A Escolha de Uma Máfia
A Escolha de Uma Máfia
por Rodrigo Azevedo
A Escolha de Uma Máfia
Autor: Rodrigo Azevedo
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Capítulo 6 — O Voo da Serpente
A noite em Nápoles descia como um véu pesado, tingido pelo aroma salgado do Mediterrâneo e pelo perfume adocicado das flores que teimavam em desabrochar em sacadas de ferro forjado. No topo do edifício imponente que dominava a paisagem urbana, o escritório de Don Corrado Russo era um santuário de poder e silêncio. A luz baixa das luminárias de bronze projetava sombras dançantes nas paredes revestidas de couro escuro, onde medalhões antigos contavam histórias de uma linhagem construída sobre sacrifícios e sangue.
Isabella, com o vestido de seda azul marinho escorregando levemente de um ombro, observava a cidade cintilante lá embaixo. Cada luz, um predador adormecido ou uma vítima inocente. Ela sentia o peso daquele lugar, a aura de perigo que emanava de cada canto, não apenas da arquitetura, mas das pessoas que o habitavam. E ele estava ali, a poucos metros de distância, um vulcão em repouso, sua presença uma força magnética que a atraía e a repelava simultaneamente.
Marco Russo, o primogênito, o herdeiro que carregava o fardo e a glória do nome, estava sentado à imponente mesa de mogno. Seus olhos, de um azul gélido que contrastava com o calor da noite napolitana, percorriam um documento em suas mãos. A testa franzida, a mandíbula tensa, ele emanava uma autoridade inata, moldada a ferro e fogo pelas leis não escritas da Camorra. Isabella sentia o seu olhar pousar sobre ela, um toque sutil, mas invasivo, que a fez estremecer.
“Então, minha querida Isabella,” a voz de Marco rompeu o silêncio, grave e polida como o aço de uma lâmina. “A ‘operação’ em Veneza… um desastre.”
Ele não esperou por uma resposta. Seus dedos tamborilavam levemente na madeira da mesa, um ritmo que denunciava a impaciência. “O informante nos traiu. A carga… perdida. E a tua reputação, que prometi proteger, agora está manchada pelo escândalo.”
Isabella engoliu em seco. A menção de Veneza trazia de volta a lembrança do frio cortante, do cheiro de água estagnada e da sensação avassaladora de ter sido enganada. Aquele encontro com Julian, o brilho traiçoeiro em seus olhos, a promessa de um amor que se revelou uma teia de mentiras. Ela sentiu uma pontada de raiva, uma faísca que tentou sufocar antes que se tornasse chama.
“Eu fiz o que pude, Marco,” disse ela, a voz firme, mas com um tremor quase imperceptível. “As circunstâncias foram… inesperadas. Julian era mais astuto do que eu supunha.”
Marco levantou-se, contornou a mesa lentamente, cada passo ecoando no silêncio opressor. Ele parou diante dela, seu olhar penetrante, como se pudesse ler os segredos de sua alma. Isabella ergueu o queixo, desafiando-o, mas sentindo-se pequena diante da sua proximidade.
“Astuto?”, ele riu, um som baixo e sem humor. “Ou talvez você estivesse distraída? Distraída com a beleza das pontes, com os canais, com o reflexo da lua na água… ou com a mão de um homem que não te ama de verdade?”
As palavras o atingiram como chicotadas. Isabella desviou o olhar, sentindo o rubor subir por suas bochechas. Era verdade. Ela se deixara levar, acreditara nas promessas vazias, na fachada de vulnerabilidade que Julian soubera construir tão bem. E agora, pagava o preço.
“Não se trata de Julian, Marco,” ela insistiu, tentando recuperar o controle. “Trata-se de um jogo sujo. Ele sabia que eu estaria lá. Alguém o avisou.”
Marco parou a poucos centímetros dela, seu hálito quente em seu rosto. “E quem você acha que seria capaz de tal traição, Isabella? Alguém que conhece os nossos movimentos? Alguém que tem acesso aos nossos planos?”
O silêncio se estendeu, denso, carregado de acusações não ditas. Isabella sabia que ele estava insinuando algo, algo que a envolvia diretamente. Ela era a única pessoa, fora do círculo íntimo de Don Corrado, que tinha acesso a certas informações. E o fato de ela ter se aproximado de Julian, de ter se deixado seduzir por ele, agora era visto como um elo fraco, uma brecha explorada.
“Você está me acusando, Marco?”, a voz dela era um sussurro rouco, cheio de dor e incredulidade.
“Estou apenas avaliando os fatos, Isabella”, ele disse, seu tom voltando a ser frio e calculista. “Você foi ingênua. E a ingenuidade, no nosso mundo, é um luxo que não podemos nos permitir. A Camorra não perdoa erros. Especialmente quando esses erros nos custam milhões e colocam a nossa segurança em risco.”
Ele se afastou, voltando para a cadeira. A tensão em seu corpo parecia diminuir um pouco, mas o olhar que ele lançou a ela era carregado de um aviso implícito.
“O que você fará agora?”, ela perguntou, a voz embargada.
Marco olhou para o teto, como se procurasse respostas nas estrelas distantes. “Eu vou garantir que quem quer que tenha planejado isso, pague. E você, Isabella… você terá que provar que ainda é valiosa para nós.”
Ele pegou um copo de uísque da bandeja que um garçom silencioso havia deixado sobre a mesa. O líquido âmbar brilhava sob a luz fraca.
“Meu pai está furioso. Ele confiou em você. E eu… eu subestimei o perigo que você representava para si mesma.” Ele tomou um gole longo, seus olhos fixos nela. “Mas ainda há tempo. Há uma oportunidade. Uma que pode restaurar a sua honra e a nossa confiança.”
Isabella se aproximou, a esperança florescendo em seu peito, frágil como uma pétala de rosa em meio a espinhos. “Que oportunidade, Marco?”
Ele sorriu, um sorriso sombrio que não alcançou seus olhos. “Lembra-se do nosso acordo? Você me pertence. E eu te darei um propósito. Um que exigirá toda a sua coragem, toda a sua inteligência… e talvez, toda a sua força de vontade.”
Ele se levantou e caminhou até a janela, com as costas voltadas para ela. O perfil recortado contra a noite napolitana era imponente e ameaçador.
“Há um homem. Um rival. Alguém que tem desafiado meu pai por tempo demais. Ele se chama Vincenzo Esposito. Ele opera no sul. Um verme que precisa ser extirpado. E você, Isabella… você será a minha serpente. Você vai se infiltrar no mundo dele. Descobrir seus planos. E quando a hora chegar… você o entregará nas minhas mãos.”
A tarefa era perigosa. Invadir o território de um rival poderoso, sem apoio direto, dependendo apenas de si mesma. Era um desafio que a fazia tremer, mas também acendia uma chama de determinação em seu interior. Ela precisava provar o seu valor. Precisava reconquistar o respeito de Marco e de Don Corrado.
“Eu aceito”, disse ela, a voz firme, sem hesitação.
Marco se virou, um brilho de aprovação em seus olhos. “Excelente. A partir de amanhã, você terá um novo disfarce. Um novo nome. E um novo objetivo. Ninguém deve saber quem você realmente é. Você é apenas uma mulher ambiciosa buscando uma chance. E essa chance… virá através de Vincenzo Esposito.”
Ele caminhou até ela novamente, e desta vez, seus dedos tocaram suavemente o seu queixo, erguendo-o para que seus olhares se encontrassem.
“Não me decepcione, Isabella. Porque se você falhar… o preço será ainda maior do que você pode imaginar.”
A promessa pairou no ar, um presságio sombrio. Isabella sentiu o ar rarefeito em seus pulmões, o peso da nova missão caindo sobre seus ombros. Ela era uma serpente agora, pronta para rastejar nas sombras, aguardando o momento certo para atacar. A Escolha de Uma Máfia a havia escolhido, e ela não tinha mais volta.
O voo da serpente estava prestes a começar.