Noite de Sangue em Ouro Preto
Capítulo 7 — A Invocação na Rua Direita
por Stella Freitas
Capítulo 7 — A Invocação na Rua Direita
A tarde em Ouro Preto, outrora envolta em uma névoa melancólica, ganhava contornos de urgência. A conversa com Arthur e Dona Lurdes havia deixado Helena em um estado de alerta máximo. O desaparecimento do forasteiro, o rastro escuro que sumira, a sensação de ter sido atacada por uma força invisível… tudo apontava para algo sinistro, algo que ecoava as lendas sombrias que pairavam sobre a cidade.
“Não podemos simplesmente ignorar isso, Helena”, Arthur disse, sua voz ecoando na pequena sala de estar da pousada, onde o aroma de madeira antiga e cera de abelha era quase palpável. Ele caminhava de um lado para o outro, os passos medidos sobre o assoalho de madeira que rangia suavemente. “Se o que você sentiu foi real, e o desaparecimento está ligado a isso, então estamos lidando com algo… antigo. Algo que se alimenta da escuridão.”
Helena, sentada em uma poltrona de veludo desbotado, observava-o com os olhos arregalados. Ela apertava as mãos em seu colo, tentando controlar a ansiedade que a consumia. A imagem do vulto na igreja de São Francisco de Assis, a sensação de frio e desespero que a invadira, tudo voltava à sua mente com uma clareza assustadora.
“Mas o que foi aquilo, Arthur? Aquela energia… era como se algo quisesse me arrancar a alma. E o homem que desapareceu… será que ele foi vítima da mesma coisa?”
“É uma forte possibilidade”, respondeu Arthur, parando diante dela. Seus olhos castanhos, geralmente cheios de curiosidade acadêmica, agora brilhavam com uma intensidade incomum. “Ouro Preto tem uma história de eventos inexplicáveis. E o Largo do Rosário, por sua vez, é um local que sempre foi cercado por mistérios. Dizem que, em tempos antigos, rituais estranhos aconteciam ali. Sacrifícios. Coisas que a história oficial prefere esquecer.”
Ele se inclinou, pousando as mãos nos braços da poltrona, aproximando-se dela. “O que você sentiu, Helena, pode ter sido uma manifestação dessa energia residual. Uma energia que, em certas noites, se torna ativa, buscando algo. E o forasteiro… talvez ele tenha sido o alvo errado, ou o certo, dependendo do ponto de vista.”
Helena estremeceu. “Alvo errado? O que isso significa?”
“Significa que talvez você não tenha sido o alvo principal, mas o que você sentiu foi um reflexo do que aconteceu com ele. Ou talvez você tenha sentido a presença do predador, antes mesmo dele atacar. Seu instinto de sobrevivência, Helena, é muito mais aguçado do que você imagina.”
Ela desviou o olhar, fitando a janela que dava para uma ruela estreita e sinuosa, onde a luz do sol lutava para penetrar. Ouro Preto, com sua beleza deslumbrante, parecia esconder um lado sombrio e perigoso.
“Eu preciso entender, Arthur. Por que eu? Por que essa energia me ataca? O que está acontecendo comigo?”
Arthur suspirou, um misto de compaixão e fascínio em seu olhar. “Eu não tenho todas as respostas, Helena. Mas acredito que sua chegada a Ouro Preto não foi aleatória. Há algo em você que ressoa com a energia deste lugar. Talvez você seja… uma chave. Ou um receptáculo.”
“Receptáculo? Para quê?”
“Para algo que está latente aqui. Algo que precisa de um catalisador para se manifestar plenamente. E essa noite, Helena, a lua cheia… é a noite perfeita para que o véu entre o nosso mundo e o outro se torne mais fino.”
Uma sensação de frio percorreu o corpo de Helena, apesar do calor abafado da tarde. Ela se lembrou do que Arthur dissera antes: “As sombras de Ouro Preto podem se tornar muito perigosas.”
“O que podemos fazer?”, Helena perguntou, sua voz agora firme, determinada a enfrentar o que quer que estivesse por vir. Ela não era mais a turista assustada. Era alguém que sentia a necessidade de desvendar o mistério, de proteger a si mesma e, talvez, a cidade que a acolhera.
Arthur endireitou-se, um brilho de excitação em seus olhos. “Precisamos ir ao Largo do Rosário. Agora. Antes que a noite caia completamente. Precisamos ver com nossos próprios olhos o que restou, o que a energia da lua cheia pode revelar.”
Ele a ajudou a se levantar. “Vamos com calma. Mas vamos com determinação. Você sentiu o perigo, e isso é o primeiro passo para vencê-lo. E eu, bem, eu tenho algumas ferramentas que podem nos ajudar a… iluminar as sombras.”
Enquanto caminhavam pelas ladeiras de paralelepípedos, o sol começava a se pôr, pintando o céu com tons de laranja e roxo. As casas coloniais, com suas janelas e portas de madeira escura, pareciam observá-los com uma curiosidade silenciosa. O som dos sinos de uma igreja distante ecoava pelo ar, adicionando um toque melancólico à paisagem.
Ao chegarem ao Largo do Rosário, o ambiente era diferente daquele que Helena havia presenciado na noite anterior. A igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, com sua fachada imponente e a torre torta que a tornava única, parecia silenciosa e imponente. A praça, agora vazia, exalava uma aura de quietude, quase pacífica. Mas Helena sentia, em cada pedra, em cada sombra, a reverberação do evento que ali ocorrera.
“Não há nada aqui agora”, Helena murmurou, decepcionada. “Apenas… um lugar bonito.”
Arthur sorriu. “A beleza é apenas a superfície, Helena. A verdadeira história está gravada nas entrelinhas, nas memórias que o tempo teima em apagar. Observe com mais atenção.”
Ele se aproximou de um ponto específico no chão, perto do muro da igreja. Seus olhos estavam fixos no chão. “Aqui. A marca que Dona Lurdes mencionou. Era algo escuro, quase como um resíduo de algo que foi queimado, mas ao mesmo tempo… líquido. E quase invisível sob a luz do dia.”
Arthur tirou de sua bolsa um pequeno frasco com um líquido amarelado e um borrifador. “Isso é uma solução especial que preparei. Reage a certas energias residuais. Se o que aconteceu aqui envolveu algo sobrenatural, algo com… essência, digamos assim, isso vai reagir.”
Com um movimento cuidadoso, ele borrifou o líquido sobre o local indicado. Por um instante, nada aconteceu. Helena prendeu a respiração, o coração batendo forte no peito. Então, lentamente, uma fina névoa azulada começou a se formar sobre o chão, delineando formas que Helena sentiu serem assustadoramente familiares. Eram como rastros de energia, contorcendo-se e se espalhando, como se algo tivesse sido arrastado dali.
“Você vê?”, Arthur sussurrou, seus olhos fixos na reação. “Essa é a energia do que quer que tenha levado o homem. Não é algo terreno, Helena. É algo… de outro plano.”
A névoa azulada começou a se concentrar em um ponto específico, perto de uma das árvores centenárias que ladeavam a praça. Parecia pulsante, quase viva. Helena sentiu um arrepio percorrer seu corpo, uma sensação de pavor misturado a uma estranha fascinação.
“Para onde isso leva?”, ela perguntou.
Arthur seguiu a linha da névoa azulada com o olhar. “Para a Rua Direita. Parece que o rastro nos leva para lá.”
A Rua Direita era uma das ruas mais antigas e estreitas de Ouro Preto, conhecida por suas casas históricas e a atmosfera de mistério que a envolvia, especialmente ao anoitecer. Era um local onde as sombras se alongavam com facilidade, e os sons pareciam se amplificar.
“Por que a Rua Direita?”, Helena questionou, uma pontada de medo invadindo sua voz.
“É uma das áreas mais antigas da cidade. Reza a lenda que, em tempos coloniais, era um local frequentado por pessoas que buscavam… soluções para problemas incomuns. Magia, digamos assim. E muitas vezes, essas soluções vinham com um preço alto.” Arthur pegou sua bolsa novamente. “Eu trouxe algo mais. Para nos ajudar a ver o que não é visível.”
Ele retirou um pequeno objeto de metal polido, com cristais embutidos em um padrão intrincado. “Isso é um artefato antigo. Dizem que amplifica a percepção sensorial, permitindo que se veja… energias sutis.”
Enquanto eles caminhavam em direção à Rua Direita, o céu escurecia rapidamente. As luzes das casas começavam a se acender, lançando sombras longas e dançantes pelas ladeiras. O ar ficou mais frio, e um silêncio incomum pairava sobre a cidade.
Ao entrarem na Rua Direita, a sensação de opressão aumentou. As casas pareciam mais próximas, as janelas mais escuras. O rastro azulado de energia, visível agora com a ajuda do artefato de Arthur, serpenteava por entre as casas, em direção a um prédio antigo, com uma fachada escura e uma porta de madeira maciça, desgastada pelo tempo.
“É aqui”, Arthur sussurrou, parando em frente à porta. “A energia se concentra aqui.”
Helena sentiu uma onda de náusea. Havia algo naquele lugar, uma presença sombria e palpável que a fazia querer fugir. Mas a determinação de descobrir a verdade a impedia.
Arthur ergueu o artefato, ajustando os cristais. “Prepare-se, Helena. O que quer que esteja aqui, não é amigável.”
Ele girou a maçaneta da porta de madeira. Para a surpresa de ambos, ela se abriu com um rangido suave, como se estivesse esperando por eles. O interior era escuro, o cheiro de mofo e poeira misturado a um aroma estranho, metálico e adocicado, invadindo suas narinas.
No centro de um cômodo austero, com paredes de pedra crua, havia um círculo desenhado no chão com o que parecia ser giz. E no centro do círculo… Helena sentiu o sangue gelar. A energia naquele local era sufocante, densa, carregada de uma maldade ancestral. Era ali que o forasteiro havia desaparecido. E era ali que a noite de Ouro Preto parecia ter revelado sua face mais sombria.