Noite de Sangue em Ouro Preto

Capítulo 18 — O Oratório Abandonado e o Encontro com o Passado

por Stella Freitas

Capítulo 18 — O Oratório Abandonado e o Encontro com o Passado

O sol da tarde projetava sombras longas e dançantes pelas vielas de Ouro Preto, um espetáculo de beleza fugaz que Clara e Daniel pareciam não notar. O mapa rústico, desenhado à mão e rabiscado nas margens de um dos papéis encontrados no baú de Dona Aurora, era o seu guia. Ele apontava para uma área mais afastada da cidade, onde o casario dava lugar a matas mais densas e a caminhos menos trilhados. A busca pelo oratório abandonado era um mergulho em um passado esquecido, um lugar onde as histórias cochichavam entre as árvores.

"Tem certeza de que é por aqui?", perguntou Clara, ajustando a alça da mochila em seu ombro. O caminho estava se tornando mais íngreme, e o ar, mais úmido e carregado com o aroma de terra molhada e vegetação exuberante.

Daniel consultou o mapa novamente, sua testa franzida em concentração. "De acordo com isso, sim. Deveria haver um pequeno riacho que marca a entrada para uma trilha mais estreita, e o oratório fica um pouco mais adiante, perto de uma grande figueira."

Eles caminharam em silêncio por mais alguns minutos, o som de seus passos abafado pela mata. Então, Clara ouviu. Um murmúrio suave, o som de água correndo. "O riacho!", exclamou ela, com um fio de esperança na voz.

Seguindo o som, eles encontraram um pequeno curso d'água, límpido e sereno, serpenteando entre as rochas cobertas de musgo. Uma trilha mais estreita, quase engolida pela vegetação, se abria a partir de sua margem. Era o caminho descrito nas cartas.

A medida que avançavam, a mata se adensava, criando um dossel verde que filtrava a luz do sol em feixes esverdeados. O silêncio ali era profundo, quase sagrado, quebrado apenas pelo canto de pássaros exóticos e pelo farfalhar de folhas secas sob seus pés. Clara sentiu uma energia diferente naquele lugar, uma quietude que parecia carregar o peso de muitas histórias.

Finalmente, eles emergiram em uma clareira. E ali estava. O oratório abandonado. Era uma construção pequena e modesta, de pedra e cal, com um telhado parcialmente desmoronado e uma porta de madeira apodrecida que pendia em uma única dobradiça. Ao redor, a natureza havia reclamado o seu espaço, com trepadeiras cobrindo as paredes e pequenas árvores crescendo nas rachaduras do chão.

No centro da clareira, imponente e antiga, erguia-se uma figueira colossal, seus galhos retorcidos se estendendo como braços de um gigante adormecido. Era o marco descrito por João.

"É aqui", disse Daniel, sua voz baixa, quase reverente. Ele aproximou-se da figueira, examinando o tronco maciço. "A cruz na pedra… onde ela estaria?"

Eles começaram a procurar ao redor da base da árvore, afastando folhas caídas e pedras soltas. Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era um lugar que parecia guardado por séculos, um santuário esquecido.

Após alguns minutos de busca infrutífera, foi Clara quem a encontrou. Numa das pedras maiores que compunham a fundação da figueira, quase escondida pelo musgo, estava a marca: uma pequena cruz rudimentar, entalhada com precisão, mas desgastada pelo tempo.

"Daniel! Aqui!", chamou ela, apontando para a pedra.

Daniel apressou-se até ela. Seus olhos brilharam ao ver a cruz. "É ela. A cruz que Matias deveria reconhecer." Ele ajoelhou-se, examinando a pedra mais de perto. "O que isso significa? O que Ayla esconderia aqui?"

Clara pensou nas cartas, na pressa de João, no plano para proteger Samuel. "Talvez não seja algo escondido na pedra, mas algo perto dela. Um lugar que Ayla marcaria para Samuel encontrar, ou para alguém como Matias reconhecer."

Eles começaram a procurar ao redor da pedra com a cruz, afastando a terra com as mãos. A vegetação era densa, e o solo, úmido.

Foi Daniel quem sentiu algo diferente. Uma pequena reentrância na terra, quase imperceptível, coberta por uma laje de pedra solta. "Aqui!", disse ele, sua voz cheia de antecipação.

Juntos, eles moveram a laje de pedra. Sob ela, um pequeno buraco se revelou. Não era profundo, mas abrigava algo. Daniel estendeu a mão com cuidado e retirou um pequeno objeto embrulhado em um pedaço de couro endurecido pelo tempo.

Ao desdobrar o couro, eles encontraram um pequeno amuleto de madeira, finamente entalhado. Era a figura de um menino sorrindo, com uma pequena pedra azul incrustada no lugar dos olhos. Era uma lembrança terna, singela, mas carregada de um amor profundo.

"É… é Samuel?", sussurrou Clara, emocionada.

Daniel assentiu, seus olhos brilhando com a mesma emoção. "É a lembrança que Ayla guardou para ele. O amor de uma mãe, preservado através do tempo."

Mas o que mais chamou a atenção de Daniel foi algo que estava dentro do amuleto, um pequeno pedaço de papel dobrado com extremo cuidado. Ele o desdobrou com delicadeza. Era uma mensagem curta, escrita com a mesma caligrafia de Ayla:

"Para meu amado Samuel. Se este amuleto chegar a ti, saiba que eu te amo mais que a vida. Se não puder estar contigo, que ele te proteja e te lembre de quem você é. Procure por Matias. Ele te levará para um lugar seguro. Ele tem a marca da figueira. Confie nele."

"Então, o plano de Ayla funcionou, em parte", disse Clara. "Ela garantiu que Samuel tivesse algo dela, e instruiu sobre quem procurar caso ela não pudesse protegê-lo. Mas o que aconteceu depois? A carta de João mencionava Matias como uma garantia caso ele não pudesse chegar. Parece que João não conseguiu."

"E Matias?", perguntou Daniel, olhando para o amuleto. "Ele conheceu Ayla? Ele recebeu Samuel?"

Eles sentiram um misto de triunfo e frustração. Tinham encontrado uma pista vital, mas a história de Samuel ainda estava incompleta.

"Precisamos encontrar Matias. Ou o rastro dele", disse Clara, sua determinação renovada. "Se ele ajudou Samuel, talvez possamos encontrar algum registro, alguma família que possa saber o que aconteceu."

Daniel olhou para o amuleto, depois para Clara. "Você acha que Matias ainda estaria vivo? Ou que sua família ainda estaria na região?"

"É uma possibilidade", respondeu Clara. "Ele era um comerciante. Viajava. Talvez ele tenha se estabelecido em algum lugar. Ou talvez seus descendentes ainda vivam por aqui. Ouro Preto é uma cidade antiga, com muitas famílias de longa data."

Enquanto conversavam, Clara notou algo mais na pequena cavidade onde encontraram o amuleto. Era um pequeno pedaço de metal escurecido, com um símbolo gravado que ela não reconheceu imediatamente. Ela o pegou. Parecia ser um tipo de medalhão ou selo.

"O que é isso?", perguntou Daniel, inclinando-se para ver.

Clara examinou o objeto. "Não sei. O símbolo é estranho. Parece uma serpente enrolada em uma espécie de… chave?"

Daniel pegou o objeto. "Isso não estava nas cartas de Ayla. E não se parece com nada que vimos até agora. Talvez seja algo de Matias. Uma identificação."

A descoberta do amuleto e do misterioso medalhão trouxe um novo elemento à investigação. O destino de Samuel estava mais claro, mas a identidade de Matias e seu papel na história ainda eram um enigma. E aquele símbolo… o que ele representava?

Eles voltaram pelo caminho, o amuleto de Samuel guardado com cuidado e o medalhão em mãos. O oratório abandonado, a figueira imponente, o riacho sereno – tudo parecia ter testemunhado aquele momento, guardando os segredos de um passado que começava a se revelar. Clara sentiu que eles estavam mais perto do que nunca de desvendar a verdade por trás da tragédia de Ayla e da busca por seu filho. Mas a presença do medalhão com o símbolo incomum adicionava uma camada de mistério que ia além da história de amor e perda. Era um sinal de que a trama era mais intrincada do que imaginavam, e que havia forças em jogo que eles ainda não compreendiam completamente.

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