Noite de Sangue em Ouro Preto

Capítulo 16

por Stella Freitas

Com certeza! Prepare-se para mergulhar de cabeça em Ouro Preto, onde o amor e o sobrenatural se entrelaçam em uma dança perigosa. Aqui estão os capítulos 16 a 20 de "Noite de Sangue em Ouro Preto", como se tivessem sido escritos por uma autora brasileira apaixonada e que adora um bom drama de novela.

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Capítulo 16 — O Sussurro das Sombras na Casa dos Escravos

O ar na Casa dos Escravos parecia ter uma densidade diferente. Clara sentia-o pesar sobre seus ombros, um manto invisível tecido com o sofrimento de séculos. O luar, filtrado pelas janelas empoeiradas e com grades enferrujadas, lançava formas fantasmagóricas sobre os cômodos abandonados. Cada passo dela ecoava no silêncio sepulcral, um som dissonante na sinfonia de lamentos que parecia emanar das próprias paredes.

Ela viera ali por insistência de Daniel. Ele, com seus olhos azuis penetrantes, tão cheios de preocupação e um mistério que a atraía e assustava na mesma medida, sentia uma energia perturbadora vindo daquele lugar. "Precisamos investigar, Clara. Algo está preso ali. Algo antigo e… faminto."

Clara, apesar de seu pragmatismo a maior parte do tempo, não podia negar a corrente de arrepio que a percorria. Desde que ouvira a lenda do espírito vingativo que habitava a antiga senzala, uma parte dela, a que se recusava a ceder ao medo, sentia a necessidade de confrontar aquilo. Talvez para provar a si mesma que era apenas folclore, ou talvez, no fundo de sua alma, para encontrar algum tipo de paz para as almas que ali foram aprisionadas.

"Você não precisa vir, sabe?", disse Daniel, sua voz baixa, mas firme, enquanto eles atravessavam o pátio escuro, a grama alta roçando em suas calças. As ruínas de um antigo fogão a lenha se erguiam como um monumento esquecido.

"Eu sei. Mas eu quero", respondeu Clara, sua voz ganhando uma determinação que a surpreendeu. Ela se aproximou dele, seus ombros se tocando levemente. "Não vou te deixar sozinho nisso. Somos nós contra… seja lá o que for."

Daniel sorriu, um sorriso rápido, mas genuíno, que dissipou um pouco da apreensão. Ele segurou a mão dela, seus dedos entrelaçando-se com os dela. O contato era elétrico, um choque familiar que a fazia esquecer por um instante o perigo. "É bom ter você comigo."

Eles entraram na construção principal. A porta rangiu como um gemido de dor. O cheiro de mofo e poeira era sufocante. Restos de palha seca e fardos de roupas esfarrapadas ainda jaziam em alguns cantos, testemunhas silenciosas de vidas arrancadas. Clara imaginou os corpos magros encolhidos ali, os gritos contidos na garganta, o desespero ecoando em cada batida de coração.

"Sinto algo… pesado", murmurou Daniel, soltando a mão dela para tocar uma parede de pedra úmida. Seus olhos percorriam o ambiente com uma intensidade que Clara já conhecia. Ele sentia o paranormal de uma forma que ela apenas podia observar. "É como se a dor tivesse se impregnado nas pedras."

Clara caminhou mais para dentro, sua lanterna varrendo o espaço. Havia um emaranhado de madeiras caídas no centro, talvez os restos de antigos beliches. Em um canto, um fogareiro enferrujado, onde talvez se preparassem as escassas refeições. Era um quadro desolador.

"Eles dizem que o espírito de uma mulher, Ayla, assombra este lugar", disse Clara, lembrando-se dos contos que ouvira de Dona Aurora, a curandeira da vila. "Ela foi torturada, separada de seu filho e vendida para longe. Morreu aqui, de desgosto e raiva."

Daniel assentiu, seus olhos fixos em um ponto escuro no fundo do cômodo. "Eu sinto a raiva, Clara. Mas há mais. Uma tristeza tão profunda que dilacera a alma." Ele se aproximou do local que observava. Era uma espécie de alcova, mais escura que o resto. Havia um pedaço de tecido velho, desbotado, que parecia ter sido deixado ali propositalmente.

Ao se aproximar, Clara sentiu uma queda brusca na temperatura. O ar ficou gélido, e um arrepio percorreu sua espinha, mais forte do que qualquer outro. Ela agarrou o braço de Daniel, seu coração acelerado.

"Daniel… você sentiu isso?", sussurrou ela, seus olhos arregalados.

"Sim", respondeu ele, sua voz quase inaudível. Seus olhos estavam fixos no tecido. Ele estendeu a mão, hesitando por um instante antes de tocá-lo. No momento em que seus dedos roçaram o tecido, um vento forte soprou dentro do cômodo, levantando poeira e fazendo as poucas teias de aranha balançarem freneticamente. A lanterna de Clara piscou, ameaçando apagar.

Então, eles ouviram. Um sussurro. Vindo de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo. Uma voz etérea, carregada de dor e de uma melancolia insuportável.

"Meu filho… onde está meu filho…?"

Clara engasgou, o ar faltando em seus pulmões. Aquilo não era o vento. Não era um truque da mente. Era real. A energia que emanava da alcova tornou-se quase palpável, uma força invisível empurrando-os para trás.

Daniel se posicionou na frente de Clara, protegendo-a. Ele fechou os olhos por um instante, concentrando-se. "Não podemos ceder ao medo", disse ele, sua voz soando mais forte agora, com uma autoridade estranha. "Ayla, se você pode me ouvir… eu quero ajudar. Sua dor não precisa continuar."

As sombras no canto pareceram se agitar, a escuridão ganhando forma. Um lamento mais alto ecoou, um grito de angústia que fez as próprias pedras tremerem. Clara viu, ou pensou ter visto, um vulto translúcido se formar na alcova. Uma figura esguia, envolta em escuridão, com algo que parecia ser um rosto marcado pela tristeza infinita.

"Eles me tiraram tudo! Me tiraram ele! Quero vingança!" A voz era um grito rouco, carregado de uma fúria antiga.

"A vingança não trará paz, Ayla", insistiu Daniel, sua voz calma em meio ao caos. Ele estendeu a mão, não para tocar, mas para oferecer um gesto de compreensão. "Seu sofrimento… eu o sinto. Mas a raiva apenas perpetua o ciclo. Você precisa encontrar o descanso."

A figura na alcova pareceu recuar, as sombras se dissipando um pouco. O ar gélido diminuiu, embora a opressão permanecesse. Clara sentiu uma pontada de compaixão misturada ao medo. A dor daquela mulher era tão real, tão crua.

"Eles a separaram de seu filho, não foi?", disse Clara, sua voz trêmula, mas firme. Ela se aproximou um pouco mais de Daniel. "Seu filho… ele foi vendido também? Ele sobreviveu?"

Houve um momento de silêncio denso. Então, um sussurro ainda mais fraco, quase inaudível. "Meu pequeno… Samuel… meu Samuel…". A voz parecia se desvanecer, como uma brasa moribunda.

Daniel olhou para Clara, seus olhos refletindo uma nova determinação. "Precisamos descobrir o que aconteceu com Samuel. A resposta pode estar lá fora, não aqui, presa nesta dor."

O silêncio retornou, mas era um silêncio diferente, menos ameaçador. A energia pesada na Casa dos Escravos parecia ter diminuído, como se a confissão, a mera menção do nome de seu filho, tivesse liberado um pouco daquela carga aprisionada.

Clara olhou para a alcova escura, sentindo um misto de alívio e pesar. Eles tinham enfrentado algo real, algo que desafiava a lógica. E o que encontraram foi a dor de uma mãe eternamente em busca de seu filho.

"Vamos sair daqui", disse Daniel, sua voz agora mais suave. Ele pegou a mão de Clara novamente. "E vamos encontrar o que aconteceu com Samuel. Por Ayla."

Ao saírem da Casa dos Escravos, o luar parecia mais claro, o ar da noite mais respirável. Mas Clara sabia que as sombras daquele lugar, e a dor de Ayla, a acompanhariam. A investigação em Ouro Preto estava apenas começando, e o caminho era mais sombrio e complexo do que ela jamais poderia ter imaginado. A antiga senzala havia revelado um segredo, um fio solto que, se puxado, poderia desvendar uma história de tragédia e, talvez, de redenção.

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Capítulo 17 — A Carta Encontrada e o Segredo de Dona Aurora

O amanhecer em Ouro Preto tingia as montanhas de tons dourados e rosados, um espetáculo que contrastava violentamente com a escuridão que envolvia Clara desde a noite anterior. A Casa dos Escravos e o lamento de Ayla ainda ecoavam em sua mente, um fantasma persistente que se recusava a ser ignorado. Ela sabia que Daniel também estava afetado. A intensidade do que sentiram, a realidade daquele espírito atormentado, os unia em uma nova e profunda cumplicidade.

Eles se encontraram na pequena praça da Igreja de São Francisco de Assis. O sol ainda não havia tocado completamente as pedras coloniais, mas a vida já começava a despertar: um vendedor ambulante arrumando sua banca de frutas, o tilintar distante de um sino. Clara observava Daniel, a maneira como ele passava a mão pelos cabelos, a expressão pensativa em seu rosto.

"Você dormiu?", perguntou ela, aproximando-se.

Daniel virou-se para ela, um sorriso cansado no rosto. "Não muito. Ayla não me deixou em paz. E você?"

"Acho que a imagem dela, a dor dela… é difícil de esquecer." Clara olhou em volta, como se temesse que as sombras da noite ainda estivessem espreitando. "Precisamos descobrir algo sobre Samuel. Algum registro, alguma pista."

"Falei com Dona Aurora hoje cedo", disse Daniel, suas sobrancelhas franzidas. "Ela estava apreensiva sobre você ter ido à Casa dos Escravos. Disse que é um lugar de muita energia negativa."

Clara assentiu. "Ela sabe mais do que aparenta, não sabe? Aquela história sobre Ayla… parece que ela a conheceu de alguma forma."

"Ela me disse algo interessante", continuou Daniel, baixando a voz. "Ela mencionou que, quando era jovem, ouvia histórias de uma antiga escrava que guardava um segredo importante. Um segredo que foi passado de geração em geração na família dela, mas que ninguém mais se lembrava completamente. Ela mencionou algo sobre um 'marcador'. Uma forma de identificar algo importante."

"Um marcador? Que tipo de marcador?", Clara perguntou, intrigada.

"Ela não soube dizer. Disse que as histórias eram fragmentadas. Mas ela tem um baú antigo, herdado de sua avó. Ela disse que talvez haja algo lá dentro que possa nos ajudar. Uma carta, um documento… algo que Ayla possa ter deixado para trás."

A ideia de um tesouro escondido, de uma pista ancestral, acendeu uma faísca nos olhos de Clara. Ela adorava enigmas, e este, misturado com o sobrenatural, era irresistível. "Precisamos ir falar com ela. Agora."

O ateliê de Dona Aurora, apesar de simples, transpirava um ar de sabedoria e tranquilidade. As paredes eram adornadas com ervas secas, amuletos e pequenos santos entalhados. O cheiro de incenso e de remédios naturais pairava no ar. Dona Aurora, com seus olhos profundos e sorriso enrugado, recebeu-os com uma hospitalidade calorosa, mas com um toque de preocupação.

"Eu sabia que vocês viriam", disse ela, suas mãos enrugadas gesticulando para que se sentassem. "A energia de vocês me chamou. E a dor daquela alma que vocês encontraram… ela não se cala."

"Dona Aurora, nós precisamos da sua ajuda", começou Daniel, sua voz sincera. "Você mencionou um baú antigo. Algo que Ayla pode ter deixado."

A velha curandeira suspirou, seus olhos perdendo-se em um passado distante. "A história é antiga, meus jovens. Minha avó contava, e a mãe dela contava para ela. Diziam que Ayla, antes de ser vendida para longe, antes de seu pequeno Samuel ser levado, ela guardava algo precioso. Algo que ela confiava que um dia seria encontrado."

Ela levantou-se, caminhando lentamente até um canto do ateliê, onde um grande baú de madeira escura, com entalhes elaborados e ferragens enferrujadas, repousava. "Este baú. Pertenceu à minha bisavó. E antes dela, à minha trisavó. Acredita-se que ele tenha vindo para cá com os primeiros colonos. E com ele, talvez, as memórias que Ayla não pôde levar consigo."

Com um esforço conjunto, eles abriram o baú. O rangido da tampa foi um som dramático, como se o tempo estivesse se abrindo. Lá dentro, camadas de tecido amarelado, rendas desbotadas, e o cheiro inconfundível de papel antigo.

Clara começou a mexer cuidadosamente no conteúdo. Havia um rosário com contas de madeira, um pequeno pedaço de seda bordada, e, no fundo, embrulhado em um pano mais grosso, um maço de cartas amarradas com uma fita desfiada.

"Será que são delas?", sussurrou Clara, o coração batendo forte.

Dona Aurora aproximou-se, observando com atenção. "Acredito que sim. As cartas falavam de um amor proibido, de um filho que era a luz dos olhos dela. E de um plano… um plano para a liberdade."

Daniel pegou uma das cartas com cuidado. O papel era frágil, a tinta desbotada, mas a caligrafia, embora cursiva e elaborada, era legível. Ele começou a ler em voz alta, sua voz embargada pela emoção.

"Meu amado João, Se estas palavras chegarem a ti, saiba que a esperança se esvai a cada dia. A crueldade deste lugar é insuportável. Meu pequeno Samuel, tão inocente, é meu único consolo. Mas temo pelo futuro dele. O senhor de engenho, aquele homem sem alma, olha para ele com cobiça. Tenho medo do que pode acontecer.

Ouvi rumores de um caminho para a liberdade, um que passa pelas montanhas, onde os libertos se reúnem. Mas é perigoso demais para Samuel sozinho. Preciso encontrar uma forma de protegê-lo, de garantir que ele chegue lá em segurança. E se eu não puder ir com ele, preciso deixá-lo em boas mãos. Mãos que você possa confiar, meu amor."

Clara sentiu um aperto no peito. A carta era a prova da dor de Ayla, de seu desespero. Mas havia algo mais ali, uma pista para o destino de Samuel.

"O nome 'João'… quem seria?", perguntou Clara, olhando para Dona Aurora.

A curandeira pensou por um momento. "Há histórias sobre um capataz, um homem chamado João, que era gentil com os escravos. Dizem que ele se apaixonou por uma escrava, mas que o senhor de engenho os separou violentamente. Ele desapareceu logo depois."

"Então Ayla confiava em João", disse Daniel. "E planejava mandá-lo com Samuel. Mas a carta fala de 'mãos que você possa confiar'. Isso sugere que João poderia não conseguir ir com ele."

Eles continuaram lendo as outras cartas. Eram correspondências trocadas entre Ayla e João, cheias de anseio e planos secretos. Uma delas, datada de poucos dias antes do que parecia ser a venda de Ayla, mencionava um local específico, um velho oratório abandonado perto do rio, onde ela esconderia uma 'lembrança especial' para Samuel, caso algo acontecesse.

"Uma lembrança especial…", murmurou Clara. "Isso pode ser o 'marcador' que você mencionou, Dona Aurora?"

"Talvez", respondeu a curandeira, seus olhos brilhando com uma esperança recém-descoberta. "Minha avó falava de um símbolo, uma pequena cruz entalhada em uma pedra. Diziam que era um sinal para algo. Algo escondido."

Daniel pegou a última carta. Era de João. A caligrafia estava mais apressada, quase desesperada.

"Minha Ayla, O perigo é iminente. O senhor de engenho descobriu sobre nossos planos. Preciso ir embora antes que ele me puna. Mas não posso te deixar. E não posso deixar Samuel desprotegido. Encontraremos um jeito. Eu juro. Se algo acontecer, se eu não puder chegar, procure por um homem chamado Matias. Ele é um comerciante que viaja para o sul. Ele te encontrará. E ele ajudará Samuel a chegar ao destino que combinamos. Ele tem a minha palavra e a sua confiançade. A cruz na pedra do oratório, ele saberá o que significa. Encontre-o, Ayla. Encontre o oratório. Ele é a nossa única esperança."

A carta terminava abruptamente, como se João tivesse sido interrompido.

Clara e Daniel se olharam, a magnitude da descoberta pesando sobre eles. Ayla não fora apenas uma vítima; ela era uma mãe lutando por seu filho. E João, o capataz apaixonado, tentara o seu melhor.

"Matias", disse Clara. "Um comerciante. O oratório abandonado perto do rio. E a cruz na pedra. Essa é a nossa pista, Daniel. Precisamos encontrar este oratório."

Dona Aurora assentiu, seus olhos marejados. "A história de Ayla, de sua dor e de seu amor, precisa ser contada. E o destino de Samuel precisa ser conhecido. Minha família sempre sentiu que havia algo mais. Talvez vocês sejam as pessoas certas para desvendá-lo."

Clara sentiu uma onda de determinação. As palavras de Daniel sobre a busca por respostas, sobre honrar as vítimas, ressoavam nela agora mais do que nunca. Aquele não era mais apenas um caso de investigação; era uma missão para dar voz e paz às almas perdidas.

"Vamos lá", disse Clara, levantando-se. "Precisamos encontrar o oratório. E precisamos encontrar Matias, se ele ainda estiver vivo, ou seu rastro. A história de Samuel precisa ser concluída."

Daniel assentiu, seus olhos encontrando os dela com uma intensidade que fez o coração de Clara acelerar. O romance que crescia entre eles, sombreado pelo perigo e pelo mistério, era uma força que a impulsionava. Juntos, eles iriam desvendar os segredos que Ouro Preto guardava, enfrentando as sombras e os ecos do passado. A busca por Samuel e pela verdade havia se tornado a sua busca.

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