A Escolha de Uma Máfia
Aqui estão os capítulos 16 a 20 de "A Escolha de Uma Máfia", escritos no estilo solicitado:
por Rodrigo Azevedo
Aqui estão os capítulos 16 a 20 de "A Escolha de Uma Máfia", escritos no estilo solicitado:
A Escolha de Uma Máfia Autor: Rodrigo Azevedo
Capítulo 16 — O Eco das Verdades
O ar no apartamento de Helena parecia ter ficado mais denso, pesado, carregado com o peso das palavras que acabavam de ser ditas. O silêncio que se instalou depois que Marco se afastou, a expressão de quem acabara de carregar o mundo nas costas, era mais ensurdecedor que qualquer grito. Helena o observava, o coração disparado, tentando processar a avalanche de informações que a atingiu como um tsunami. A verdade nua e crua sobre seu passado, sobre a origem de sua riqueza, sobre a teia de poder em que estava imersa sem sequer saber, a deixou atordoada.
“Você… você está me dizendo que tudo isso… meu pai… tudo isso…”, ela começou, a voz embargada, tentando encontrar um fio de lógica naquele labirinto de revelações. Seus olhos marejaram, mas ela lutava para não chorar, para não demonstrar a fragilidade que sentia naquele momento.
Marco assentiu lentamente, seus olhos azuis, antes tão duros e calculistas, agora refletindo uma dor profunda, uma melancolia que a fez sentir um aperto no peito. “Eu nunca quis que você soubesse assim, Helena. Mas as coisas… elas estão saindo do controle. E eu não podia mais mentir para você. Não depois de tudo o que aconteceu entre nós.”
Ele deu um passo à frente, hesitante, como se temesse o toque dela, a reação que ela pudesse ter. “Seu pai era um homem de visão, Helena. Ele construiu um império. E ele o fez com os nossos métodos. A nossa família… a Camorra… nós éramos os pilares desse império. E ele, um mestre em manipular todos os lados.”
Helena balançou a cabeça, ainda incrédula. “Mas… ele sempre me disse que era um homem de negócios honesto. Que lutou para construir tudo sozinho.”
“Honesto?”, Marco riu, um riso amargo que não alcançou seus olhos. “A honestidade é um luxo que poucos na nossa linha de vida podem se dar, Helena. Seu pai era astuto. Ele sabia como jogar o jogo. Ele usou a nossa influência, os nossos contatos, a nossa… proteção, para consolidar o seu poder. E ele pagou por isso. Pagou caro, e nos fez pagar junto.”
A memória de seu pai, um homem gentil e protetor, começou a se distorcer em sua mente. As lembranças felizes, os conselhos, os sorrisos… tudo parecia agora manchado por uma sombra sinistra. Ela sentiu uma onda de repulsa, uma necessidade de se afastar de tudo aquilo que ele representava, mas também um estranho sentimento de lealdade, de confusão.
“E você? O que você tem a ver com isso?”, ela perguntou, a voz ganhando um tom de acusação.
Marco suspirou, a respiração pesada. “Eu sou o herdeiro. Meu pai e o seu pai eram parceiros, rivais e, em última instância, um dependia do outro. Quando ele… quando seu pai se foi, o peso da nossa dívida recaiu sobre mim. E sobre você.”
“Dívida?”, Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. “Que dívida?”
“A dívida de sangue, Helena. A dívida de proteção. A dívida de lealdade. Nós o protegemos. Nós o ajudamos a construir. E ele nos devia. Quando um acordo é quebrado, quando as regras são desrespeitadas… as consequências são severas.” As palavras de Marco eram ditas com uma frieza calculada, mas Helena podia sentir a tensão em seus ombros, a luta interna que ele travava.
Ela se sentou no sofá, sentindo as pernas fracas. Aquele apartamento, que antes era seu refúgio, agora parecia uma gaiola dourada, construída sobre fundações de crimes e segredos. “Então… tudo o que eu tenho… é fruto de… isso?”
“Você tem o seu próprio mérito, Helena. A sua inteligência, a sua garra. Seu pai lhe deixou um legado, mas a Camorra garantiu que esse legado fosse preservado e expandido. E você, com o tempo, mostrou que é capaz de gerir isso. Talvez até melhor do que ele.” A admiração nos olhos de Marco era palpável, e por um instante, Helena esqueceu a magnitude da revelação.
“Mas por que agora, Marco? Por que me contar tudo isso agora?”
“Porque eu não posso mais fingir. Porque a nossa situação mudou. E porque…”, ele hesitou, seus olhos fixos nos dela. “Porque eu não quero mais mentir para você, Helena. Eu me importo com você. Mais do que deveria. E essa mentira… ela nos separa tanto quanto nos une.”
Helena sentiu uma pontada de dor. A confissão dele, tão sincera e vulnerável, a desarmou. Ela sabia que ele estava dizendo a verdade. Podia sentir isso em cada fibra do seu ser. A confiança que ela deposita nele, a atração que sentia, tudo parecia se intensificar naquele momento, misturado à amargura da verdade.
“E o que vai acontecer agora?”, ela sussurrou, a voz quase inaudível.
Marco se aproximou novamente, a mão estendida, mas sem tocá-la. “Agora, você tem uma escolha, Helena. Você pode se afastar de tudo isso, tentar viver uma vida longe do nosso mundo. Ou… você pode abraçar o que é seu. O que seu pai construiu. E o que nós protegemos.”
Seus olhos percorreram o rosto dela, a mandíbula tensa, a testa franzida. “Você é uma força da natureza, Helena. Sua inteligência, sua determinação… você tem o sangue de um lutador. E a Camorra… nós podemos ser aliados. Ou inimigos. A escolha, como sempre, é sua. Mas saiba que qualquer escolha que você fizer, eu estarei aqui.”
A última frase pairou no ar, carregada de promessa e perigo. Helena olhou para Marco, para o homem que lhe revelou verdades devastadoras, mas que também lhe ofereceu um caminho. O eco das palavras de Marco ressoava em sua mente, as verdades sobre seu pai, sobre a Camorra, sobre seu próprio destino. Ela estava em uma encruzilhada, e a decisão que tomaria agora moldaria não apenas seu futuro, mas também o dela e o de Marco. A realidade que ela conhecia havia se desfeito em mil pedaços, e agora, ela precisava juntar esses cacos e construir algo novo. E a sombra do desejo, que antes a consumia, agora se misturava à sombra da responsabilidade e da inevitabilidade.