A Escolha de Uma Máfia
A Escolha de Uma Máfia
por Rodrigo Azevedo
A Escolha de Uma Máfia
Capítulo 11 — As Fendas no Muro de Gelo
O sol da manhã espreguiçava-se preguiçoso pelas frestas das persianas, pintando listras douradas no chão de mármore polido do quarto. Helena se remexeu sob as cobertas, um suspiro escapando de seus lábios entreabertos. O peso do dia anterior, das palavras não ditas e das promessas quebradas, parecia ter se solidificado em seu peito, uma armadura fria que a impedia de respirar completamente. O perfume inebriante de Lorenzo ainda pairava no ar, um fantasma persistente de uma noite que fora ao mesmo tempo um refúgio e uma tortura.
Ela se levantou devagar, sentindo a pele arder onde os dedos dele a haviam tocado com uma possessividade que a assustara e, para sua própria vergonha, a excitara. A imagem de seus olhos escuros, faíscas de algo indomável dançando em seu interior, não saía de sua mente. Lorenzo, o homem que a havia levado para seu mundo sombrio, o homem que era tão perigoso quanto hipnotizante. E ela, Helena, a filha de um homem honrado, agora presa em uma teia de sedução e ameaças veladas, envolvida em uma trama que mal compreendia.
A lembrança do jantar com seu pai naquela noite, a preocupação em seus olhos quando ela forçou um sorriso, a ânsia em sua voz quando ele perguntou sobre seu novo "emprego", era como uma faca girando em sua alma. Ela o amava mais do que a própria vida, e a ideia de decepcioná-lo, de manchar o nome que ele tanto prezava, era insuportável. Mas como explicar a ele que a única forma de proteger sua empresa, sua vida, era se aproximar do homem que a representava, do homem que era o próprio perigo encarnado?
Vestiu um roupão de seda, a textura fria contra sua pele quente, e caminhou até a janela. A vista da cidade, ainda envolta em uma névoa matinal, parecia tão distante quanto um sonho. Aqui, no topo daquele arranha-céu, cercada de luxo e poder, ela se sentia mais isolada do que nunca. Lorenzo havia lhe oferecido um mundo de possibilidades, mas a que preço? E qual era o verdadeiro jogo dele? O que ele realmente queria?
A porta se abriu suavemente, e Lorenzo entrou. Ele usava um terno impecável, a camisa branca aberta no colarinho, revelando um pedaço de sua pele bronzeada. Seus olhos, como sempre, eram um abismo escuro, mas hoje, ela viu algo mais neles. Uma sombra de cansaço, talvez. Ou uma melancolia que ele se esforçava para esconder.
"Bom dia, meu anjo", disse ele, a voz rouca e profunda, um carinho perigoso em cada sílaba. Ele se aproximou, o perfume de couro e especiarias envolvendo-a. "Dormiu bem?"
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. "Como se espera, Lorenzo." A frieza em sua voz era uma tentativa desesperada de criar distância.
Ele sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos. "Espero que sim. Precisamos estar bem para o que vem pela frente." Ele estendeu a mão, e por um instante, ela pensou que ele a acariciaria. Mas ele apenas apontou para a bandeja que um garçom silencioso acabara de deixar sobre uma mesa no canto. Café fresco, frutas exóticas, pães recém-assados. Um banquete.
"Café da manhã", ele anunciou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. "Sei que não está acostumada com esse tipo de luxo, mas você precisa se adaptar. Este é o seu novo mundo."
Ela deu um passo para trás, o véu de autocontrole se desfazendo um pouco. "Meu mundo é outro, Lorenzo. E você sabe disso."
Ele a encarou, a intensidade de seu olhar a fazendo se sentir como um inseto sob uma lupa. "O seu mundo, Helena, está à beira do colapso. O meu pode salvá-lo. Ou destruí-lo completamente. A escolha, até agora, é sua." Ele pegou uma xícara de café, o vapor quente subindo em sua direção. "Mas eu tenho um prazo. E ele está se esgotando."
Helena sentiu o coração acelerar. Ele estava jogando com ela, usando a ameaça constante como moeda de troca. Mas ela sabia que não podia ceder ao medo. Precisava encontrar uma brecha, um ponto fraco.
"E o que você quer em troca da minha 'adaptação'?", ela perguntou, a voz firme, apesar do tremor interno. "Não me venha com promessas vazias, Lorenzo. Você não é esse tipo de homem."
Ele deu um gole no café, seus olhos fixos nos dela. "Sua lealdade, Helena. Sua confiança. Quero que você acredite em mim. Que confie em mim o suficiente para me deixar guiá-la por esse labirinto." Ele pousou a xícara, o som um eco no silêncio tenso. "E quero você."
A última frase pairou no ar como uma sentença. Helena sentiu o sangue gelar. Ela sabia, no fundo de sua alma, que ele a desejava. A noite anterior fora a prova disso. Mas ouvi-lo dizer aquilo, com a frieza calculista que lhe era peculiar, era diferente. Era uma posse.
"Você não entende", ela sussurrou, a voz embargada. "Eu não sou um objeto para ser possuído. Eu tenho minha própria vida, meus próprios sentimentos."
Lorenzo se aproximou novamente, sua presença avassaladora. Ele levantou a mão e, com a ponta dos dedos, tocou seu rosto, deslizando suavemente pela sua bochecha. Um gesto que, se fosse de outro homem, seria terno. Mas vindo dele, era uma marca.
"Eu entendo perfeitamente, Helena", disse ele, a voz baixa e perigosa. "E é exatamente por isso que quero você. Porque você é diferente. Porque você me desafia. Porque você me faz sentir algo que eu não sentia há muito tempo." Ele se inclinou, o hálito quente em seu rosto. "E porque, meu anjo, você é a chave. A chave para tudo que eu preciso."
Ela fechou os olhos por um instante, a confusão e o desejo lutando dentro dela. O homem que a ameaçava era o mesmo homem que a olhava com uma vulnerabilidade chocante, mesmo que velada. Ele era um paradoxo, um enigma, e ela estava perigosamente perto de se perder em sua complexidade.
"Eu não posso fazer isso, Lorenzo", ela disse, sua voz mal audível. "Eu não posso ser a sua... chave."
Ele riu, um som seco e sem humor. "Você já está sendo, Helena. A questão não é mais se você vai, mas como. E se você vai fazer isso lutando ou cooperando." Ele afastou a mão, a frieza retornando aos seus olhos. "Agora, tome seu café. Temos um dia longo pela frente. E o seu pai me espera para almoço."
A menção de seu pai a fez estremecer. A cada dia que passava, a teia se apertava. Ela estava presa entre a necessidade de proteger sua família e a atração perigosa de um homem que parecia determinado a possuí-la, em todos os sentidos da palavra. As fendas no muro de gelo que ela construíra ao redor de seu coração estavam se alargando, e ela temia o dia em que ele desmoronaria completamente.