O Beijo do Lobisomem

Capítulo 13 — O Rastro na Escuridão e o Encontro no Limiar

por Nathalia Campos

Capítulo 13 — O Rastro na Escuridão e o Encontro no Limiar

A floresta, sob a luz fraca da lua crescente, tornara-se um labirinto de sombras e sussurros. Daniel adentrou-a com o diário de sua avó em uma mão e a determinação em seu coração. Cada galho que estalava sob seus pés, cada farfalhar na folhagem, fazia seu coração disparar. Ele sabia que Helena estava em algum lugar ali, perdida na escuridão de sua própria transformação. Ele não sabia o que encontraria, mas a imagem de seus olhos, outrora cheios de vida e agora tingidos de desespero, o impulsionava.

Ele seguiu os instintos, buscando sinais de sua passagem. Uma marca na casca de uma árvore, um rastro de pegadas mais profundas na terra úmida, um cheiro sutil de algo selvagem e familiar. A cada descoberta, uma pontada de esperança misturada a um medo crescente. Ele não estava apenas procurando por Helena; estava entrando no território da fera.

Enquanto avançava, as lembranças das histórias de Dona Aurora ecoavam em sua mente. A maldição não era apenas uma doença, mas uma herança, uma força primal. O diário de sua avó falava de abraçar a sombra, de dançar com ela. Mas como dançar com uma fera faminta e descontrolada? A resposta, ele sabia, residia em seu amor. Era a única arma que ele possuía contra a escuridão que consumia Helena.

Após horas de busca, ele chegou a uma clareira isolada, um lugar onde as árvores pareciam se curvar em reverência à lua. No centro, a grama estava amassada, como se algo grande e pesado tivesse se contorcido ali. Um cheiro forte de animal pairava no ar, misturado a um odor metálico de sangue fresco. Daniel sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele sabia que estava perto.

Ele se ajoelhou, examinando o local com atenção. Havia vestígios de pelos escuros e grossos, e marcas de garras profundas na terra. Era a evidência inegável da transformação de Helena. Ele olhou em volta, o coração batendo forte contra as costelas. De repente, um som baixo e gutural chamou sua atenção. Vinha de uma densa moita de samambaias, próximo a um velho tronco caído.

Com a respiração presa, Daniel se aproximou. Ele pôde ver um movimento sutil sob as folhas. A figura estava encolhida, as costas curvadas, um emaranhado de pelos escuros e pele exposta. Era Helena, mas não a Helena que ele conhecia. Era uma visão aterradora e, ao mesmo tempo, de uma beleza selvagem. As linhas de seu corpo, agora mais fortes e musculosas, exalavam uma força primal.

“Helena?”, ele chamou baixinho, a voz embargada.

A figura se virou lentamente. Seus olhos, agora de um dourado intenso e brilhante, fixaram-se nele. Havia um lampejo de reconhecimento, um sofrimento profundo, mas também uma fome que o fez recuar instintivamente. Um rosnado baixo vibrou em sua garganta, um aviso claro.

Daniel ergueu as mãos, mostrando que não representava ameaça. Ele se sentou devagar, a uma distância respeitosa. “Eu sei que você está com medo, Helena. Eu sei que dói. Mas eu estou aqui. Eu não vou te machucar.”

Ela soltou um gemido, um som que parecia uma mistura de dor e frustração. O corpo dela tremeu, e ele pôde ver a luta em seus olhos. A fera a controlava, mas fragmentos da Helena ainda resistiam, presos em um pesadelo.

“Eu tenho o diário da minha avó”, Daniel continuou, a voz suave e calma. Ele pegou o livro, mostrando-o a ela. “Ela entendia essa força. Ela sabia como lidar com ela. Há um caminho, Helena. Um caminho para você recuperar o controle.”

Helena inclinou a cabeça, observando o livro com uma curiosidade cautelosa. O rosnado diminuiu, substituído por um suspiro trêmulo. Ela parecia cansada, exausta pela luta interna.

“Você não é uma aberração, Helena”, Daniel disse, as palavras saindo com convicção. “Você é forte. Essa força está em você. Ela faz parte de quem você é. Podemos aprender a canalizá-la, a usá-la em vez de sermos consumidos por ela.” Ele se lembrou das palavras do diário: “Abraçar a sombra, dançar com ela.”

Ele se levantou devagar e se aproximou um pouco mais. “Eu não quero te ver sofrer, Helena. Eu quero te ajudar. Eu te amo, e o meu amor por você é mais forte do que qualquer maldição.”

Ele estendeu a mão, lentamente, oferecendo-a para ela. Por um longo momento, nada aconteceu. Helena o observou, seus olhos dourados fixos nos dele, uma mistura de desconfiança e um anseio desesperado. Então, com um movimento hesitante, ela estendeu sua própria mão.

Sua pele era quente e áspera, coberta por uma fina camada de pelo. Suas unhas estavam grossas e curvas, mas não afiadas como garras. Daniel segurou sua mão com firmeza, sentindo a energia vibrante que emanava dela. Era uma conexão primal, crua, mas não aterrorizante.

Ela apertou a mão dele, um gesto de confiança frágil. Um soluço escapou de seus lábios, e lágrimas começaram a rolar por seu rosto, misturando-se com os pelos em suas bochechas. Daniel a puxou gentilmente para um abraço, um abraço apertado, cheio de amor e compreensão. Ele sentiu o corpo dela tremer contra o seu, a fera dentro dela reagindo à sua proximidade, mas também à sua aceitação.

“Vai ficar tudo bem, Helena”, ele sussurrou em seu ouvido, a voz carregada de emoção. “Vamos passar por isso juntas. Juntos.”

Eles permaneceram ali, abraçados sob a luz fria da lua, a criatura e o homem, unidos por um amor que desafiava a própria natureza. A fera ainda estava presente, mas pela primeira vez, parecia menos uma ameaça e mais uma parte integrante dela. O limiar da transformação havia sido cruzado, e agora, com o apoio de Daniel, Helena tinha a chance de encontrar um novo equilíbrio, uma nova forma de ser. A noite ainda era longa, e a jornada para o controle estava apenas começando, mas ali, no coração da floresta escura, um raio de esperança havia sido aceso.

Daniel ajudou Helena a se levantar. Ela ainda estava desorientada, mas a presença dele parecia ancorá-la. Ele a guiou para fora da moita, para um local mais aberto na clareira, onde a luz da lua incidia com mais intensidade. Ele a sentou em um tronco caído, e sentou-se ao lado dela, segurando sua mão.

“Precisamos nos preparar para o ritual de equilíbrio”, ele disse, a voz firme. “Dona Aurora me contou sobre ele. É um ritual que vai te ajudar a harmonizar a força dentro de você. Mas precisa ser feito com a lua cheia.”

Helena olhou para ele, seus olhos dourados um pouco mais calmos agora. Ela parecia estar reunindo suas forças. “Eu… eu lembro de algumas coisas. De um chamado… uma fome…” Sua voz era rouca, mas mais clara do que antes.

“Eu sei. Mas essa fome não precisa te controlar. Podemos direcioná-la. Sua avó… ela passou por isso. E ela encontrou um jeito.” Daniel abriu o diário, mostrando-lhe as passagens que falavam sobre aceitação e controle.

Helena percorreu as páginas com o olhar, sua respiração se tornando mais profunda e regular. A cada palavra lida, uma centelha de esperança parecia acender em seus olhos. A ideia de não ser apenas uma vítima da maldição, mas de poder entendê-la e controlá-la, parecia ser um bálsamo para sua alma atormentada.

“É… é possível?”, ela sussurrou, a voz cheia de uma nova fragilidade, misturada a um vislumbre de força.

“É possível”, Daniel respondeu com convicção. “Mas você precisará ser forte, Helena. Muito forte. E eu estarei com você, a cada passo. Eu não vou te deixar sozinha.”

Ele olhou para o céu, notando que a lua, embora ainda não cheia, estava crescendo em intensidade. Havia uma urgência em suas ações, uma necessidade de agir antes que a fera tomasse o controle novamente. Ele sabia que precisava levá-la para um local seguro, onde pudessem se preparar para o ritual. A cabana de Dona Aurora era o lugar mais lógico, mas a viagem seria perigosa, com Helena em seu estado atual.

“Precisamos voltar”, Daniel disse. “Precisamos nos preparar. Dona Aurora tem os conhecimentos necessários.”

Helena assentiu. Ela tentou se levantar, mas suas pernas ainda estavam fracas. Daniel a ajudou, passando um braço em volta de sua cintura. Ela se apoiou nele, seu corpo ainda exibindo a força bruta da transformação, mas agora sob o controle de sua vontade.

Enquanto caminhavam de volta pela floresta, a atmosfera parecia ter mudado. A escuridão não era mais tão ameaçadora. A presença de Helena, antes uma fonte de terror, agora era um mistério a ser desvendado. Daniel sentiu uma conexão profunda com ela, uma união forjada no fogo da adversidade. Ele sabia que o caminho à frente seria desafiador, cheio de incertezas, mas o amor que sentia por Helena o impulsionava, transformando o medo em uma determinação inabalável. O beijo do lobisomem havia sido o catalisador para uma nova realidade, e agora, juntos, eles enfrentariam o destino.

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