Corações em Guerra Civil
Capítulo 7 — O Encontro na Meia-Noite
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 7 — O Encontro na Meia-Noite
A noite em São Paulo se estendia como um manto escuro, pontilhado pelas luzes distantes que pareciam zombar da escuridão que envolvia o coração de Isabella. A visita de Sofia Bianchi deixara um rastro de incerteza e medo, um veneno sutil que se espalhava por seus pensamentos. As palavras dela, tão frias e calculistas, ecoavam as preocupações de Marco, mas com uma crueldade ainda maior. "Ele quebra o que ama." A frase se repetia em sua mente como um mantra sombrio.
Isabella não conseguia dormir. O sono a fugia como um animal assustado. Ela se levantou da cama luxuosa, o tecido de seda frio em sua pele, e caminhou até a varanda. O ar da noite trazia um cheiro de chuva iminente e o perfume adocicado das flores do jardim. Ela se apoiou no parapeito, observando a cidade adormecida. Será que Lorenzo dormia naquele momento? Será que ele pensava nela? Ou era ela apenas mais um peão em seu jogo implacável?
A dúvida a consumia. A paixão que sentia por ele era avassaladora, um fogo que a consumia por dentro. Mas as palavras de Sofia e Marco a faziam questionar tudo. Ela amava Lorenzo, de uma forma intensa e perigosa, como nunca havia amado ninguém. Mas o amor, nesse mundo de máfia, era um luxo que poucos podiam se dar. E ela, uma Rossi, sempre soube disso. Mas o coração, teimoso e desafiador, se recusava a ouvir a razão.
De repente, um movimento na escuridão chamou sua atenção. Um carro preto, sem identificação, deslizou silenciosamente pela rua privada que levava à mansão. O coração de Isabella disparou. Era ele? Teria ele vindo procurá-la?
O carro parou a poucos metros da entrada. As luzes do carro se apagaram, mergulhando a cena na penumbra. Uma figura alta e esguia emergiu do banco do motorista. Mesmo na escuridão, Isabella reconheceu a silhueta inconfundível de Lorenzo Bianchi.
Sem pensar, Isabella desceu da varanda e correu em direção à entrada principal. A porta se abriu com um clique suave e ela se viu cara a cara com ele. Lorenzo parecia diferente naquela noite. Seus olhos, geralmente intensos e cheios de um fogo controlado, agora carregavam uma sombra de preocupação. O terno escuro que ele usava parecia absorver a pouca luz que havia.
"Lorenzo", Isabella sussurrou, a voz rouca de emoção.
Lorenzo a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em seus cabelos. O perfume dele, uma mistura de couro, especiarias e algo mais, algo perigosamente masculino, a envolveu. "Eu precisava te ver", ele disse, a voz baixa e rouca contra sua orelha.
"Por quê? O que aconteceu?" Isabella perguntou, sentindo o tremor em seu corpo.
Lorenzo se afastou um pouco, mas manteve as mãos em seus ombros. Seus olhos a encontraram, intensos e cheios de uma urgência que a fez prender a respiração. "Houve um problema. Algo que eu precisava resolver antes que pudesse afetar você."
"Sofia esteve aqui", Isabella disse, a voz ainda trêmula. "Ela me avisou. Disse que você é perigoso. Que você me quebraria."
Um brilho de dor cruzou o rosto de Lorenzo, mas foi rapidamente substituído por uma máscara de controle. "Sofia sempre soube manipular as palavras. Ela tem os seus próprios interesses, Isabella. E os interesses dela nem sempre se alinham com os meus." Ele apertou os ombros dela. "O que você sente por mim, Isabella, é real. E o que eu sinto por você é… intenso. Não deixe que as palavras dela plantem a semente da dúvida em você."
"Mas e se ela estiver certa? E se você for mesmo um monstro?" Isabella sussurrou, a vulnerabilidade em sua voz.
Lorenzo a puxou para mais perto, seus corpos se tocando. Ele sentiu o coração dela batendo descompassado contra o seu. "Eu sou muitas coisas, Isabella. Um homem do meu mundo. Um homem que luta para sobreviver. Mas um monstro que quebraria você? Nunca." Ele tocou seu rosto com a ponta dos dedos, traçando a linha de sua mandíbula. "Você é a única coisa em todo esse caos que me faz sentir que ainda há esperança. Que há algo puro e real no meio de tanta escuridão."
As palavras dele, sinceras e desesperadas, acalmaram um pouco a tempestade em seu peito. Mas a sombra da dúvida ainda pairava. "Mas sua irmã, Lorenzo…"
"Minha irmã tem um plano. Um plano que envolve você. Mas não do jeito que ela disse", Lorenzo interrompeu, seus olhos fixos nos dela. "Ela quer me ver longe de você. Ela acredita que você é uma distração. E ela está disposta a usar qualquer meio para me separar de você." Ele a puxou para um abraço mais forte. "Eu precisava vir te ver. Precisava te dizer que estou aqui. E que não vou deixar nada nem ninguém te machucar."
"E o problema que você mencionou?" Isabella perguntou, recuperando um pouco de seu fôlego.
"Uma tentativa de nos desestabilizar. Um ataque que falhou", Lorenzo disse, sua voz voltando a um tom mais firme e determinado. "Nada que nós não possamos controlar. Mas me deixou tenso. Me deixou querendo ter certeza de que você estava segura." Ele afastou o rosto para olhá-la nos olhos. "Você confia em mim, Isabella?"
A pergunta pairou no ar, carregada de um peso imenso. Isabella olhou nos olhos de Lorenzo, vendo neles uma mistura de paixão, dor e uma determinação feroz. Ela sabia que ele era perigoso. Sabia que ele vivia em um mundo onde a morte era uma constante. Mas também sentia a verdade em suas palavras, a conexão profunda que os unia.
"Eu… eu quero confiar em você, Lorenzo", ela respondeu, a honestidade em sua voz.
Um sorriso genuíno, mas fugaz, iluminou o rosto de Lorenzo. "Isso é tudo o que eu preciso por enquanto." Ele a beijou na testa. "Agora, você precisa voltar para dentro. Não podemos ser vistos assim. A guerra está apenas começando, e eu não quero que você se torne um alvo."
Isabella assentiu, o coração ainda acelerado. Lorenzo a acompanhou até a porta da mansão. Antes de desaparecer de volta para a escuridão, ele a olhou uma última vez. "Durma bem, Isabella. E saiba que eu estarei pensando em você."
Ele entrou no carro e desapareceu tão silenciosamente quanto chegou. Isabella ficou ali por um longo tempo, o toque dele ainda quente em sua pele, o cheiro dele pairando no ar. Ela sabia que estava se arriscando. Sabia que estava se aproximando do fogo. Mas, naquele momento, o fogo era a única coisa que a fazia sentir viva. A dúvida ainda existia, mas a paixão, a força avassaladora que sentia por Lorenzo, era mais forte. Ela entraria naquela guerra, ao lado dele, mesmo sem saber ao certo o preço que teriam que pagar.