Corações em Guerra Civil
Capítulo 8 — O Jogo de Xadrez da Máfia
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 8 — O Jogo de Xadrez da Máfia
Os dias que se seguiram à visita inesperada de Lorenzo foram tensos. A mansão Rossi parecia pairar sob uma nuvem de expectativa, como um campo de batalha esperando o ataque. Marco, mais vigilante do que nunca, reforçou a segurança, com homens armados patrulhando os corredores e os jardins. Isabella, por sua vez, se sentia dividida. A visita de Lorenzo havia reacendido a chama da paixão em seu coração, mas as palavras de Sofia e as preocupações de Marco não a abandonavam.
Ela tentava se concentrar em seus negócios, nas tarefas que seu pai a havia designado. Mas sua mente vagava constantemente. Imaginava Lorenzo, em algum lugar na escuridão da cidade, planejando, lutando, sobrevivendo. Ela se perguntava se ele pensava nela com a mesma intensidade com que ela pensava nele.
Uma tarde, enquanto revisava alguns documentos em seu escritório, Isabella ouviu batidas fortes na porta. Eram batidas urgentes, que não soavam como as dos seguranças habituais. Marco entrou na sala, o rosto tenso e pálido.
"Isabella, precisamos sair daqui. Agora", ele disse, a voz urgente.
"O que aconteceu? Mais um ataque?" Isabella perguntou, o coração disparado.
"Não é um ataque. É um convite", Marco respondeu, com um tom de relutância sombria. "Um convite para a guerra. Lorenzo Bianchi quer uma reunião. Amanhã à noite. No velho galpão portuário, às margens do Tietê."
Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Um encontro entre os líderes das duas famílias mais poderosas e rivais de São Paulo. Era um movimento ousado, perigoso. E a presença de Isabella nesse encontro era algo que Marco hesitava em aceitar.
"Ele quer que eu vá", Isabella disse, mais como uma afirmação do que uma pergunta.
"Sim. E ele foi bem claro: sem seguranças. Apenas nós dois", Marco respondeu, o olhar fixo no dela. "Ele quer negociar. Ou então, a guerra se intensificará."
"E você acha que podemos confiar nele?" Isabella perguntou, a voz carregada de incerteza.
Marco suspirou, passando a mão pelos cabelos. "Eu não confio em ninguém do clã Bianchi. Mas essa é uma oportunidade. Uma chance de tentar acabar com isso. Ou pelo menos, de entender o que ele realmente quer." Ele se aproximou dela, sua voz mais suave. "Eu não quero que você vá, Isabella. É perigoso demais."
"Mas talvez seja necessário", Isabella disse, a determinação começando a tomar forma em seus olhos. Ela sabia que não poderia mais se esconder. Sabia que precisava enfrentar o perigo de frente. "Eu vou, Marco. Eu preciso ir. Se ele me quer lá, eu estarei lá. Talvez eu possa entender alguma coisa que você não possa."
Marco a encarou por um longo momento, vendo a resolução em seu olhar. Ele sabia que era inútil tentar impedi-la. Isabella era tão teimosa quanto ele, e mais corajosa do que ele ousava admitir. "Tudo bem. Mas você vai com os meus melhores homens escondidos. E eu estarei com você a cada passo."
A noite seguinte chegou com a promessa de perigo e incerteza. O galpão portuário, um vestígio abandonado da antiga glória industrial de São Paulo, era um lugar sombrio e desolado. A névoa pairava sobre o rio Tietê, criando uma atmosfera sinistra. O cheiro de mofo e maresia impregnava o ar.
Lorenzo Bianchi já estava lá quando Isabella e Marco chegaram. Ele estava acompanhado por alguns de seus homens mais leais, rostos duros e olhos atentos que varriam a escuridão. Lorenzo se aproximou de Isabella, um sorriso sutil em seus lábios.
"Isabella. Marco. Obrigado por virem." Sua voz era calma, mas carregada de uma autoridade inegável.
"Falem logo, Bianchi. Não temos todo o tempo do mundo", Marco disse, sua postura defensiva, os olhos fixos em Lorenzo e em seus homens.
Lorenzo ignorou a hostilidade de Marco e voltou seu olhar para Isabella. "Eu ofereci uma trégua. Uma oportunidade de conversar. Para que possamos evitar mais derramamento de sangue."
"Sangue que você mesmo derrama, Lorenzo", Marco retrucou.
Lorenzo sorriu levemente. "Eu faço o que é preciso para proteger o que é meu, Marco. E para manter o meu império. Assim como você faria." Ele se virou para Isabella. "Eu sei que você está confusa. Eu sei que as coisas são complicadas. Mas eu quero que você saiba que o meu desejo é encontrar uma solução pacífica."
"Paz?", Marco riu, um som seco e sem humor. "Você não sabe o que é paz, Bianchi."
"Eu sei que paz é um luxo caro. E nem sempre é alcançável", Lorenzo respondeu, sua voz perdendo um pouco da suavidade. "Mas eu estou disposto a tentar. Eu ofereço uma nova divisão de territórios. Um acordo que beneficie ambas as famílias. E que coloque um fim a essa guerra antiga."
Isabella observou a troca, o coração apertado. Ela via a tensão no corpo de Marco, a raiva que ele tentava conter. E via a frieza calculista nos olhos de Lorenzo, mesmo que ele tentasse transmitir sinceridade.
"E o que você espera em troca?", Isabella perguntou, sua voz firme. Ela sabia que essa era a sua chance de intervir, de tentar entender as verdadeiras motivações de Lorenzo.
Lorenzo olhou para ela, um brilho de surpresa em seus olhos. Ele não esperava que ela falasse. "Eu espero que você, Isabella, seja a ponte entre nós. Eu vejo você como alguém que pode trazer um novo começo. Alguém que não está manchada por essa guerra."
"Você está me usando, Lorenzo", Marco disse, a voz carregada de desconfiança. "Você quer usá-la como um peão no seu jogo."
"Eu quero que ela seja a mediadora", Lorenzo corrigiu, mantendo o olhar em Isabella. "Ela tem a inteligência e a força para fazer isso. E ela tem a minha confiança."
A menção de "confiança" fez o coração de Isabella dar um salto. Era isso que ela queria ouvir. A confirmação de que, apesar de tudo, ele confiava nela.
"E se eu não quiser ser a mediadora?", Isabella perguntou, a voz baixa. "E se eu quiser apenas viver minha vida, longe dessa guerra?"
Lorenzo deu um passo à frente, sua proximidade fazendo o ar ficar mais denso. "Você não pode fugir disso, Isabella. Ninguém pode. Essa guerra está em nosso sangue. Mas você pode escolher um lado. Você pode escolher um caminho. E eu quero que você escolha o meu."
Um silêncio pesado caiu sobre eles. Os homens de ambas as famílias se olhavam com desconfiança, prontos para o pior. A tensão era palpável, como a eletricidade antes de uma tempestade.
Marco se moveu, colocando-se levemente à frente de Isabella. "Nós vamos pensar sobre a sua proposta, Bianchi. Mas não espere uma resposta rápida. E não pense que você pode controlar Isabella."
Lorenzo assentiu lentamente, seus olhos ainda fixos em Isabella. "Eu não quero controlá-la, Isabella. Eu quero andar ao seu lado." Ele estendeu a mão para ela, um gesto inesperado e ousado. "Que tal um começo? Um aperto de mão para selar o início de uma nova era."
Isabella hesitou por um momento, o conflito em seu rosto. Marco a observava com apreensão. Mas então, ela deu um passo à frente e apertou a mão de Lorenzo. O toque dele era firme e quente. A energia que emanava deles parecia eletrizar o ar ao redor.
"Que assim seja", Isabella disse, sua voz ressoando no silêncio.
Marco suspirou, mas não disse nada. Ele sabia que sua irmã tinha tomado sua decisão. A guerra entre as famílias Rossi e Bianchi estava em um ponto de inflexão. E Isabella, com seu coração dividido, estava no centro de tudo. O jogo de xadrez havia começado, e as peças estavam em movimento.