A Maldição da Matinta Perera

Capítulo 15 — As Cicatrizes do Rio Escondido

por Luna Teixeira

Capítulo 15 — As Cicatrizes do Rio Escondido

O sol da manhã banhava a floresta amazônica com uma luz dourada e generosa, mas a atmosfera em torno de Isabela e Dona Aurora permanecia sombria. A batalha contra a Matinta Perera na noite anterior havia deixado marcas profundas, não apenas no corpo exausto de Isabela, mas em sua alma. A percepção de que a maldição da entidade estava intrinsecamente ligada ao seu próprio passado familiar, a uma injustiça ancestral, era um fardo pesado, mas também um guia crucial.

"Ela está ligada à nossa família, Dona Aurora," Isabela disse, a voz embargada, enquanto examinava as folhas de um pequeno caderno antigo que haviam encontrado na cabana. Era o diário de sua bisavó, repleto de anotações em uma caligrafia desbotada. "Minha bisavó escrevia sobre um 'segredo sombrio' que ela guardava. Algo que a atormentava, algo que ela chamava de 'a dívida esquecida'."

Dona Aurora, com sua sabedoria ancestral, assentiu. "As histórias antigas se transmitem através das gerações, Isabela, às vezes de forma sussurrada, outras vezes através de um silêncio carregado de significado. A dívida esquecida… isso soa como a origem da quebra do pacto. Uma injustiça cometida por seus antepassados, que a floresta e seus espíritos jamais esqueceram."

Elas estavam sentadas na varanda da cabana, o aroma de café fresco misturando-se ao cheiro úmido da mata. O diário de sua bisavó era um tesouro de informações, mas também um enigma. Havia passagens que falavam de uma "união proibida", de um "sacrifício imposto" e de um "rio que guarda segredos".

"Um rio que guarda segredos," Isabela repetiu, pensativa. "Na noite passada, quando a Matinta se manifestou, eu senti uma conexão com a água. Um chamado."

Dona Aurora levantou uma sobrancelha, um lampejo de reconhecimento em seus olhos. "Há um rio escondido nesta região, Isabela. Um rio que raramente é visitado, cujas margens são guardadas por uma vegetação densa e por antigas proteções espirituais. Dizem que suas águas carregam as memórias da terra, as feridas do passado."

"O Rio Escondido," Isabela murmurou, a palavra soando quase mística. "Acho que é para lá que a Matinta está me chamando. É lá que encontraremos a verdade sobre a dívida esquecida."

Decidiram que partiriam imediatamente. A necessidade de desvendar essa parte sombria de sua história era urgente. A floresta, que antes parecia apenas um cenário de mistério, agora se revelava como um vasto repositório de segredos familiares e de energias ancestrais.

A jornada até o Rio Escondido foi árdua. A trilha, se é que se podia chamar assim, era quase inexistente, um emaranhado de cipós, raízes expostas e folhas caídas. O sol lutava para penetrar a densa copa das árvores, lançando apenas feixes esporádicos de luz sobre o solo úmido. O ar era pesado, carregado de uma energia peculiar, quase palpável. Isabela sentia a presença de algo antigo, algo que observava seus passos.

"A floresta não quer que cheguemos a este lugar," Dona Aurora comentou, sua voz ecoando em meio ao silêncio opressor. "As proteções são fortes. A Matinta não quer que a verdade seja revelada."

Isabela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela entendia. A Matinta, como filha da injustiça, desejava que a dívida permanecesse esquecida, que a ferida na terra continuasse aberta.

Quando finalmente alcançaram o Rio Escondido, a visão era de tirar o fôlego. A água, de um tom escuro e límpido, corria suavemente entre rochas cobertas de musgo. A vegetação ao redor era exuberante e antiga, com árvores centenárias cujos galhos se estendiam como braços protetores. Havia uma aura de serenidade, mas também uma sensação de melancolia, como se o rio guardasse em suas profundezas a tristeza de algo perdido.

"Aqui," Dona Aurora disse, sua voz reverente. "Aqui as águas sussurram as histórias que o tempo tentou apagar."

Isabela se aproximou da margem, o coração batendo forte. Ela estendeu a mão e tocou a água fria. Instantaneamente, imagens começaram a surgir em sua mente, mais vívidas e emocionais do que nunca.

Ela viu uma jovem mulher, com a mesma cor de olhos que ela, cabelos longos e escuros, mas vestida com trajes de uma época passada. Era sua bisavó, a autora do diário. A jovem estava à beira deste mesmo rio, com o semblante angustiado. Ao seu lado, um homem de semblante nobre e olhar terno, com quem ela parecia compartilhar um amor profundo.

"Era o seu amor, Isabela," Dona Aurora sussurrou, como se pudesse ler os pensamentos de Isabela. "O amor proibido de sua bisavó."

Em seguida, a visão mudou. A jovem mulher estava em uma situação de desespero. Havia uma presença ameaçadora, um homem mais velho, com um olhar de ganância e poder, que parecia impor algo a ela. Ela viu a jovem sendo forçada a uma escolha cruel, uma escolha que envolvia a sua felicidade e a segurança de alguém que ela amava.

"Eles foram forçados a se separar," Isabela ofegou, sentindo a dor de sua bisavó como se fosse sua. "O homem rico… ele os separou. Ele tomou algo que pertencia a eles."

Dona Aurora assentiu sombriamente. "A dívida esquecida. O homem rico, um explorador que desrespeitou a terra e seus povos, se apossou de algo que sua bisavó e seu amado guardavam. Algo de grande valor espiritual, ligado à terra e à harmonia dos espíritos. Em troca da segurança dela, e talvez em uma tentativa de proteger o que restava, eles foram forçados a renunciar à sua união e a esse bem precioso."

A visão de Isabela continuou. Ela viu a jovem mulher, sua bisavó, anos depois, sentada à beira deste mesmo rio, escrevendo em seu diário, a dor e o arrependimento estampados em seu rosto. Ela sentiu a promessa quebrada, o pacto desfeito, e a semente da maldição da Matinta Perera sendo plantada. A energia da terra, profanada pela ganância, começou a se distorcer, dando origem à entidade que agora assombrava Isabela e sua família.

"Ela não queria que a verdade viesse à tona," Isabela disse, sentindo as peças se encaixarem. "Ela guardou o segredo para proteger a si mesma, mas, ao fazer isso, ela perpetuou a maldição. E a Matinta… ela se alimenta dessa injustiça, dessa dor."

De repente, uma névoa densa começou a se formar sobre o rio, obscurecendo a visão. A atmosfera pacífica do lugar foi substituída por uma sensação de perigo iminente. Sons estranhos começaram a ecoar, como sussurros distorcidos.

"Ela sabe que descobrimos a verdade," Dona Aurora alertou, sua mão buscando instintivamente o amuleto em seu pescoço. "Ela virá para nos impedir."

E, como se invocada pelas palavras de Dona Aurora, uma figura sombria começou a se materializar no meio da névoa. A Matinta Perera, mais intensa e furiosa do que nunca, seus olhos brilhando com uma luz fria e maligna.

"Você não deveria ter vindo aqui," um sussurro gélido pareceu emanar da entidade, ecoando nas margens do rio. "Esta é a minha dor. E você a carregará para sempre."

Isabela, apesar do medo que a assolava, sentiu uma nova força crescer dentro de si. Ela havia desvendado a origem da maldição. A injustiça havia sido revelada. Agora, restava apenas um passo: confrontar a Matinta e tentar restaurar a harmonia.

"Sua dor é uma ferida na terra," Isabela respondeu, sua voz ecoando com a força da convicção. "E eu vou curá-la."

Ela fechou os olhos, buscando a melodia de João, a canção da harmonia ancestral. Ela sentiu a energia do Rio Escondido fluir através dela, uma energia de cura e de memória. A jornada pelas cicatrizes do passado estava apenas começando, mas, pela primeira vez, Isabela sentia que havia uma chance real de encontrar seu irmão e de libertar a si mesma e à terra da maldição da Matinta Perera.

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