A Maldição da Matinta Perera

Claro, aqui estão os capítulos 16 a 20 de "A Maldição da Matinta Perera", escritos no estilo solicitado:

por Luna Teixeira

Claro, aqui estão os capítulos 16 a 20 de "A Maldição da Matinta Perera", escritos no estilo solicitado:

Capítulo 16 — O Abraço Gelado da Virada

A noite em que a lua se tingiu de um carmesim doentio, prenunciando a mudança, encontrou Isabela encolhida na varanda da casa de Dona Célia. O vento, que antes uivava como um lobo faminto, agora sussurrava segredos gélidos, arrepiando a pele dela até a medula. A mata, antes um santuário de mistérios sussurrantes, parecia agora um monstro adormecido, seus contornos escuros ameaçando engolir a frágil luz da lamparina. O cheiro de terra molhada e jasmim, antes reconfortante, misturava-se a um odor metálico, sutil, mas persistente, que Isabela não conseguia identificar.

Dona Célia, com seus olhos fundos e sábios que pareciam ter testemunhado eras, observava a sobrinha com uma preocupação palpável. As rugas em seu rosto, antes marcas de risadas e tristezas vividas, agora pareciam sulcos profundos de apreensão. "O ar mudou, minha filha", disse ela, a voz rouca como folhas secas raspando no chão. "O véu entre os mundos está mais fino. A Matinta sente."

Isabela apertou o xale em seus ombros, sentindo o frio penetrar não apenas na pele, mas na alma. Desde o incidente no Rio Escondido, onde o véu entre sua sanidade e o mundo sobrenatural se rasgou de forma tão violenta, ela se sentia constantemente à beira de um abismo. As visões, antes esporádicas e confusas, agora a assombravam com uma frequência alarmante. Sombras dançavam no canto de seus olhos, vozes murmúrios se misturavam ao barulho da mata, e a figura etérea da Matinta Perera, com seus olhos que ardiam como brasas, parecia espreitar em cada recanto escuro.

"Eu sei, Dona Célia", respondeu Isabela, a voz trêmula. "Eu sinto. É como se algo estivesse me puxando. Uma força antiga, poderosa, que não me deixa em paz." Ela fechou os olhos, tentando afastar a imagem da criatura que se materializara diante dela à beira do rio. A pele translúcida, os cabelos que pareciam feitos de névoa e o grito que ecoava a dor de séculos.

"É a maldição, Isabela", Dona Célia reafirmou, a firmeza em sua voz um contraponto à fragilidade da sobrinha. "E ela está se fortalecendo. A Lua de Sangue, que se aproxima, será o ápice. A Matinta estará no auge de seu poder."

Os dias que se seguiram foram um borrão de ansiedade e vigília. A vila, antes vibrante e cheia de vida, parecia ter se recolhido em si mesma. As conversas em voz baixa nos mercados, os olhares furtivos lançados para a mata, o silêncio pesado que pairava sobre as casas à noite – tudo denunciava o medo que se instalara nos corações dos moradores. A lenda da Matinta Perera, antes contada como um conto para assustar crianças, tornara-se uma realidade aterradora.

Isabela passava a maior parte do tempo em casa, estudando os antigos pergaminhos que Dona Célia guardava com zelo. Papéis amarelados, com caligrafias intrincadas e símbolos esquecidos, que contavam a história da criatura, sua origem e, o mais importante, as formas de combatê-la. A maldição, segundo os textos, não era apenas um castigo, mas um ciclo, alimentado pela dor e pelo esquecimento. A Matinta era a personificação da vingança de um espírito traído, aprisionado entre os mundos pela ganância e pela crueldade.

"Aqui diz...", Isabela murmurou, passando o dedo sobre um desenho complexo, "...que o ritual de apaziguamento deve ser realizado na noite de Lua Cheia, sob a luz do orvalho sagrado. Mas é preciso oferecer algo de valor inestimável. Algo que represente a renúncia da alma."

Dona Célia assentiu, o olhar fixo em um ponto distante, como se visse além das paredes da casa. "O valor inestimável. É aí que reside o perigo, minha filha. O que temos de mais precioso? Nossas memórias? Nossos desejos? Nossos medos?"

"Ou nosso amor?", Isabela sussurrou, o pensamento vagando para as lembranças de seu reencontro com Miguel. A forma como seus olhos se encontraram, a eletricidade que correu por seus corpos, a promessa tácita de um futuro que agora parecia incerto. Miguel, o âncora que a mantinha ligada à realidade, mas também a fonte de uma dor profunda, pois ele não se lembrava dela. A Matinta, com sua habilidade de manipular as mentes, parecia ter apagado a existência de Isabela da memória dele. Essa dor, mais aguda que qualquer corte, era algo que ela carregava consigo como um fardo pesado.

A notícia de que Miguel estava se aproximando da vila, a trabalho, trouxe um misto de esperança e terror. Poderia ela reconquistá-lo? Poderia fazê-lo lembrar? Ou seria esse reencontro mais uma armadilha da Matinta, destinada a esmagá-la ainda mais? Ela o amava com a intensidade de quem encontra um farol em meio a uma tempestade, e a ideia de perdê-lo para sempre, de vê-lo alheio à sua existência, era insuportável.

Naquela noite, o céu se abriu em um espetáculo de estrelas cadentes. Cada rastro luminoso que cortava a escuridão parecia um lamento silencioso, um eco das almas inquietas. Isabela sentou-se na varanda, não mais tremendo de frio, mas de uma excitação febril. O medo ainda estava presente, mas agora era acompanhado por uma resolução inabalável. Ela não se renderia. Não deixaria que a maldição a consumisse.

"Eu vou lutar", ela declarou para o vento gelado, a voz ganhando força. "Por mim. Por Miguel. E por todos aqueles que a Matinta silenciou."

Um raio de luar, mais intenso que os outros, pareceu banhá-la em uma luz prateada. Por um instante, as sombras ao seu redor recuaram, e ela sentiu uma força ancestral fluir através de suas veias. A Matinta estava observando, ela sabia. E Isabela estava pronta para seu jogo. A virada estava chegando, e com ela, a hora da verdade.

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