Sombras de Iara na Madrugada
O Chamado das Águas Escuras
por Stella Freitas
A chuva fina que caía lá fora transformara a noite em um véu úmido e sussurrante. Dentro da casa de palha, a luz bruxuleante da lamparina projetava sombras longas e inquietas. Luzia, incapaz de dormir, observava o reflexo da luz nas gotas de água que escorriam pela janela improvisada de plástico. O som da chuva parecia imitar o murmúrio das águas do rio, um som constante que, naquela noite, soava diferente, mais grave, quase como um lamento. Tiago dormia profundamente, o peito subindo e descendo em um ritmo tranquilo, alheio à apreensão que consumia sua avó. Luzia se levantou devagar, sentindo os ossos rangerem com o frio que parecia emanar das próprias paredes. Caminhou até a porta da varanda, puxando o fino cobertor que a protegia do sereno. O ar estava carregado de umidade, e o cheiro da mata se intensificava, misturando-se com o odor salgado do rio. De repente, um som distinto rompeu a monotonia da chuva. Um canto. Um canto feminino, etéreo e hipnotizante, que parecia vir de muito longe, mas que, ao mesmo tempo, parecia envolver a casa, penetrar nas paredes, no próprio ar. Era uma melodia que falava de anseios antigos, de paixões perdidas, de uma beleza melancólica que tocava a alma de uma forma inexplicável. Luzia sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Era o canto que sua avó descrevera, o canto que trazia consigo o mistério e o perigo. O canto de Iara. Mas havia algo mais naquela melodia, uma nota mais profunda, mais sombria, que não se encaixava nas histórias conhecidas da sereia. Era um chamado, um convite irrecusável, que parecia puxá-la para fora, para as margens do rio escuro. A curiosidade, misturada a um medo ancestral, a impeliu. Ela precisava saber. Precisava ver. Deixou a lamparina acesa, um pequeno ponto de luz contra a vastidão escura, e abriu a porta da varanda. O vento gelado a atingiu em cheio, mas ela mal sentiu. Seus olhos, acostumados à escuridão, buscavam a origem do canto. A mata, naquela noite, parecia mais densa, mais misteriosa, com suas sombras se retorcendo em formas fantasmagóricas. O rio, antes um murmúrio sereno, agora parecia um rugido baixo e ameaçador. Ela deu um passo para fora, sentindo a terra fria e úmida sob seus pés descalços. Cada passo a levava mais para perto do rio, mais para perto da fonte do canto. A melodia se tornava mais forte, mais clara, revelando nuances de tristeza e de um poder incontrolável. Luzia se aproximou da beira do rio, onde a água escura beijava a margem lamacenta. A chuva havia diminuído, mas o ar ainda estava saturado de umidade. A noite estava em seu ponto mais escuro, sem lua para iluminar o caminho. E então, ela a viu. Não era uma visão clara, mas uma forma que se materializava nas águas, um vulto translúcido, ondulante, que parecia ser feito da própria névoa da noite e do reflexo das estrelas distantes. Era uma figura feminina, de cabelos longos e escuros que flutuavam na água como algas, e um corpo esguio que se movia com uma graça sobrenatural. Seus olhos, se é que eram olhos, brilhavam com uma luz azulada e fria, que parecia penetrar a alma de Luzia. A figura não tinha uma boca que se movia para cantar, mas a melodia parecia emanar de seu ser, de sua própria existência. Era a manifestação daquele canto, a personificação de um mistério ancestral. Luzia sentiu o medo se misturar a uma admiração profunda. Era mais do que Iara, era algo que habitava as profundezas do rio e da floresta, algo que existia há muito tempo, antes mesmo que os homens construíssem suas casas nas margens. A figura se aproximou da margem, e Luzia pôde sentir uma corrente de frio emanar dela. Não era um frio comum, mas um frio que parecia sugar o calor da vida, um frio que trazia consigo a solidão de eras. A figura estendeu uma mão translúcida em direção a Luzia, e o canto atingiu seu ápice, um crescendo de emoções que pareciam despedaçar a alma.