A Escolha de Uma Máfia

A Escolha de Uma Máfia

por Rodrigo Azevedo

A Escolha de Uma Máfia

Por Rodrigo Azevedo

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Capítulo 1 — O Peso da Herança

O ar em São Paulo, naquela noite de maio, tinha um peso diferente. Não era apenas o cheiro de chuva que anunciava a chegada da tempestade, mas a aura densa e opressora que emanava do casarão na Pompeia. Mansão da família Rossi, um nome que, em certos círculos, era sussurrado com reverência e temor. E hoje, esse peso recaía sobre os ombros de Isabella Rossi, uma jovem de vinte e quatro anos que, até poucas horas atrás, sonhava com um futuro longe das sombras que envolviam seu sobrenome.

O velório do pai, Don Enrico Rossi, era uma procissão silenciosa de rostos sombrios e ternos escuros. O cheiro de lírios e rosas brancas se misturava ao perfume amargo de incenso, uma combinação que Isabella achava nauseante. Ela se sentia como uma atriz em um palco macabro, recitando falas que não compreendia totalmente, abraçando parentes distantes que nunca vira antes, recebendo condolências que soavam vazias em seus ouvidos.

“Sua força é a herança mais valiosa dele, querida”, murmurou Dona Sofia, a tia de Enrico, uma senhora de cabelos prateados e olhar penetrante que, diziam, era a verdadeira matriarca da família, mesmo que de forma discreta. Isabella forçou um sorriso, sentindo as lágrimas teimosas que teimavam em rolar pelo seu rosto.

“Obrigada, tia. Ele… ele era tudo para mim.” A voz embargou. E era verdade. Enrico Rossi, o temido Don, era o pai que sempre esteve lá para ela, o homem que a protegia com unhas e dentes, que a ensinara sobre a vida, sobre a honra, sobre a lealdade. Ele a criara com a ilusão de que ela poderia escolher seu próprio caminho, que o sobrenome Rossi não seria uma sentença. Uma mentira doce, cruelmente desfeita pela realidade que a esperava.

O escritório de Don Enrico era um santuário de mogno e couro, adornado com mapas antigos e troféus de caça. Era ali que ele tomava as decisões que moldavam o destino de centenas de pessoas. Agora, o espaço estava impregnado do odor de cera de vela e da melancolia da ausência. Isabella estava sentada na poltrona de couro dele, sentindo o peso do seu manto invisível.

Seu irmão mais velho, Marco, um homem de cinquenta anos, com o rosto marcado pela vida e um olhar que guardava segredos sombrios, entrou no escritório. Ele era a imagem viva da força bruta e da impaciência.

“Isabella, você não pode ficar aqui a noite toda lamentando. Há muito a ser feito.” A voz dele era grave, quase um rosnado.

Isabella ergueu os olhos, o coração apertado pela frieza dele. “E o que exatamente precisa ser feito, Marco? Seu pai se foi. O que resta para nós?”

Marco se aproximou, o terno impecável mal disfarçando a tensão em seus ombros. Ele pegou um pesado envelope de papel pardo da gaveta da mesa de seu pai. “Isto”, disse ele, colocando-o nas mãos dela. “O testamento. E não é apenas um pedaço de papel, Isabella. É um mapa. E você, minha irmãzinha, acabou de ser nomeada a guardiã dele.”

Com as mãos tremendo, Isabella abriu o envelope. Dentro, havia um documento formal e uma carta escrita em uma caligrafia elegante e inconfundível. A carta de seu pai.

Minha querida Isabella,

Se você está lendo isto, meu tempo chegou. Sei que o mundo que eu construí pode parecer assustador, um labirinto de sombras e perigos. Mas lembre-se sempre, minha filha, que mesmo na escuridão mais profunda, a luz da justiça e da honra pode prevalecer. Eu te criei longe de tudo isso, te dei a liberdade de sonhar, de escolher. Mas a vida, minha flor, tem seus próprios caminhos tortuosos.

O testamento que acompanha esta carta é a minha última vontade. Ele contém as diretrizes para a sucessão, para a continuidade do que construímos. E a mim, coube uma decisão que pode te chocar. Eu escolhi você, Isabella. Eu confio em você. Você tem a inteligência, a coragem e, acima de tudo, um coração puro que pode guiar a família Rossi para um futuro melhor. Não tema. Use sua sabedoria. Proteja os nossos. E, por favor, encontre a felicidade. Essa foi a minha maior esperança para você.

Com todo o meu amor, para sempre, Seu pai, Enrico Rossi.

As palavras de Enrico ecoavam na mente de Isabella como um trovão. Confiança? Escolha? Futuro melhor? Ela nunca quis liderar nada. Ela queria ser artista, viajar pelo mundo, pintar paisagens vibrantes, viver uma vida comum, longe das preocupações que sempre pairaram sobre sua família. A ideia de assumir o comando de um império de negócios e, sim, de um lado obscuro da sociedade, era aterradora.

Marco observava a reação dela, um sorriso sutil brincando em seus lábios. “Você vê? Aparentemente, nosso pai acreditava que você seria a salvação. Uma escolha… interessante.”

“Interessante?”, Isabella repetiu, a voz embargada pela emoção e pela confusão. “Marco, eu não quero isso. Eu não sei nada sobre os negócios da família. E essa ‘continuidade’ que você fala… eu não quero fazer parte disso.”

Marco soltou uma risada seca. “Ah, Isabella. Você ainda é tão ingênua. ‘Negócios da família’ é um eufemismo para o que realmente somos. E, goste você ou não, você é uma Rossi. O sangue fala mais alto. E o seu pai, em sua infinita sabedoria, decidiu que você é a única capaz de gerenciar tudo isso.” Ele se aproximou, os olhos fixos nos dela. “Ele te deu uma escolha, sim. A escolha de aceitar seu destino ou de ser esmagada por ele. E eu não pretendo ser esmagado.”

O tom de Marco era uma ameaça velada, um aviso claro. Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia que sua família não era como as outras. Sempre houve sussurros, boatos, uma aura de poder que ia além dos negócios legais. Seu pai nunca explicou totalmente, sempre a blindando, sempre com sorrisos tranquilizadores. Mas agora, diante da frieza de Marco e da responsabilidade que lhe fora lançada, a verdade parecia se impor.

O testamento detalhava a estrutura de poder. Enrico Rossi deixara a liderança geral para Isabella, com Marco como seu conselheiro principal, uma posição que ele claramente desejava subverter. Havia também outros braços da organização, sub-chefes e homens de confiança, que esperavam a confirmação de sua nova líder.

Isabella levantou-se, sentindo a vertigem. O escritório, antes um refúgio, agora parecia uma prisão. “Eu preciso de tempo para pensar. Eu não posso decidir isso assim, em um momento de luto.”

“Você terá tempo, querida. Mas não muito”, disse Marco, sua voz um pouco mais suave, mas a ameaça ainda presente. “O mundo não para, e os problemas da família Rossi não esperam. As outras famílias, os nossos ‘parceiros’ e ‘concorrentes’… todos esperam para ver quem vai assumir o trono. E eles precisam de uma líder forte. Uma Rossi.”

Ele saiu, deixando Isabella sozinha na imensidão silenciosa do escritório. As palavras de seu pai, a frieza de Marco, o peso da herança… tudo se misturava em um turbilhão de emoções. Ela olhou para a janela, para a cidade que se estendia lá fora, um mar de luzes que escondia inúmeras histórias. A sua história, agora, estava prestes a ser reescrita de uma maneira que ela jamais imaginou. O peso da herança era insuportável, mas a alternativa, a de fugir ou recusar, parecia ainda mais perigosa. O que ela faria? A escolha de uma máfia, de uma família, de um destino, agora repousava sobre seus ombros. E Isabella Rossi, a artista que sonhava com cores vibrantes, se via mergulhada em um mundo de sombras, onde cada decisão seria uma pincelada em um quadro de perigo e poder.

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