Sombras de Iara na Madrugada

O Sussurro das Águas Antigas

por Stella Freitas

A brisa noturna, carregada com o perfume adocicado das mangueiras em flor, dançava preguiçosamente pelas palmeiras que beiravam o rio. A lua, um disco prateado e pleno, derramava sua luz sobre as águas calmas, transformando a superfície em um espelho cintilante onde as estrelas se perdiam em reflexos fugazes. Elara, encolhida sobre uma pedra lisa e fria à margem, sentia a umidade subir, acariciando seus pés descalços com um toque espectral. Era ali, naquele ponto isolado, onde o rio se alargava e as lendas sussurravam mais alto, que ela buscava respostas. A noite anterior havia sido um turbilhão de imagens e sensações, um pesadelo que se recusava a se dissipar com a luz do dia. A figura etérea, a voz que parecia emanar das profundezas, o chamado insistente… tudo se misturava em sua mente como a água turva de uma enchente.

Seu coração batia descompassado, um tambor tribal ecoando no silêncio pontuado apenas pelo coaxar distante de sapos e o murmúrio incessante da correnteza. Ela apertou o tecido fino de seu vestido, um gesto inconsciente de autoproteção, como se pudesse afastar as sombras que pareciam se adensar ao seu redor. Lembrou-se das histórias que sua avó contava à beira do fogão a lenha, contos de Iara, a mãe d’água, protetora dos rios e de suas criaturas, mas também de sua ira quando perturbada. Seria possível que a entidade ancestral estivesse tentando se comunicar com ela? Que aviso ou súplica estaria escondido naquele chamado que a perturbava em sonhos?

A noite em Paraty era uma tapeçaria de sons e aromas, uma melodia que Elara conhecia desde pequena, mas naquela madrugada, cada som parecia carregar um significado oculto, cada aroma intensificado, como se a própria natureza estivesse conspirando para lhe revelar um segredo. O vento que balançava as folhas das árvores soava como um lamento, e o reflexo da lua nas águas, antes belo, agora parecia misterioso e, por vezes, ameaçador. Ela fechou os olhos, tentando reviver os fragmentos do sonho. A figura feminina, com cabelos que pareciam algas escuras e olhos profundos como o abismo, a mão estendida, as palavras que ela não conseguia decifrar completamente, mas que ressoavam em sua alma com uma urgência desesperadora.

“Mamãe…”, a palavra escapou de seus lábios em um sussurro quase inaudível, um eco da dor que ela carregava desde que sua mãe desaparecera anos atrás, levada pelas águas traiçoeiras do rio durante uma tempestade súbita. Aquele evento marcara sua vida para sempre, deixando um vazio que nenhuma outra coisa conseguira preencher. A saudade era uma ferida aberta, uma constante lembrança da fragilidade da vida e da força implacável da natureza. E agora, em meio à sua busca por respostas sobre o passado de sua família, ela se via confrontada com algo que parecia transcender a realidade comum.

Uma ondulação na água, próxima a onde ela estava sentada, chamou sua atenção. Não era o movimento comum da correnteza, mas sim um deslocamento suave, como se algo ou alguém estivesse se movendo sob a superfície. Seus olhos se arregalaram, o coração acelerado batendo ainda mais forte. A figura do sonho… seria ela? Elara se levantou lentamente, os músculos tensos, o corpo preparado para reagir a qualquer perigo. Ela se aproximou da beira do rio, a luz da lua iluminando seu rosto pálido e apreensivo. O que ela via ali não eram apenas reflexos. Havia um brilho, uma luminescência suave que parecia emanar das profundezas, pulsando em um ritmo hipnótico. A água, antes transparente, agora parecia ganhar vida própria, as cores se misturando em tons de azul profundo e verde esmeralda, iridescentes e translúcidas.

Um som delicado, como o tilintar de sinos de cristal, flutuou no ar, emanando daquela luz subaquática. Era uma melodia etérea, bela e melancólica, que parecia tocar as cordas mais profundas de sua alma. Elara sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas não era de medo. Era de admiração, de reconhecimento. Algo em sua essência a conectava àquela manifestação aquática, um elo antigo e esquecido que se reativava sob o manto da noite. Ela estendeu a mão, hesitante, na direção da luz, seus dedos tremendo levemente. A água estava fria, mas o toque parecia trazer uma estranha sensação de calor, de pertencimento. Seria este o caminho? Seria esta a porta para as respostas que ela tanto buscava, as respostas que estavam enterradas nas sombras da história de sua família e nas profundezas insondáveis deste rio que ela um dia chamou de lar? As águas antigas pareciam sussurrar, e Elara, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que podia começar a entender.

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