A Maldição da Matinta Perera

Capítulo 17 — O Sussurro das Raízes Ancestrais

por Luna Teixeira

Capítulo 17 — O Sussurro das Raízes Ancestrais

A chegada de Miguel à vila foi como um tremor imperceptível que balançou os alicerces de tudo que Isabela acreditava. Ele veio disfarçado de agrimensor, buscando demarcar terras para uma nova estrada que, segundo diziam, seria construída em breve. No entanto, para Isabela, cada passo dele em solo familiar era um convite para a dor e a esperança. Ele caminhava com a mesma postura confiante de sempre, o olhar perspicaz que ela tanto amava, mas seus olhos passavam por ela como se fosse uma estranha qualquer. A frieza em seu olhar era um golpe mais cruel do que qualquer grito sobrenatural.

"Ele não se lembra", sussurrou Dona Célia, vendo a agonia estampada no rosto da sobrinha enquanto observavam Miguel de longe, conversando com o prefeito da vila. "A Matinta é cruel em sua arte de esquecimento. Apaga não apenas a memória, mas a própria essência."

Isabela assentiu, sentindo um nó na garganta. Aquele homem, que um dia lhe prometera o mundo, que dividira com ela risadas e segredos sob o manto estrelado, agora era um estranho. A ironia era dolorosa: ela, que estava prestes a confrontar um espírito ancestral, não conseguia sequer reaver a memória do homem que amava.

Nos dias seguintes, Isabela observou Miguel de longe, sentindo um misto de saudade e frustração. Ele era a imagem da perfeição inatingível, alheio à tempestade que se formava em seu interior. Ela o via interagindo com os moradores, sua simpatia natural e sua competência profissional conquistando a todos. Ninguém ali parecia notar a névoa sutil que parecia pairar sobre ele, a aura de distanciamento que só ela, com seus sentidos aguçados pela maldição, conseguia perceber.

Uma tarde, enquanto Miguel inspecionava uma área próxima à mata, Isabela decidiu que não poderia mais se esconder. Ela precisava tentar. Precisava sentir, pelo menos, um lampejo de reconhecimento em seus olhos. Reunindo toda a coragem que lhe restava, ela caminhou em sua direção, o coração martelando contra as costelas.

"Senhor Miguel?", ela chamou, a voz um pouco mais embargada do que gostaria.

Ele se virou, um leve sobressalto em seus traços. "Sim? Precisa de alguma coisa?" A pergunta era educada, mas desprovida de qualquer calor.

Isabela sentiu o chão sumir sob seus pés. "Eu... eu sou Isabela. Moramos na mesma vila... há muito tempo."

Miguel franziu a testa, um lampejo de esforço em seus olhos. "Isabela... Não me recordo." Ele suspirou, um tom de desculpas em sua voz. "Peço perdão. Minha mente anda um pouco confusa com tantos novos locais. O trabalho tem sido exigente."

A explicação era plausível, mas para Isabela, era um eco da manipulação da Matinta. A dor em seu peito se intensificou, sufocante. "Entendo", ela conseguiu dizer, lutando para manter a compostura. "Espero que seu trabalho corra bem."

Ela se afastou, sentindo as lágrimas quentes ameaçarem cair. Aquele breve encontro fora um lembrete brutal da distância que os separava. A maldição não havia apenas roubado a memória de Miguel; havia roubado o vínculo que os unia.

No entanto, a resistência de Isabela não era apenas emocional. Ela sabia que a chave para quebrar a maldição residia em compreender a origem do sofrimento da Matinta. Os pergaminhos falavam de um pacto antigo, de uma injustiça perpetrada por um homem poderoso que desonrou um amor verdadeiro. A Matinta, uma mulher traída e humilhada, jurara vingança contra todos que ousassem amar e serem traídos da mesma forma.

Ela passou horas a fio imersa nos textos antigos, decifrando runas e símbolos esquecidos. O cheiro de papel velho e poeira impregnava suas roupas e seus cabelos. Dona Célia a observava, com um misto de admiração e preocupação.

"Essas histórias falam de um homem chamado Corvo Negro", Isabela disse certa noite, a voz cansada, mas determinada. "Ele era um senhor de terras ganancioso que seduziu a jovem Índia de uma tribo da floresta, prometendo-lhe amor e proteção. Usou-a para obter acesso aos segredos da mata, os curativos e as energias que protegiam o povo dela. Quando não precisou mais dela, a abandonou, levando consigo a riqueza que roubara. A jovem, desonrada e com o coração partido, em sua dor e raiva, invocou os espíritos da mata. Transformou-se na Matinta Perera, um espírito de vingança eterno."

"E a maldição?", perguntou Dona Célia, a voz baixa. "O que ela tem a ver com você?"

"Os pergaminhos indicam que a maldição se perpetua através de uma linhagem de mulheres que carregam em si uma centelha do espírito da Índia traída. Uma centelha de dor e de desejo por justiça. A Matinta escolhe uma herdeira a cada geração para ser a portadora de sua angústia, até que a injustiça seja reparada." Isabela olhou para suas próprias mãos, sentindo um arrepio. "Acredito que eu seja essa herdeira."

Dona Célia a abraçou, o abraço apertado e reconfortante. "Você não está sozinha, minha querida. Sua força é maior do que a maldição. Sempre foi."

A proximidade da Lua de Sangue trazia consigo uma mudança palpável na atmosfera. O ar da floresta tornava-se mais denso, carregado de uma energia sinistra. Os animais pareciam mais inquietos, e os moradores evitavam sair de suas casas após o anoitecer. As sombras pareciam se alongar, ganhando formas sugestivas.

Uma noite, enquanto Isabela estudava um mapa antigo que indicava locais sagrados na mata, ela sentiu uma presença. Não era a familiar e ameaçadora presença da Matinta, mas algo mais sutil, mais antigo. Ela fechou os olhos, concentrando-se. Um murmúrio suave, quase inaudível, parecia emanar da terra sob seus pés. Eram as raízes, as raízes ancestrais da floresta, que pareciam querer se comunicar.

Ela abriu os olhos e se aproximou da janela, olhando para a escuridão lá fora. Ela podia sentir a força vital pulsando na mata, uma energia que, apesar de ameaçadora, continha também a sabedoria de séculos. As raízes, ela percebeu, eram a memória viva da floresta. Elas testemunharam a ascensão e a queda de tribos, a chegada de forasteiros, a dor e a alegria. E elas guardavam um segredo.

"As raízes...", ela sussurrou, um lampejo de compreensão em seus olhos. "O ritual... Não é apenas sobre oferecer algo. É sobre restaurar o equilíbrio. É sobre honrar a terra e seus espíritos."

Ela voltou aos pergaminhos, sua mente acelerada. Havia uma passagem que ela havia ignorado, considerada secundária, que falava sobre a importância dos locais de poder na floresta, onde as energias da terra eram mais fortes. Locais guardados por árvores ancestrais, cujas raízes se entrelaçavam com a própria essência do mundo espiritual.

"O Orvalho Sagrado...", ela murmurou, lembrando-se da passagem. "Ele só pode ser coletado em locais de extrema pureza espiritual. Locais onde a natureza ainda é intocada pela ganância."

A ideia a atingiu com a força de um raio. A Matinta, em sua dor, havia se tornado um símbolo da corrupção da terra. Para apaziguá-la, era preciso reverter esse processo. Era preciso reconectar-se com a pureza original da mata. E talvez, apenas talvez, esses locais sagrados pudessem conter a chave não apenas para o orvalho, mas para o próprio coração da maldição.

Ela olhou para o mapa novamente, um sorriso tênue surgindo em seus lábios. A jornada seria perigosa. A mata, agora sob a influência crescente da Matinta, era um labirinto de armadilhas e ilusões. Mas pela primeira vez desde que a maldição se manifestara com força total, Isabela sentiu um fio de esperança genuína. As raízes ancestrais estavam sussurrando para ela, guiando-a. E ela estava pronta para ouvir.

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