Noite de Sangue em Ouro Preto

Capítulo 8 — O Ritual da Lua Sangrenta

por Stella Freitas

Capítulo 8 — O Ritual da Lua Sangrenta

A porta rangeu como um lamento ancestral ao se abrir, revelando um interior mergulhado em uma escuridão quase absoluta. O ar, denso e carregado de um odor indescritível – uma mistura acre de mofo, poeira antiga e algo metálico, adocicado e repulsivo –, pareceu abraçar Helena e Arthur como um sudário frio. Eles adentraram o aposento, a luz fraca do crepúsculo exterior mal conseguindo penetrar a penumbra.

“É aqui”, sussurrou Arthur, sua voz grave, tensa. Ele ergueu o artefato em sua mão, e um brilho tênue emanou dos cristais, iluminando um pouco o ambiente. “A energia se concentra aqui. E é forte.”

Helena sentiu um calafrio profundo percorrer sua espinha. Aquele lugar pulsava com uma força que ela reconhecia, uma energia sombria que tentara dominá-la na noite anterior. Era a mesma sensação de sufocamento, a mesma pressão esmagadora que a deixara sem ar. No centro do cômodo, um círculo complexo estava desenhado no chão com um material pálido e fosco, que parecia giz, mas com uma textura mais fina e oleosa. As linhas do círculo eram interligadas por símbolos arcaicos que Helena não conseguia decifrar, mas que emanavam uma aura de poder ancestral e perigoso.

“O que é isso?”, Helena perguntou, sua voz um sussurro rouco. Ela sentiu como se estivesse pisando em solo sagrado, mas um sagrado profano, corrompido.

“Um círculo de invocação, eu diria”, Arthur respondeu, seus olhos percorrendo cada detalhe dos símbolos com um misto de horror e fascínio. “E parece que o ritual foi concluído. Ou interrompido.”

Ele se aproximou do círculo, com cuidado, e com o artefato, apontou para o centro. Uma névoa azulada, mais densa do que a que haviam visto na praça, emanou do chão, formando uma espiral que parecia sugar a pouca luz disponível. A névoa começou a se agitar, e Helena sentiu uma presença sutil, mas inegavelmente poderosa, emergindo dela. Era como se as sombras do cômodo estivessem se adensando, ganhando forma.

“Ele estava aqui”, Helena murmurou, a imagem do vulto escuro voltando com força total. Aquele olhar penetrante, a aura de perigo iminente. “O homem que eu vi… ele estava aqui.”

Arthur concordou com a cabeça, seus olhos fixos na névoa azulada. “E foi levado. Ou consumido. Pela energia que esse círculo invocou. E essa energia… Helena, ela parece estar ligada à sua própria. Há uma ressonância estranha.”

Enquanto Arthur falava, a lua cheia, agora alta no céu, começou a lançar raios de luz prateada através de uma pequena e empoeirada janela no alto da parede. A luz banhou o círculo no chão, e de repente, a névoa azulada começou a brilhar com uma intensidade assustadora. Os símbolos no chão pareceram ganhar vida, emitindo uma luz fraca e pulsante.

“A lua cheia”, Arthur exclamou, sua voz embargada de admiração e temor. “É a lua cheia que ativa completamente o ritual. Helena, o que quer que tenha sido invocado… está se tornando mais forte agora. E pode estar ligado a você.”

De repente, a névoa azulada se retorceu violentamente, formando uma figura esguia e escura, com contornos vagamente humanoides, mas distorcidos, etéreos. Era a personificação do medo que Helena sentira. A criatura parecia não ter feições definidas, apenas um vácuo onde um rosto deveria estar, um vazio que sugava a luz e a esperança.

“O que é isso?”, Helena gritou, recuando instintivamente.

“Não sei ao certo”, Arthur respondeu, erguendo o artefato em uma tentativa de se proteger. “Mas sinto que é algo antigo. Algo que se alimenta de vida, de energia vital. E a sua energia… ela o atrai.”

A criatura sombria se moveu em direção a Helena, deslizando sobre o chão sem tocá-lo. O ar ao redor dela parecia gelar, e um sussurro inaudível, mas penetrante, ecoou na mente de Helena, como um presságio de desespero. Era como se as sombras de Ouro Preto estivessem ganhando voz, e essa voz era a de um predador ancestral.

“Fique atrás de mim, Helena!”, Arthur gritou, posicionando-se entre ela e a criatura. Ele segurava o artefato com firmeza, como se fosse um escudo.

A criatura avançou, seus "braços" sombrios se estendendo em direção a Helena. Arthur, com um movimento rápido, ergueu o artefato e o apontou para a criatura. Uma luz intensa emanou dos cristais, e a criatura recuou com um chiado agudo, como se estivesse sendo queimada.

“Ele não gosta de luz concentrada!”, Arthur gritou. “Mantenha a calma, Helena! Pense em algo forte! Algo que te conecte à vida!”

Helena fechou os olhos com força, concentrando-se. Ela pensou em sua família, em seus amigos, em tudo que amava na vida. Ela pensou na força que sentia dentro de si, uma força que nem mesmo ela compreendia, mas que estava ali, latente. Ela se agarrou a essa força, como um náufrago se agarra a uma tábua.

Quando abriu os olhos, algo havia mudado. Uma luz suave e dourada começou a emanar dela, envolvendo-a em um halo protetor. A criatura sombria hesitou, parecendo confusa com aquela energia nova e inesperada.

“Você também tem poder, Helena!”, Arthur exclamou, surpreso. “Eu sabia que você não era uma pessoa comum!”

A criatura, percebendo que seu ataque direto não estava funcionando, mudou de tática. Ela começou a circular o cômodo, invocando uma energia sinistra que fez as paredes parecerem tremer. Os símbolos no chão brilhavam com mais intensidade, e o ar se tornou ainda mais pesado. Helena sentiu uma dor de cabeça lancinante, como se sua mente estivesse sendo bombardeada por pensamentos sombrios e intrusivos.

“Ele está tentando me sobrecarregar!”, Helena gritou, sua voz fraquejando.

Arthur percebeu. “Ele se alimenta de medo e desespero! Precisamos contra-atacar com esperança e força de vontade!”

Ele olhou para Helena com determinação. “Sua luz, Helena! Intensifique-a! Lembre-se do que a impulsiona, do que a faz lutar!”

Helena respirou fundo, tentando afastar o medo que a consumia. Ela pensou em sua missão, em desvendar os segredos de sua própria existência. Ela pensou na necessidade de proteger aqueles que amava, de não deixar que a escuridão vencesse. A luz dourada ao seu redor começou a brilhar com mais intensidade, dissipando a névoa azulada e fazendo a criatura sombria recuar.

A criatura soltou um guincho de raiva e, com um movimento rápido, lançou um feixe de energia escura em direção a Helena. Arthur se jogou na frente dela, recebendo o impacto. Ele caiu no chão, gemendo de dor, o artefato escorregando de sua mão.

“Arthur!”, Helena gritou, correndo para ele.

A criatura sombria aproveitou a distração. Ela se virou para Helena, o vácuo em seu rosto parecendo se contorcer em uma paródia de sorriso. O ar ao redor dela se tornou insuportável, e Helena sentiu suas forças se esvaírem.

Mas então, algo aconteceu. No momento em que a criatura estava prestes a consumi-la, um rugido ecoou do lado de fora, um som gutural e poderoso que fez as paredes tremerem. E, através da pequena janela, Helena viu. Sob a luz da lua cheia, que agora parecia tingida de um vermelho escarlate, uma sombra gigantesca e alada pairava no céu, emitindo um grito de guerra que ecoou pela cidade.

A criatura sombria dentro do círculo congelou, virando-se lentamente para a janela. Parecia… temer. A luz vermelha da lua inundou o cômodo, e o círculo no chão começou a se desfazer, como se a energia que o mantinha unido estivesse sendo dissipada.

De repente, a criatura sombria se desfez em uma nuvem de fumaça negra, que foi rapidamente sugada para fora do círculo, como se fosse atraída para algo maior. O cômodo ficou em silêncio, apenas o som da respiração ofegante de Helena e os gemidos de dor de Arthur preenchiam o ar. A luz vermelha da lua ainda banhava o local, mas a presença opressora havia desaparecido.

Helena correu para Arthur, ajoelhando-se ao seu lado. Ele estava pálido, mas consciente. “Você está bem?”, ela perguntou, a voz trêmula.

Arthur assentiu fracamente. “Fui atingido com força… mas o artefato… ele desviou o pior. Mas o que foi aquilo… a criatura… e o que estava lá fora?”

Helena olhou para a janela. O céu continuava a brilhar com a luz avermelhada da lua, mas a sombra gigantesca e alada havia desaparecido. No lugar dela, pairava um silêncio sinistro, como se o mundo tivesse prendido a respiração.

“Eu não sei”, Helena respondeu, sua voz embargada. “Mas sinto que algo muito maior está acontecendo em Ouro Preto. Algo que vai muito além de um simples ritual.” Ela olhou para o círculo que se desfazia no chão, para o local onde a criatura sombria havia estado. “E acho que isso tem tudo a ver comigo.” A lua sangrenta no céu parecia confirmar suas palavras, tingindo Ouro Preto com uma aura de perigo iminente e mistério ancestral.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%