era teimosa, forte, mas também incrivelmente vulnerável. E seu amor por Lorenzo Bianchi, por mais insensato que parecesse, era algo que ele não conseguia erradicar. "Eu sugiro que você seja cautelosa, Isabella. Eu sugiro que você não entregue sua alma a um homem que não hesitaria em destruí-la se isso o beneficiasse. Pense no que está em jogo. Pense na nossa família. Pense na nossa segurança." Ele pegou as mãos dela, as palmas frias e um pouco úmidas. "Eu te amo, irmã. E tudo o que eu faço, é para te proteger."

Isabella apertou as mãos dele, sentindo o tremor nelas. "Eu sei, Marco. E eu também te amo. Mas a proteção que você me oferece é uma jaula. Eu preciso respirar. Eu preciso sentir que estou viva." Ela se afastou novamente, seus olhos fixos em um ponto distante. "Talvez eu precise descobrir a verdade por mim mesma. Talvez eu precise ir até o fim para entender quem eu sou e quem ele é."

Uma batida firme na porta da sala interrompeu a conversa tensa. Um dos seguranças, um homem corpulento e de semblante sério, apareceu no batente. "Senhorita Isabella, Senhor Marco. A senhorita Sofia Bianchi está aqui. Ela pediu para falar com vocês."

A menção do nome de Sofia pegou os irmãos de surpresa. Sofia Bianchi, a irmã mais nova de Lorenzo, uma figura misteriosa e raramente vista em público. Marco e Isabella trocaram olhares, a apreensão crescendo em seus rostos. A noite, que já estava carregada de segredos, prometia revelar ainda mais.

Sofia entrou na sala sem ser anunciada, precedida por dois seguranças de semblante austero. Ela era diferente de Lorenzo. Mais esguia, com cabelos negros como a noite caindo em cascata sobre seus ombros e olhos verdes penetrantes que pareciam analisar cada detalhe. Vestia um tailleur preto impecável, que exalava uma elegância fria e calculista. Havia uma aura de perigo contido ao redor dela, como um felino observando sua presa.

"Senhorita Isabella. Senhor Marco", Sofia disse, sua voz calma e controlada, mas com um fio de aço por baixo. "Espero não estar incomodando."

Marco se colocou entre Isabella e Sofia, um gesto protetor instintivo. "O que você quer aqui, Sofia?"

Sofia ignorou a hostilidade de Marco e dirigiu seu olhar para Isabella. Havia um brilho nos olhos dela, uma curiosidade mal disfarçada. "Eu vim falar com você, Isabella. Ouvi dizer que meu irmão tem tido bastante… atenção para com a sua pessoa."

Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A forma como Sofia disse "atenção" carregava um subtexto que a incomodou profundamente. "Lorenzo é… um homem interessante", Isabella respondeu, escolhendo as palavras com cuidado.

Sofia deu um sorriso sutil, que não alcançou seus olhos. "Interessante, sim. E perigoso. Você sabe com quem está lidando, Isabella? Você sabe o que ele é capaz de fazer?"

Antes que Isabella pudesse responder, Marco interveio. "O que você quer com a minha irmã, Sofia? Veio nos ameaçar em nome do seu irmão?"

"Ameaçar? Não, Senhor Marco. Eu vim apenas avisar", Sofia disse, seu olhar se fixando em Marco com um desafio silencioso. "Avisar a sua irmã. Lorenzo não é um homem para se brincar. Ele quebra o que ama. E ele ama poucas coisas."

As palavras de Sofia ecoaram as preocupações de Marco, mas de uma forma ainda mais direta e fria. Isabella sentiu um nó se formar em sua garganta. Ela encarou Sofia, buscando alguma verdade em seus olhos verdes. "Eu acredito que sei com quem estou lidando, Sofia. E Lorenzo não é o monstro que vocês pintam."

Sofia soltou uma risada baixa. "Monstro? Ele é um sobrevivente, Isabella. E para sobreviver nesse mundo, você tem que ser um monstro. Ou ser devorado por um." Ela deu um passo à frente, parando a uma distância respeitosa, mas intimidadora. "Eu vi como ele olha para você. É um olhar de posse, não de amor. Ele vê você como uma aquisição, uma peça em seu jogo de xadrez. E quando ele se cansar de você, ele a descartará sem hesitação."

"Você fala como se me conhecesse", Isabella disse, a voz embargada pela emoção.

"Eu conheço meu irmão", Sofia respondeu, a frieza voltando ao seu tom. "E eu conheço o mundo em que vivemos. O amor nesse mundo é uma fraqueza. E a fraqueza é fatal. Se você tem alguma esperança de sobreviver, deve se afastar dele agora. Antes que seja tarde demais."

Sofia olhou para os dois irmãos por mais um momento, seus olhos verdes varrendo o ambiente como se estivesse catalogando tudo. "Pensem bem nas minhas palavras. O futuro de vocês pode depender disso."

Com isso, Sofia se virou e saiu da sala, seus seguranças a seguindo como sombras silenciosas. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Isabella e Marco ficaram ali, paralisados, o peso das palavras de Sofia pesando sobre eles. A noite, que prometia revelar segredos, apenas lançou novas camadas de dúvida e perigo sobre seus corações. A guerra entre as famílias Bianchi e Rossi estava prestes a se tornar ainda mais pessoal e devastadora. E Isabella, presa entre o amor e o perigo, não sabia mais em quem confiar.

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