O Beijo do Lobisomem

Claro, aqui estão os capítulos 21 a 25 de "O Beijo do Lobisomem", escritos no estilo solicitado.

por Nathalia Campos

Claro, aqui estão os capítulos 21 a 25 de "O Beijo do Lobisomem", escritos no estilo solicitado.

O Beijo do Lobisomem Autor: Nathalia Campos

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Capítulo 21 — A Fúria do Luar e o Coração Despedaçado

O ar da noite em Vila do Sol era carregado de uma tensão palpável, um prenúncio sombrio que se instalava nos corações de todos. A lua cheia, imponente e cruel em seu esplendor prateado, parecia zombar da angústia que consumia Helena. A verdade sobre a origem de sua família, sobre a maldição que os assombrava por gerações, era um fardo que pesava mais do que qualquer montanha. O altar, antes um símbolo de esperança e proteção, agora se revelava um repositório de segredos obscuros e sacrifícios dolorosos.

Sentada na beirada da cama em seu quarto, Helena sentia as lágrimas quentes rolarem por seu rosto. O tecido de sua camisola amassava em suas mãos, os nós dos dedos brancos pela força que ela aplicava. A revelação de Aurora, sua avó, sobre o pacto feito com os primeiros lobisomens da região, um pacto que envolvia a proteção da linhagem feminina em troca de um sangue puro e virgem a cada geração, era um pesadelo que se materializava. E o pior de tudo: o sangue que ela sentia pulsar em suas veias, o sangue que a tornava especial, era o preço.

"Não pode ser verdade", sussurrou para o silêncio do quarto, a voz embargada pelo choro. "Eu não posso ser… a próxima."

A imagem de Arthur, o homem que amava com toda a força de sua alma, o homem que era um lobisomem puro, cruzou sua mente como um relâmpago. O medo a atingiu em cheio. Seus poderes, sua herança, tudo aquilo que a ligava à sua família, a tornava também um alvo. E Arthur, com a lealdade inabalável que sempre demonstrava, estaria em perigo ao seu lado. A simples ideia a fez tremer.

Do lado de fora, os sons da noite se intensificavam. O uivo distante de um lobo parecia ecoar a dor que ela sentia em seu peito. Cada farfalhar de folhas, cada grito de coruja, parecia intensificar a sua solidão. Ela se sentia presa em uma teia cruel, tecida por antepassados que ela mal conhecia, e o fio que a prendia era o próprio destino.

Aurora, com seus olhos fundos e carregados de uma sabedoria ancestral, tentou consolá-la. "Helena, meu amor, eu sei que a verdade é dura. Mas você é forte. Mais forte do que imagina."

"Forte?", a voz de Helena se elevou, um grito de desespero. "O que é essa força, vovó? É a força de ser usada, de ser um sacrifício para que outros vivam? É a força de carregar uma maldição que me afasta de tudo e de todos que eu amo?" Ela se levantou, o corpo trêmulo, e caminhou até a janela. A lua, como um olho vigilante, parecia fitá-la. "Eu não quero isso! Eu quero uma vida normal, vovó. Eu quero amar sem medo, quero construir um futuro sem sombras."

Aurora aproximou-se, tocando gentilmente o ombro de Helena. "A vida é feita de escolhas, minha neta. E a sua força reside justamente na capacidade de fazer a escolha certa, mesmo quando o caminho é tortuoso."

"Escolha? Que escolha eu tenho?", Helena se virou para Aurora, os olhos marejados de raiva e tristeza. "Ou eu aceito meu destino e me torno o que eles querem, ou eu fujo e deixo todos que amo para trás, inclusive o Arthur. É isso? Essa é a minha 'escolha'?"

O peso do altar, das promessas esquecidas e dos segredos guardados, parecia desabar sobre ela. Ela se sentia encurralada, a alma dilacerada pela própria linhagem. O amor por Arthur, tão puro e avassalador, agora se misturava com o medo paralisante de perdê-lo, ou pior, de colocá-lo em perigo.

De repente, um barulho vindo do lado de fora chamou sua atenção. Um uivo mais próximo, mais urgente. Um uivo familiar.

"Arthur!", Helena exclamou, o pânico tomando conta. Ela correu para a porta, ignorando os apelos de Aurora. O vento gelado da noite a atingiu em cheio quando ela abriu a porta, o cheiro forte e selvagem de lobo preenchendo suas narinas.

Correu em direção ao som, a adrenalina pulsando em suas veias. A lua iluminava seu caminho, e ela podia sentir a presença de outros lobisomens se aproximando. A matilha. E Arthur, o seu Arthur, estava no centro de tudo.

Ao chegar à clareira próxima à floresta, ela o viu. Arthur estava no centro, cercado por outros lobisomens, suas formas lupinas imponentes sob a luz da lua. Ele parecia ferido, lutando contra algo que ela não conseguia discernir. O medo a sufocou. Era a sua maldição, a sua herança, que o atraía para este perigo.

Ela sabia que deveria se afastar, proteger a si mesma e a ele. Mas o amor era mais forte que o medo. O amor por Arthur a impulsionava para a frente, em direção à batalha que se desenrolava. Ela viu Arthur levantar a cabeça, seus olhos âmbar encontrando os dela. Havia dor, preocupação e um amor incondicional que fez seu coração apertar ainda mais.

Ele tentou se comunicar com ela, uma linguagem de olhares e movimentos corporais que só eles entendiam. Um aviso. Um pedido. Mas Helena já estava em movimento.

A fúria do luar parecia se manifestar em seu próprio corpo. Um calor estranho percorreu suas veias, e uma força latente se despertou dentro dela. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas sentia uma conexão inexplicável com a lua, com a força que emanava de Arthur e da matilha.

Ela se aproximou cautelosamente, os olhos fixos em Arthur. A tensão no ar era palpável, o cheiro de sangue e de pelo molhado pairando na atmosfera. Ela podia ouvir os rosnados baixos, os gemidos de dor e de raiva. Era uma sinfonia selvagem, e ela era, de alguma forma, parte dela.

Arthur se afastou de seus companheiros, emanando uma aura protetora. Ele se colocou entre Helena e o perigo iminente, um guardião feroz de sua amada. Helena sentiu uma onda de gratidão e amor o invadir. Ele a amava o suficiente para se arriscar, para protegê-la, mesmo sabendo o que ela era e o que a esperava.

No entanto, a verdade era cruel. A sua linhagem, o seu destino, estava intrinsecamente ligado àquele lugar, àqueles seres. Ela era um elo perdido, uma peça fundamental em um jogo muito maior. E o seu coração, despedaçado pela verdade e pelo amor, sabia que a luta estava apenas começando. A fúria do luar, que antes a assustava, agora parecia despertar algo dentro dela, uma força que ela não entendia, mas que, de alguma forma, a conectava a Arthur e àquele mundo sombrio e fascinante. A noite era longa, e as escolhas que ela teria que fazer seriam ainda mais dolorosas.

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