A Escolha de Uma Máfia
Capítulo 9 — O Coração da Besta
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 9 — O Coração da Besta
O silêncio do apartamento de Isabella era opressor. A cidade lá fora, um mar de luzes cintilantes, parecia alheia à tempestade que se formava em seu interior. O convite de Vincenzo Esposito para se juntar a ele contra os Russo reverberava em sua mente como um trovão. Era uma tentação perigosa, a promessa de poder em um mundo onde ela sempre fora vista como uma peça a ser movida.
Ela se sentou à mesa de centro, o cartão de Vincenzo em suas mãos. O toque do papel parecia queimar sua pele. Marco havia confiado nela, a encarregado de uma missão. Agora, ela tinha em suas mãos a informação que poderia destruir uma facção poderosa da Camorra, mas também a oferta de uma aliança com um dos rivais mais perigosos da família Russo.
As horas se arrastavam, cada minuto pesando como uma eternidade. Ela revivia as memórias de Veneza, a frieza dos olhos de Julian, a humilhação de ter sido usada. E pensava em Marco, em sua frieza calculista, na forma como ele a via como uma propriedade. Ela não queria mais ser propriedade de ninguém.
A porta se abriu com um estrondo, quebrando o silêncio denso. Marco entrou, seus olhos escuros faiscando de raiva. Ele parecia ter adivinhado que algo estava errado. Sua presença preenchia o espaço, uma aura de perigo latente.
“Onde você esteve, Isabella?”, ele perguntou, a voz baixa e ameaçadora. “Eu tentei te ligar. Você não respondeu.”
Isabella levantou a cabeça, seu olhar encontrando o dele. A hesitação havia desaparecido. Em seu lugar, havia uma determinação fria.
“Estive ocupada, Marco”, ela disse, a voz calma, mas firme.
Marco se aproximou, seus olhos fixos nos dela. Ele percebeu a mudança em sua postura, a firmeza em seu olhar. “Ocupada com o quê, Isabella? Com quem?”
Ela se levantou, o cartão de Vincenzo ainda em sua mão. Ela o estendeu para ele.
“Com o seu inimigo, Marco. Com Vincenzo Esposito.”
O rosto de Marco se contraiu em uma máscara de fúria. “Você o encontrou? O que ele disse?”
“Ele me fez uma proposta, Marco”, Isabella respondeu, sua voz ecoando no silêncio. “Uma proposta para me juntar a ele. Para trair você e seu pai.”
O ar ficou carregado. Marco a agarrou pelo braço, seus dedos apertando com força.
“Você não ousaria, Isabella! Você não se atreveria a nos trair!”
“Eu não estou traindo ninguém, Marco”, ela disse, puxando o braço com força. “Eu estou escolhendo o meu caminho. Eu não sou mais um brinquedo nas mãos de vocês. Eu não sou mais um peão.”
Seus olhos encontraram os dele, e ela viu nele um lampejo de surpresa, talvez até de respeito. Ele sabia que ela falava a verdade.
“Vincenzo me ofereceu poder, Marco. Ele me ofereceu um futuro onde eu não seja apenas a escolha de uma máfia, mas a dona do meu próprio destino.”
Marco soltou seu braço, um suspiro pesado escapando de seus lábios. Ele começou a andar de um lado para o outro, a tensão visível em cada movimento.
“Você não sabe com quem está se metendo, Isabella. Vincenzo é um lobo em pele de cordeiro. Ele vai te usar e te descartar como se fosse nada.”
“Eu sei disso, Marco”, ela respondeu, a voz embargada pela emoção. “Mas eu também sei que eu não quero mais viver na sombra de vocês. Eu quero lutar. Eu quero construir algo meu.”
Ela o encarou, a coragem a impulsionando. “Você me pediu para provar meu valor. E eu vou provar. Mas não do jeito que você quer. Eu vou provar que Isabella pode ser mais do que a escolha de uma máfia. Eu posso ser a escolha dela mesma.”
Marco parou de andar e a olhou, um brilho nos olhos que ela não conseguia decifrar.
“O que você vai fazer agora?”, ele perguntou, a voz mais calma.
“Eu vou aceitar a oferta de Vincenzo”, ela disse, sentindo o peso da decisão. “Mas não para destruí-lo. Eu vou aceitar para aprender. Para entender o coração da besta. E quando eu tiver aprendido o suficiente… eu farei a minha jogada.”
Um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Marco. Era um sorriso sombrio, mas com um toque de admiração genuína.
“Você é corajosa, Isabella. Talvez até demais. Mas eu respeito a sua escolha. Se você vai dançar com o diabo, pelo menos faça isso com estilo.”
Ele se aproximou dela, e desta vez, o toque em seu rosto foi suave.
“Não se esqueça de quem você é, Isabella. E não se esqueça de quem eu sou. O mundo é um lugar perigoso. E você acabou de entrar no campo de batalha.”
Ele se afastou, pegou seu casaco e se virou para a porta.
“Boa sorte, Isabella. Você vai precisar.”
Ele saiu, deixando-a sozinha no silêncio opressor. Isabella sentiu um nó na garganta, mas também uma onda de alívio. Ela havia feito a sua escolha. Ela não era mais uma vítima, mas uma jogadora.
Ela pegou o telefone e discou o número de Vincenzo Esposito. Sua voz, quando atendeu, era calma e confiante.
“Vincenzo, sou eu, Elena. Eu tomei a minha decisão.”
Uma pausa. E então, a voz dele, cheia de um triunfo contido.
“Eu sabia que você faria a escolha certa, Elena. Bem-vinda ao meu mundo.”
Isabella fechou os olhos, sentindo a adrenalina correr em suas veias. Ela estava prestes a entrar no coração da besta. E ela sabia que, para sobreviver, teria que se tornar uma predadora. A Escolha de Uma Máfia a havia levado a este ponto. Agora, era hora de escolher a si mesma.