O Beijo do Lobisomem

Capítulo 14 — A Preparação do Ritual e o Sussurro das Sombras

por Nathalia Campos

Capítulo 14 — A Preparação do Ritual e o Sussurro das Sombras

O retorno à cabana de Dona Aurora foi um prenúncio da jornada que tinham pela frente. Helena, ainda exibindo os traços da transformação, caminhava com uma força recém-descoberta, apoiada em Daniel. A presença dela, antes marcada pelo terror, agora emanava uma energia selvagem, uma força latente que Dona Aurora pôde sentir assim que abriram a porta.

“A lua tem sido generosa em suas revelações”, Dona Aurora disse, seu olhar fixo em Helena. Havia um misto de preocupação e admiração em sua expressão. Ela viu a luta nos olhos da jovem, mas também a centelha de esperança que Daniel havia reacendido. “Vejo que encontraram um caminho, mesmo que temporário.”

“Ainda não é o controle, Dona Aurora”, Daniel respondeu, a voz cansada, mas firme. “Mas ela… ela está lutando. E eu tenho o diário de sua avó. Ele fala sobre um ritual de equilíbrio.”

Dona Aurora assentiu, um leve sorriso surgindo em seus lábios. “O ritual de equilíbrio. Sim. Foi o caminho que minha avó encontrou para conviver com a fera. É um ritual complexo, que exige não apenas a vontade do hospedeiro, mas também a força de um ente querido que possa servir de âncora.” Ela olhou para Daniel, e ele sentiu o peso da responsabilidade em seus ombros. “Esse ente querido é você, Daniel.”

Os dias que se seguiram foram de intensa preparação. A cabana de Dona Aurora se transformou em um santuário de aprendizado e cura. Helena, com a ajuda de Daniel e Dona Aurora, começou a mergulhar nos segredos da maldição. Ela passava horas estudando o diário, aprendendo sobre os ciclos lunares, sobre as energias que regiam a transformação. A cada dia, ela parecia recuperar um pouco mais de sua lucidez, embora os traços da fera ainda estivessem presentes em sua pele, em seus olhos.

Dona Aurora ensinou a Helena técnicas de meditação e visualização, para que ela pudesse aprender a se conectar com a fera sem ceder ao seu domínio. “A fera não é um monstro a ser temido, Helena”, ela explicava pacientemente. “É uma parte de você, uma força primordial que precisa ser compreendida e guiada. Ela representa sua força, sua intuição, seus instintos mais profundos.”

Daniel, por sua vez, era a âncora. Ele passava longas horas ao lado de Helena, oferecendo suporte emocional, ouvindo seus medos e anseios. Ele a ajudava a praticar os exercícios, a se concentrar, a visualizar a energia da fera fluindo por ela, em vez de consumi-la. Era um trabalho árduo, que exigia paciência e um amor inabalável.

“Eu ainda tenho medo, Daniel”, Helena confessou uma noite, enquanto observavam a lua crescente no céu. Sua voz ainda carregava um resquício da rouquidão que a transformação trouxera. “Às vezes, sinto a fúria subir, a vontade de soltar tudo e apenas… ser a fera.”

Daniel a abraçou, sentindo o corpo dela ainda um pouco mais robusto, mais forte. “Eu sei. Mas você não está sozinha nisso. Lembre-se do que Dona Aurora disse. A fera é parte de você, mas você é mais do que a fera. Você é Helena. A Helena que eu amo.” Ele a segurou firme, transmitindo sua força e seu amor. “E eu vou te ajudar a lembrar disso, todos os dias.”

Enquanto isso, Dona Aurora reunia os ingredientes para o ritual de equilíbrio. Ervas raras, cristais que capturavam a luz da lua, um pequeno amuleto de prata que fora de sua avó. Cada item tinha um propósito específico, cada gesto era carregado de significado ancestral. Ela explicava a Daniel e Helena a importância de cada elemento, a energia que cada um trazia para a harmonização.

“O ritual da minha avó não busca erradicar a maldição, mas integrá-la”, Dona Aurora explicou, enquanto preparava um unguento com ervas aromáticas. “Ele nos ensina a encontrar o equilíbrio entre a humanidade e a selvageria, entre a razão e o instinto. É uma dança delicada, que exige foco e serenidade.”

Um dia, enquanto buscavam uma erva rara na beira da floresta, Daniel e Helena tiveram um encontro perturbador. Um grupo de caçadores, que raramente se aventurava por aquelas terras remotas, surgiu em seu caminho. Seus olhares eram desconfiados, e seus cachorros começaram a latir, sentindo a energia incomum que emanava de Helena.

“Quem são vocês? O que fazem por aqui?”, um dos caçadores perguntou, com a mão no coldre de sua espingarda.

Daniel se colocou à frente de Helena, tentando manter a calma. “Somos apenas visitantes. Estamos colhendo algumas ervas.”

Mas os olhos do caçador fixaram-se em Helena, notando os traços incomuns de sua transformação. “Essa mulher… ela tem algo diferente. Alguma doença estranha?”

Helena sentiu um arrepio de medo, a fera dentro dela reagindo à ameaça. Daniel percebeu a tensão e interveio. “Ela está se recuperando de uma doença. Por favor, nos deixem em paz.”

O caçador, porém, não parecia convencido. Ele olhou para os cachorros, que rosnaram ameaçadoramente na direção de Helena. “Há algo errado aqui. Vocês não deveriam estar por essas bandas.”

Daniel sabia que um confronto seria perigoso, especialmente com Helena em seu estado. Ele pegou a mão dela, sentindo a energia nervosa que percorria seu corpo. “Vamos, Helena. É melhor irmos.”

Eles se afastaram rapidamente, deixando os caçadores para trás, mas a tensão no ar permaneceu. Helena sentiu a adrenalina correr em suas veias, um eco da fera que se sentia ameaçada. “Eles sentiram algo em mim, Daniel”, ela disse, a voz tensa.

“Eu sei. Mas não se preocupe. Estamos seguros agora. E logo, teremos o ritual. Você estará mais forte, mais no controle.” Daniel a abraçou, tentando acalmá-la. Ele sabia que a jornada para a aceitação da fera não era apenas interna, mas também exigiria cuidado e discrição do mundo exterior.

Naquela noite, enquanto a lua se aproximava de sua plenitude, Helena teve um sonho vívido. Ela se via na floresta, dançando sob a luz prateada. A fera estava com ela, mas não era mais um pesadelo. Era uma companheira, uma força que a impulsionava, que a tornava mais forte. Ela sentia a liberdade em seus movimentos, a alegria em sua selvageria. Ao acordar, sentiu uma paz que não experimentava há muito tempo.

“Eu acho que eu entendi, Daniel”, ela disse para ele, que estava dormindo em uma cadeira ao lado de sua cama. “O ritual não é para aprisionar a fera, mas para libertar a mim mesma. Para que eu possa ser quem eu sou, com tudo isso.”

Daniel acordou, um sorriso no rosto. Ele via a esperança brilhando nos olhos de Helena, uma esperança que ele havia ajudado a plantar. A lua cheia estava a apenas um dia de distância, e eles estavam prontos. A preparação havia sido longa e árdua, mas o momento crucial se aproximava. A floresta, antes um lugar de medo e incerteza, agora se tornava o palco onde a batalha pela alma de Helena seria travada, não com violência, mas com aceitação e amor.

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