O Beijo do Lobisomem
O Beijo do Lobisomem
por Nathalia Campos
O Beijo do Lobisomem
Autor: Nathalia Campos
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Capítulo 16 — A Fúria Despertada e a Promessa Quebrada
O ar da noite, antes carregado com o perfume adocicado da floresta sob a lua cheia, agora estalava com uma eletricidade visceral. O corpo de Lúcia, antes frágil e abalado pelo desespero, parecia vibrar com uma força desconhecida. A transformação de Rafael, tão brutal e assustadora, não a havia quebrado, mas sim forjado em aço. Seus olhos, que antes refletiam o terror, agora ardiam com uma determinação feroz. As palavras de Rafael, o lobisomem que ela amava e temia, ecoavam em sua mente como um trovão distante: "Fuja, Lúcia! Fuja para sempre!" Mas para onde fugir quando o perigo estava encarnado na criatura que se contorcia diante dela, presa nas correntes que ela mesma havia providenciado?
O lobisomem uivou, um som que rasgava o silêncio da clareira e a própria alma de Lúcia. As correntes, feitas de ferro forjado e abençoadas com rituais antigos, estalavam, mas pareciam ceder ao poder bruto da fera. Sangue escorria de seus pulsos, misturando-se à terra úmida, um sacrifício involuntário à sua própria natureza. A lua, imponente e indiferente, banhava a cena em sua luz prateada, iluminando os músculos retesados sob a pele rasgada, os dentes afiados que se mostravam em um rosnado gutural, os olhos vermelhos incandescentes que buscavam Lúcia com uma mistura aterradora de ódio e dor.
Lúcia deu um passo para trás, o coração batendo descompassado no peito. O cheiro de sangue e pelo molhado atingiu suas narinas, um aroma selvagem que deveria lhe causar repulsa, mas que, de alguma forma, a atraía para o abismo. Ela sabia que a força da fera era incalculável, especialmente em sua forma completa, sob o domínio da lua cheia. As correntes eram um paliativo, um breve adiamento do inevitável. Mas ela não podia simplesmente abandoná-lo. Não depois de tudo. Não depois do que vira em seus olhos antes da transformação, não depois da promessa que sentiu no toque de sua mão.
"Rafael!", ela gritou, a voz embargada pela emoção e pelo medo. "Rafael, sou eu! Lúcia!"
O lobisomem parou por um instante, a cabeça se erguendo como se buscasse reconhecer a voz. Um gemido baixo escapou de sua garganta, um som mais de sofrimento do que de ameaça. Por um breve momento, a fera pareceu hesitar, a humanidade em seus olhos lutando contra a besta. Mas a lua era poderosa, e a fome ancestral era mais forte. A hesitação durou apenas um segundo, um piscar de olhos na eternidade da noite. Em seguida, a fúria tomou conta novamente.
Com um rugido que fez o chão tremer, o lobisomem se lançou contra as correntes. O metal rangeu com um som agudo e desesperado. Lúcia observou, paralisada, enquanto uma das correntes cedia, o elo rompido com a força de um raio. Pânico a atingiu. Ele estava se libertando. E ela estava ali, sozinha, uma frágil humana diante da mais pura força destrutiva.
Ela lembrou-se do diário de Dona Aurora. As anotações sobre a lua, sobre a necessidade de contenção, sobre os perigos da perda de controle. Havia algo mais, algo que ela havia ignorado na pressa de encontrar uma solução. A palavra "antídoto" pairava em sua mente, obscurecida pela urgência do ritual. Ela havia se concentrado em manter a fera sob controle, mas não em revertê-la. Havia falhado em sua missão mais crucial.
Enquanto a segunda corrente começava a ceder, um brilho metálico atraiu seu olhar. A faca de caça de seu pai, que ela havia trazido consigo como um último recurso desespero, repousava em seu cinto. Uma ideia descabida, nascida do pânico e da esperança, surgiu em sua mente. E se a força da fera pudesse ser... canalizada? E se o sangue que ele derramava pudesse ser usado contra ele?
"Não!", ela gritou novamente, avançando um passo. "Não faça isso, Rafael! Lembre-se de nós!"
O lobisomem, agora com as correntes frouxas e prestes a se romperem por completo, virou-se para ela. A luz da lua refletia em seus olhos, que agora pareciam mais selvagens, mais alienígenas do que nunca. Ele avançou, um borrão de pelos escuros e músculos tensos. Lúcia fechou os olhos por um instante, rezando para que o tempo se estendesse, para que alguma força divina interviesse.
Quando os abriu, Rafael estava a poucos metros de distância. Ele parou, a respiração ofegante e rouca enchendo o ar. A lua, agora no zênite, banhava sua forma em uma luz fantasmagórica. Ele parecia um deus antigo, uma criatura de lendas destinada a assombrar os sonhos dos homens.
"Lúcia...", a voz dele saiu arrastada, distorcida pela transformação, mas com um eco da familiaridade que fez o coração dela apertar. Era um sussurro rouco, um lamento primal.
Ela podia ver a batalha travada em seus olhos, a luta interna entre o homem e a besta. A promessa que ela sentiu antes, a promessa de amor e proteção, agora parecia uma miragem distante, esmagada pela força bruta de sua natureza. Ela sabia, com uma clareza dolorosa, que o homem que ela amava estava sendo consumido, e a fera que restava não reconhecia limites nem apegos.
"Você disse para eu fugir", Lúcia sussurrou, a voz trêmula, mas firme. "Você disse que era para o meu bem. Mas eu não vou fugir. Não vou te deixar sozinho."
O lobisomem inclinou a cabeça, um movimento lento e ameaçador. Um filete de sangue escorria de seu lábio inferior, pingando na terra. Era um espectador de sua própria ruína, e Lúcia sentia o peso de sua impotência.
"É a minha maldição", a voz dele era quase inaudível, um murmúrio de dor. "Eu sou a fera. E a fera... não conhece amor."
As palavras perfuraram Lúcia como flechas. A promessa quebrada, o futuro negado, tudo se desfez em um instante. O homem que ela amava estava se perdendo para sempre, consumido pela escuridão que ele carregava dentro de si.
O lobisomem deu um passo à frente, e Lúcia não recuou. Em vez disso, ela ergueu a faca de seu pai, a lâmina fria refletindo a luz da lua. Ela não sabia o que faria com ela, mas a posse da arma lhe dava uma estranha sensação de controle em meio ao caos. Ela estava pronta para o que quer que viesse, para a verdade cruel da noite. O beijo do lobisomem não seria um ato de amor, mas de desespero. E ela estava prestes a recebê-lo.