O Beijo do Lobisomem
Aqui estão os capítulos 11 a 15 de "O Beijo do Lobisomem", escritos no estilo de um romancista brasileiro de best-sellers:
por Nathalia Campos
Aqui estão os capítulos 11 a 15 de "O Beijo do Lobisomem", escritos no estilo de um romancista brasileiro de best-sellers:
Capítulo 11 — O Despertar da Maldição e o Sussurro do Destino
A luz prateada da lua cheia, que outrora banhava o Santuário da Lua Prateada em um brilho etéreo, agora parecia gélida, cruel. O ritual fora concluído, a canção ancestral ecoara entre as árvores, e o ar se impregnara de uma energia ancestral. Mas algo estava errado. A libertação prometida não chegara, apenas uma agonia crescente que se instalava nas entranhas de Helena. A dor irradiava de seus ossos, um latejar profundo que a fazia curvar-se, ofegante. A marca em sua pele, antes um leve tom avermelhado, agora pulsava com um vermelho vibrante, quase negro sob a luz lunar.
“Não… isso não pode ser”, ela murmurou, a voz embargada pelo sofrimento. Seus dedos tremiam ao tocar a pele ardente em seu antebraço. As palavras de Dona Aurora, os avisos sussurrados nas noites de vigília, ecoavam em sua mente como um presságio sombrio. O ritual, destinado a quebrar a maldição, parecia ter acendido um pavio, um fogo que ameaçava consumi-la por dentro.
Ao seu lado, Daniel a observava com desespero nos olhos. Ele sentia a angústia dela, a energia caótica que emanava de seu corpo. Aquele brilho febril em seus olhos, antes um sinal de força vital, agora era um reflexo perturbador de uma força descontrolada. Ele havia depositado todas as suas esperanças naquele ritual, acreditando que finalmente trariam paz para Helena e para a história de sua família.
“Helena, o que está acontecendo?”, ele perguntou, a voz rouca de preocupação. Tentou segurar a mão dela, mas ela se afastou instintivamente, como se o toque dele pudesse intensificar a dor.
“Eu… eu não sei, Daniel”, ela respondeu, a respiração superficial. “É como se… como se algo estivesse se contorcendo dentro de mim. Uma fome… uma fúria…” Ela não conseguia encontrar as palavras certas para descrever o tormento que a dominava. Era mais do que dor física; era uma metamorfose brutal, uma força primal despertando sem controle.
De repente, um grito agudo rasgou o silêncio da floresta. Não era um grito humano. Era um uivo gutural, animalesco, que parecia vir de dentro de Helena. Seus olhos se arregalaram, a pupila dilatada, e por um instante, Daniel viu algo selvagem, faminto, dançando em seu olhar. Era um vislumbre fugaz, mas aterrador, da besta que espreitava sob a pele da mulher que ele amava.
“Não é possível…”, Daniel sussurrou, o corpo paralisado pelo horror. A lua, antes sua aliada, agora parecia um juiz implacável, testemunhando a ascensão de uma nova tragédia. Ele se lembrou das histórias que sua avó contava, dos lobos solitários que vagavam pela noite, das lendas de humanos transformados em feras indomáveis. Mas aquilo era Helena. A Helena doce, gentil, que ele conhecia. Como ela poderia se tornar… aquilo?
Helena cambaleou para trás, o corpo tremendo violentamente. Ela podia sentir a pele se esticando, os ossos se realinhando em uma dor lancinante. Um pelo escuro e áspero começou a brotar em seus braços, em seu rosto. Seus dentes pareciam mais afiados, sua mandíbula se projetava sutilmente. Ela lutava contra a transformação, contra a escuridão que a envolvia, mas a força da maldição era avassaladora.
“Daniel… fuja…”, ela conseguiu dizer, a voz já distorcida, rouca, com um timbre que não era inteiramente humano. Era um apelo desesperado, um último resquício de consciência lutando contra a fera.
Daniel não se moveu. O amor que sentia por Helena o prendia ali, desafiando o instinto de autopreservação. Ele não a abandonaria. Não agora. Ele viu o desespero em seus olhos, a luta interna, e soube que precisava fazer algo. Mas o quê? Ele era apenas um homem, e ela estava se tornando algo terrivelmente diferente.
A transformação continuou, implacável. Seus membros se alongaram, sua coluna se curvou. As unhas engrossaram e se curvaram, tornando-se garras afiadas. O rosto se distorceu, o focinho se alongou. O vestido de linho branco, antes um símbolo de pureza, agora se rasgava sob a expansão de seu corpo musculoso.
Um novo uivo, mais longo e mais potente, ecoou pela floresta, desta vez um som de angústia e desespero. Helena, ou o que restava dela naquele momento, caiu de joelhos, rugindo de dor e confusão. O ritual não a libertou; ele a selou, intensificando a maldição ancestral que Dona Aurora tentara combater.
Daniel se aproximou cautelosamente, o coração martelando no peito. O cheiro de terra molhada, de medo e de uma presença selvagem emanava dela. Ele via os olhos dela, agora de um dourado intenso, fixos nele. Havia um lampejo de reconhecimento, de sofrimento, mas também uma fome primal que o arrepiou.
“Helena, sou eu, Daniel”, ele disse, a voz firme, embora trêmula. Ele estendeu a mão novamente, desta vez com uma oferenda de coragem e amor, não de medo. “Eu estou aqui. Eu não vou a lugar nenhum.”
Ela se encolheu com o som de sua voz, um rosnado baixo vibrando em sua garganta. A fera a controlava, mas fragmentos da Helena ainda resistiam, presos em um pesadelo. Ela se virou, a figura grotesca e assustadora sob a luz da lua, e com um movimento rápido, desapareceu na escuridão da floresta, deixando Daniel sozinho, com o eco do uivo e a certeza aterradora de que o pior estava apenas começando.
Daniel correu atrás dela, mas a escuridão da mata era um labirinto impenetrável. Ele chamava o nome dela, mas apenas o farfalhar das folhas e os sons noturnos respondiam. Ele sentiu o peso do desespero esmagá-lo. O amor que os unia, a busca pela verdade, tudo parecia ter levado a um abismo sem fim. Ele sabia que Helena estava em perigo, e que agora, mais do que nunca, ele precisava encontrar uma nova forma de ajudá-la, de salvá-la da besta que a consumia. A maldição, afinal, não fora quebrada. Ela apenas havia encontrado um novo e terrível hospedeiro.
O dia seguinte amanheceu nublado, como se o próprio céu chorasse a tragédia da noite. Daniel vagou pela floresta, um rastro de desesperança em seu rastro. Ele sabia que precisava de respostas, de um novo caminho. O Santuário da Lua Prateada, outrora um lugar de esperança, agora parecia um túmulo de sonhos desfeitos. Ele olhou para a cabana de Dona Aurora, a fumaça subindo preguiçosamente da chaminé. Ela seria a única a saber o que fazer. O ritual, a maldição, o despertar da fera… tudo apontava para as antigas sabedorias que ela guardava.
Com passos pesados, ele se dirigiu à cabana, o coração pesado com a incerteza. O beijo do lobisomem havia se manifestado de uma forma brutal e inesperada. A maldição não o havia afetado diretamente, mas agora ele era o guardião da mulher que ele amava, e precisava protegê-la da criatura que ela se tornara. A floresta, antes um lugar de mistério e romance, agora era um palco de terror, e ele estava preso em meio a ele, com um amor que desafiava a própria natureza.