Sombras de Iara na Madrugada
O Encontro Inesperado
por Stella Freitas
O velho pescador, Seu Elias, ajustou o chapéu de palha com um gesto experiente, os olhos enrugados perscrutando a linha d'água como se buscassem segredos ancestrais. Clara o observava de longe, sentada em um tronco caído à margem do rio, a pequena canoa de madeira balançando suavemente próximo a ele. Seu Elias era uma figura lendária na comunidade, um homem que parecia ter nascido com um anzol na mão e um conhecimento profundo das correntes, dos peixes e, diziam alguns, das próprias almas que o rio guardava. Ele era um dos poucos que ainda ancorava sua vida naquela rotina silenciosa e trabalhosa, um guardião de tradições que a cidade moderna parecia querer esquecer. Clara sentia uma afinidade com ele, uma admiração pela sua serenidade e pela sua aparente conexão com a natureza. Ela se aproximou com cautela, o coração batendo um pouco mais rápido. A curiosidade sobre Iara a impulsionava, e Seu Elias, com sua sabedoria popular, poderia ser a chave. "Bom dia, Seu Elias", disse Clara, a voz suave para não assustar o homem. Ele se virou lentamente, um sorriso que iluminou seu rosto marcado pelo sol. "Bom dia, moça. O rio parece que vai ser generoso hoje. O céu tá limpo, a água tá mansa." Ele não parecia surpreso com a presença dela, como se Clara fosse uma aparição comum naquele cenário. "O senhor pesca aqui há muitos anos, não é?", perguntou Clara, sentando-se em um pedregulho próximo. "Desde que era menino, minha filha. Vi esse rio mudar, vi ele crescer e encolher, vi histórias passarem por essas águas." Havia um tom de melancolia em sua voz, uma nostalgia que Clara compreendia. "O senhor já ouviu falar de Iara?", Clara arriscou, o nome saindo em um sussurro. A expressão de Seu Elias mudou sutilmente. Seus olhos se fixaram em Clara por um instante, um olhar profundo que parecia sondar sua alma. Ele fez uma pausa, como se estivesse pesando suas palavras. "Iara... quem nunca ouviu falar de Iara? Dizem que ela é a mãe d'água, que canta pra atrair os homens, que protege os peixes. Mas dizem também que ela leva quem não a respeita." Ele pegou um pequeno pedaço de fumo e começou a enrolar um cigarro. "A senhora parece que tem um interesse especial nela." Clara sentiu um arrepio. "Eu... eu tenho tido sonhos com ela", confessou, hesitando. "Sonhos que me fazem sentir que ela está tentando me dizer alguma coisa." Seu Elias acendeu o cigarro e tragou profundamente, soltando a fumaça lentamente. "Sonhos são avisos, moça. Ou chamados. O rio tem seus segredos, e Iara é um deles. Mas nem todo mundo tá pronto pra ouvir o que ela tem pra dizer." Ele olhou para a canoa, para as redes espalhadas. "Às vezes, o que a gente procura no fundo do rio, a gente encontra dentro da gente mesmo. Mas pra isso, precisa ter coragem de mergulhar."