A Escolha de Uma Máfia
Capítulo 4 — A Armadilha de Veneza
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 4 — A Armadilha de Veneza
A proposta de Alessandro Conti era tentadora e insidiosa. Ele sugeriu uma viagem a Veneza, uma cidade que Isabella sempre sonhou em conhecer, para discutir uma oportunidade de investimento que, segundo ele, poderia diversificar os ativos da família Rossi em um ramo mais “limpo” e lucrativo: o turismo de luxo. Era a chance de sair das sombras que pairavam sobre os negócios de seu pai, uma oportunidade de legitimar o nome Rossi.
Marco, surpreendentemente, concordou com a viagem. “Veneza é um bom lugar para se fazer negócios, Isabella. E Conti é um homem com quem vale a pena conversar. Ele tem contatos em lugares que nós nem imaginamos.” Havia uma ponta de cobiça na voz de Marco, um desejo de expandir o império para novos horizontes, talvez até para longe do Brasil.
Isabella, embora desconfiada das intenções de Conti, sentiu uma pontada de esperança. Talvez seu pai tivesse razão. Talvez fosse possível mudar o rumo da família. Ela aceitou a proposta, vendo a viagem como uma oportunidade de aprender mais sobre o mundo dos negócios e, talvez, de encontrar uma saída da teia em que se encontrava.
A viagem a Veneza foi deslumbrante. A cidade, com seus canais sinuosos, pontes românticas e arquitetura secular, parecia um sonho. Isabella, acompanhada por Marco e por Vincenzo, que fora designado para sua segurança, se sentiu transportada para outro mundo. Conti os recebeu com ostentação, hospedando-os em uma luxuosa villa à beira do Grande Canal.
Os dias foram preenchidos com reuniões em salões opulentos, jantares à luz de velas e passeios de gôndola sob o luar. Conti era um anfitrião impecável, sempre com um sorriso e uma palavra gentil. Ele apresentava a Isabella planos detalhados para a aquisição de hotéis de luxo e propriedades turísticas, prometendo retornos astronômicos e uma fachada impecável para os negócios Rossi.
“Imagine, Isabella”, disse Conti em uma noite, enquanto eles desfrutavam de um jantar com vista para a Ponte de Rialto. “A família Rossi, conhecida não mais pelas sombras, mas pelo brilho do luxo. Uma nova era. Uma nova reputação.”
Isabella se sentia dividida. A proposta era atraente, mas algo em Conti a incomodava. Havia uma frieza em seus olhos que nem mesmo seu sorriso conseguia disfarçar. E Marco, por outro lado, parecia cada vez mais entusiasmado com os planos de Conti, a ponto de se afastar um pouco de Isabella, mergulhado em conversas com o banqueiro.
“Ele é um bom homem, Isabella”, disse Marco em um momento de intimidade. “Ele sabe o que está fazendo. E o que ele propõe… é exatamente o que nosso pai precisava. Uma saída.”
“Uma saída para quem, Marco?”, Isabella perguntou, desconfiada. “Ou para onde?”
Marco apenas sorriu. “Para um futuro melhor, irmã. Para um futuro onde possamos prosperar sem ter que nos preocupar com os ‘pequenos roedores’ que mencionamos.”
A verdade, no entanto, era mais sombria do que Isabella imaginava. Certa noite, enquanto explorava a villa, ela encontrou uma porta escondida atrás de uma tapeçaria antiga. Curiosa, ela a abriu e se deparou com um escritório secreto, repleto de documentos e computadores. Ali, em meio a relatórios financeiros e listas de contatos, ela encontrou o verdadeiro plano de Alessandro Conti.
Não se tratava apenas de investimentos em turismo. Tratava-se de uma complexa operação de lavagem de dinheiro, utilizando as propriedades de luxo como fachada para disfarçar a origem ilícita de fundos de outras organizações criminosas. E o nome Rossi seria usado para dar credibilidade à operação, para atrair outros investidores e para camuflar a verdadeira natureza dos negócios de Conti.
Seu pai, Enrico Rossi, havia sido um obstáculo para Conti no passado, recusando-se a participar de tais esquemas. A morte de Enrico, para Conti, fora a oportunidade perfeita para usar a herdeira ingênua, Isabella, para seus próprios fins.
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Isabella. Ela percebeu que estava em uma armadilha. Conti não queria uma parceira, ele queria uma marionete. E Marco, cego pela ganância e pela promessa de um futuro mais fácil, estava caindo em cheio na armadilha.
Ela precisava sair dali. Precisava alertar Marco, embora soubesse que ele poderia não acreditar nela. E precisava se proteger. Ela sabia que Vincenzo era leal a seu pai, e por extensão, a ela.
Na manhã seguinte, Isabella decidiu agir. Ela procurou Vincenzo, com quem se sentia mais à vontade, confiando em sua discrição e lealdade.
“Vincenzo, preciso da sua ajuda. Encontrei algo… algo perigoso.”
Ela o levou até o escritório secreto e lhe mostrou os documentos. Vincenzo, apesar de sua impassibilidade habitual, demonstrou uma seriedade preocupante ao ler os papéis.
“Conti está nos usando, Vincenzo. Ele quer usar o nome Rossi para lavar dinheiro. Meu pai jamais teria concordado com isso.”
Vincenzo olhou para ela com intensidade. “O Don Enrico era um homem honrado, Signorina. Ele jamais se envolveria com esse tipo de sujeira. O senhor Conti é um traidor.”
“Precisamos sair daqui. E precisamos alertar Marco. Ele está sendo manipulado, Vincenzo. Ele acredita que isso é uma saída limpa, mas é uma armadilha.”
Vincenzo assentiu. “Eu farei o que for preciso para protegê-la, Signorina. E para honrar o nome do seu pai.”
Naquela noite, quando Conti os convidou para um último jantar de despedida, Isabella sentiu a tensão no ar. Marco estava mais animado do que nunca, falando sobre os próximos passos da aquisição de propriedades. Conti sorria, mas seus olhos pareciam fixos em Isabella, como se ele soubesse que ela havia descoberto algo.
Durante o jantar, Isabella fingiu aceitar os planos de Conti, mas sua mente estava em outro lugar. Ela sabia que precisava de um plano de fuga.
De repente, a porta da sala de jantar se abriu com violência. Eram policiais italianos, liderados por um homem de aparência severa e um distintivo brilhante. O pânico tomou conta da sala.
“Alessandro Conti, você está preso por lavagem de dinheiro e associação com o crime organizado!”, gritou o oficial.
Conti, pálido, tentou reagir, mas foi rapidamente detido. Marco, chocado, olhou para Isabella, um misto de confusão e traição em seus olhos.
“O que… o que você fez, Isabella?”
“Eu o expus, Marco. Ele estava usando a família Rossi. Ele ia nos destruir. Eu não podia deixar isso acontecer.”
Marco balançou a cabeça, incrédulo. “Você nos colocou em perigo! Essas pessoas… elas não brincam, Isabella! Agora eles sabem sobre nós!”
Vincenzo, agindo com rapidez, se aproximou de Isabella. “Signorina, precisamos ir. Agora. A polícia está aqui, mas Conti tem muitos contatos. Ele pode se livrar disso, ou pior, nos usar como bode expiatório.”
Enquanto o caos tomava conta da sala, Isabella, com a ajuda de Vincenzo, conseguiu escapar por uma porta lateral, deixando Marco para trás, atônito e sob a mira da polícia italiana. Eles correram pelas ruas de Veneza, o som das sirenes ecoando atrás deles.
Correram em direção ao canal, onde um pequeno barco motorizado os esperava. Era um plano improvisado, mas com a ajuda de Vincenzo e de contatos discretos que ele possuía, era a única chance.
Enquanto se afastavam da vila, olhando para trás, Isabella viu o caos. Ela não sabia o que aconteceria com Marco. Mas ela sabia que tinha feito a escolha certa, a escolha que honraria a memória de seu pai e protegeria o nome Rossi da ruína. A armadilha de Veneza havia sido desfeita, mas o preço que ela pagou foi alto. Ela havia perdido seu irmão, pelo menos por enquanto, e estava agora em fuga, com a máfia italiana e, possivelmente, outros inimigos em seu encalço.
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