A Maldição da Matinta Perera

Capítulo 18 — O Pacto de Sangue e Orvalho

por Luna Teixeira

Capítulo 18 — O Pacto de Sangue e Orvalho

A Lua de Sangue se aproximava, e com ela, uma aura de opressão envolvia a vila como um sudário. O ar estava carregado, denso, com um cheiro adocicado e nauseante que lembrava flores em decomposição. Isabela sentia a energia da Matinta cada vez mais forte, um zumbido constante em seus ouvidos, uma sombra dançando na periferia de sua visão. A criatura parecia estar se regozijando, sentindo a proximidade de seu auge de poder.

"Ela está perto, Isabela", disse Dona Célia, seus olhos fixos na lua que, mesmo durante o dia, parecia ter um brilho avermelhado e doentio. "Você precisa estar preparada. Os locais sagrados são a sua única esperança."

Guiada pelos antigos mapas e pela intuição que a maldição despertara, Isabela decidiu que era hora de se aventurar na mata. Não em busca de Miguel, embora o pensamento dele a assombrasse constantemente, mas em busca dos locais sagrados que os pergaminhos mencionavam. Lugares onde a força da natureza ainda resistia à escuridão.

"Não vá sozinha", implorou Dona Célia, segurando o braço da sobrinha com firmeza. "A mata não é mais o que era. A Matinta tece suas ilusões com maestria."

Isabela apertou a mão de Dona Célia. "Eu preciso ir, Dona Célia. É a única chance de quebrarmos essa maldição. Mas não se preocupe. Eu não vou sozinha."

Seu olhar se voltou para a porta, onde um vulto esperava. Era Samuel, o caçador da vila, um homem de poucas palavras, mas de lealdade inabalável. Ele havia testemunhado a força da Matinta, a forma como ela assolara sua família anos atrás, e sabia que Isabela era a única esperança para todos eles.

"Eu a acompanho", Samuel disse, sua voz grave ressoando no silêncio da casa. "A floresta é meu lar. Conheço seus caminhos e seus perigos."

Juntos, eles adentraram a mata, o sol filtrando-se em raios difusos pelas copas densas das árvores. O silêncio inicial logo deu lugar aos sons da floresta, mas agora eles eram tingidos por uma nota dissonante, um prenúncio de algo sombrio. As sombras pareciam mais profundas, mais ameaçadoras, e os galhos retorcidos das árvores assumiam formas grotescas, como garras estendidas.

Enquanto caminhavam, Isabela sentia a presença da Matinta observando-os. Uma sensação de frio percorria sua espinha, e sussurros indistintos pareciam ecoar entre as árvores. Samuel, com sua aguçada percepção de caçador, também sentia a hostilidade do ambiente.

"Ela sabe que estamos aqui", ele murmurou, o arco tensionado em suas mãos. "Está brincando conosco."

O primeiro local sagrado que encontraram era um círculo de pedras antigas, cobertas de musgo e líquens. No centro, uma árvore imponente, cujas raízes pareciam se entrelaçar com a própria terra, pulsava com uma energia serena, mas poderosa. Era o local onde o orvalho da manhã, diziam os pergaminhos, seria mais puro.

"É aqui", Isabela sussurrou, sentindo uma paz estranha emanando da árvore. Ela se ajoelhou, sentindo a terra sob suas mãos. As raízes, ao seu toque, pareceram vibrar, como se reconhecessem uma antiga aliada.

Enquanto coletava o orvalho em um pequeno frasco de cristal, uma névoa densa começou a se formar ao redor deles. As árvores pareceram se fechar, bloqueando a luz do sol. E então, ela surgiu. A Matinta Perera, em toda a sua glória aterrorizante. Seus olhos ardiam com um fogo negro, e seus cabelos esvoaçavam como serpentes.

"Vocês ousam perturbar meu domínio?", a voz da Matinta ecoou, um grito que parecia rasgar o próprio tecido da realidade. "Vocês buscam algo que lhes foi roubado, assim como me roubaram!"

Samuel disparou uma flecha, que atravessou a névoa, mas não atingiu a criatura. A Matinta riu, um som agudo e cruel. "Vocês são tolos se pensam que podem me deter."

Ela estendeu uma mão translúcida em direção a Isabela, e a jovem sentiu a força que a aprisionava ser amplificada. Imagens de sua infância, de seu amor por Miguel, de seus medos mais profundos, inundaram sua mente, distorcidas e assustadoras. A Matinta estava tentando quebrar sua vontade, esmagá-la com o peso de sua própria dor.

Mas Isabela não cedeu. Ela se lembrou das palavras dos pergaminhos, do pacto de sangue e orvalho. Ela segurou o frasco com o orvalho sagrado, sentindo a pureza da terra em suas mãos.

"Você sofreu uma traição", disse Isabela, a voz firme apesar do medo que a consumia. "E por isso, espalha a dor. Mas a vingança cega não trará paz. Apenas mais sofrimento."

A Matinta hesitou por um instante, surpresa com a ousadia de Isabela. Samuel aproveitou o momento para se posicionar, cobrindo Isabela.

"Este orvalho, coletado na pureza da terra, é um símbolo de cura", continuou Isabela, erguendo o frasco. "É um convite para o perdão. Para a renúncia da mágoa. E eu ofereço isso a você."

Ela derramou o orvalho no chão, em frente à Matinta. O líquido cintilou ao toque da terra, e uma luz suave emanou dele, dissipando a névoa escura. A Matinta recuou, um rosnado de dor e raiva escapando de seus lábios.

"Você não pode me curar!", ela gritou. "Minha dor é eterna!"

"Não é a mim que você deve perdoar", respondeu Isabela. "É a si mesma. E à memória da terra que a viu sofrer. Aceite este presente, Matinta. Aceite a chance de encontrar a paz."

A Matinta observou o orvalho brilhante, seus olhos flamejantes diminuindo de intensidade. Era como se uma antiga ferida estivesse sendo tocada, uma dor que ela carregava há séculos começasse a ceder. Mas a maldição era poderosa, e a vingança, um hábito arraigado.

"Isso não acabou!", ela sibilou, sua forma começando a se desfazer na névoa. "A Lua de Sangue está chegando! E com ela, seu fim!"

A criatura desapareceu, deixando para trás apenas o eco de sua voz e a sensação de um confronto doloroso, mas não totalmente perdido. Samuel abaixou o arco, o corpo tenso.

"Ela voltará", ele disse.

"Eu sei", respondeu Isabela, sentindo o peso da responsabilidade em seus ombros. "Mas agora, nós temos o orvalho. E temos a esperança."

Eles continuaram sua jornada, em busca de outros locais sagrados, coletando mais orvalho. Cada lugar era uma batalha contra as ilusões da Matinta, contra os medos que ela tentava instigar. Em cada local, Isabela oferecia o orvalho, um ato de purificação e apaziguamento. Não era um ato de rendição, mas de coragem, de enfrentamento da dor com compaixão.

A cada passo, ela sentia a força da maldição diminuir um pouco. A energia sombria que pairava sobre a mata parecia se dissipar, dando lugar a uma aura mais leve, mais pura. As raízes ancestrais pareciam vibrar em gratidão, e o murmúrio da floresta soava agora como um cântico de esperança.

No entanto, a ameaça da Lua de Sangue pairava sobre eles. Isabela sabia que o ritual de apaziguamento, por mais que a força da Matinta estivesse sendo enfraquecida, precisava ser concluído. E o preço, como os pergaminhos indicavam, era algo de valor inestimável. Algo que representasse a renúncia da alma. E enquanto o orvalho curava a terra, ela temia o que teria que oferecer de si mesma para quebrar a maldição de vez. O pensamento de Miguel, de seu amor esquecido, trazia uma pontada de dor que parecia ser a única coisa que lhe restava de preciosamente seu.

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